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sábado, 24 de setembro de 2022

1936: Como a "Frente Popular" na França e na Espanha mobilizou a classe trabalhadora para a guerra (2006)

 

 

Apresentação

A presente tradução foi realizada através do texto disponibilizado aqui pela ICC (International Communist Current), publicado em 2006. 

Consideramos a tradução deste artigo importantíssima visto os tópicos citados e sua relevância para o contexto atual da luta de classes no território brasileiro, em que impera a mobilização da classe trabalhadora para a defesa da democracia. Não consideramos isso uma particularidade de nossa classe nesse país, mas a maneira através da qual a burguesia vem esmagando e recuperando as diferentes revoltas que tem acontecido, como por exemplo no Chile. Isso também não nos é surpresa, como já dito em um material compartilhado anteriormente nesse blog a dominação e retomada de controle pela burguesia opera através da falsificação do conteúdo das lutas e pela repolarização do proletariado em diferentes frentes a favor de um ou outro lado burguês. 

No contexto brasileiro e no Chile, essa repolarização se dá no presente principalmente pelos polos do fascismo e do antifascismo, em que a defesa da democracia se torna a batalha mais importante para salvar o mundo da barbárie fascista e a democracia é colocada como o maior interesse dos explorados, que representaria um mundo capitalista completamente livre e justo.  

Por esse motivo, consideramos que a tradução desse artigo e seu fazer conhecer entre os círculos brasileiros seria de muita serventia, de modo a nos conectar com o fio histórico que liga nossas lutas atuais com esses ensinamentos históricos das experiências passadas de nossa classe.


1936: Como a "Frente Popular" na França e na Espanha mobilizou a classe trabalhadora para a guerra (2006)

 

Setenta anos atrás, em maio de 1936, uma enorme onda de lutas dos trabalhadores irrompeu espontaneamente contra a exploração ampliada provocada pela crise econômica e o desenvolvimento da economia de guerra. Na Espanha, em julho do mesmo ano, a classe operária iniciou imediatamente uma greve geral e pegou em armas em resposta à revolta militar de Franco. Muitos revolucionários, incluindo alguns dos mais conhecidos como Trotsky, interpretaram estes eventos como o início de uma nova onda revolucionária internacional. Na verdade, eles foram enganados pelo apoio entusiasta das multidões, por uma compreensão superficial das forças presentes e pela natureza "radical" de alguns dos discursos.


Com base em uma análise clara do equilíbrio de forças em nível internacional, a esquerda comunista italiana (em sua revista, Bilan) percebeu que as Frentes Populares estavam longe de ser a expressão de um desenvolvimento do movimento revolucionário. Pelo contrário, elas mostraram que a classe estava ficando cada vez mais enredada pela ideologia nacionalista e democrática e estava abandonando a luta contra os efeitos da crise histórica do capitalismo. "A Frente Popular mostrou ser o processo concreto da dissolução da consciência de classe do proletariado, a arma destinada a manter os trabalhadores no terreno da preservação da sociedade burguesa em todos os aspectos de suas vidas social e política". (Bilan n°31, maio-junho de 1936). Com grande rapidez, tanto na França como na Espanha, o aparato político da esquerda "socialista" e "comunista" se colocaria à frente desses movimentos. Ao encerrar os trabalhadores na falsa alternativa do fascismo/antifascismo, eles sabotaram o movimento de dentro, orientaram-no para a defesa do Estado democrático e por fim alistaram os trabalhadores na França e na Espanha no segundo massacre imperialista mundial.


Hoje há um lento ressurgir da luta de classes e novas gerações aparecem em busca de alternativas radicais ao fracasso cada vez mais manifesto do capitalismo. Neste contexto, movimentos "antiglobalização", como o ATTAC, denunciam o liberalismo desenfreado e a "ditadura do mercado", que "arrebata o poder político das mãos dos Estados, e portanto dos cidadãos" e clama pela "defesa da democracia contra a ditadura financeira". Este "outro mundo" proposto pelos partidários da "antiglobalização" frequentemente toma medidas inspiradas nas políticas dos anos 30, 50 ou 70, quando o Estado supostamente desempenhou um papel muito mais importante como ator econômico imediato. Deste ponto de vista, as políticas dos governos da Frente Popular, com seus programas de controle estatal da economia, "da unidade de todos os estratos da população trabalhadora contra os capitalistas e a ameaça fascista", desencadeando uma "revolução social", são exageradas a fim de apoiar a afirmação de que "outro mundo", que outras políticas, são possíveis dentro do capitalismo.


Portanto, é absolutamente essencial, por ocasião deste 70º aniversário, lembrar o contexto e o significado dos acontecimentos de 1936:

  • recordar as trágicas lições destas experiências, em particular a armadilha fatal para a classe trabalhadora de abandonar o terreno da defesa intransigente de seus interesses específicos para submeter-se às necessidades de um ou outro campo burguês;

  • denunciar as mentiras espalhadas pela "esquerda", de que foram a encarnação dos interesses da classe trabalhadora ao longo destes acontecimentos, mostrando que eles foram de fato o seu executor.

     

A década de 1930 foi caracterizada pela derrota da onda revolucionária de 1917-23 e pelo triunfo da contrarrevolução. Eles foram fundamentalmente diferentes do atual período histórico de ressurgimento das lutas e do lento desenvolvimento da consciência. Entretanto, a nova geração de proletários que tentam fugir da ideologia contrarrevolucionária, se depara continuamente com essa mesma "esquerda", suas armadilhas e manipulações ideológicas, embora agora use as novas roupas de "antiglobalização". Só é possível escapar delas reapropriando-se das lições, conquistadas de maneira tão difícil, da experiência passada do proletariado.

 

A Frente Popular fortaleceu a luta contra a exploração capitalista?


A Frente Popular afirmou que estava "unificando a força do povo contra a arrogância dos capitalistas e a ascensão do fascismo". Mas será que elas realmente deram início a uma dinâmica que fortaleceu a luta contra a exploração capitalista? Foram realmente um passo para o desenvolvimento da revolução? Para responder a isso, uma abordagem marxista não pode se basear exclusivamente no tom radical dos discursos e na violência das erupções sociais que sacudiram vários países da Europa Ocidental na época. Ela toma como base uma análise do equilíbrio de forças entre as classes a nível internacional e para todo o período histórico. Qual foi o contexto geral de forças e fraquezas do proletariado e de seu inimigo mortal, a burguesia, no qual ocorreram os acontecimentos de 1936?


O produto da derrota histórica do proletariado


A poderosa onda revolucionária forçou a burguesia a terminar a guerra, levou a classe trabalhadora ao poder na Rússia e abalou as fundações do poder burguês na Alemanha e em toda a Europa Central. Em seguida, durante toda a década de 1920, o proletariado sofreu uma série de derrotas sangrentas. O esmagamento do proletariado alemão em 1919 e depois em 1923 pelos social-democratas do SPD abriu o caminho para a ascensão de Hitler ao poder. O trágico isolamento da revolução na Rússia assinou a sentença de morte da Internacional Comunista e deixou o caminho aberto para o triunfo da contrarrevolução estalinista, que aniquilou toda a velha guarda dos bolcheviques e a força viva do proletariado. Finalmente, a última centelha proletária foi impiedosamente extinta na China em 1927. O curso da história havia sido invertido. A burguesia havia obtido vitórias decisivas sobre o proletariado internacional e o curso rumo à revolução mundial foi substituído por uma marcha inexorável rumo à guerra mundial. Isto significou o mais horrível retorno à barbárie capitalista.


Entretanto, apesar de tais derrotas esmagadoras dos batalhões da vanguarda mundial do proletariado, ainda havia episódios de combatividade, às vezes importantes, dentro da classe. Este foi particularmente o caso nos países em que não havia sofrido uma derrota direta, nem física nem ideologicamente, no contexto dos confrontos revolucionários de 1917-1927. Assim, no ponto alto da crise dos anos 30, em julho de 1932, uma greve selvagem irrompeu entre os mineiros na Bélgica, que rapidamente assumiu dimensões insurrecionais. Ela partiu de um movimento contra as reduções salariais nas minas de Borinage. Quando os grevistas foram demitidos, o movimento se espalhou por toda a província e houve violentos confrontos com a polícia. Na Espanha de 1931 a 1934, a classe trabalhadora se engajou em várias lutas, que foram brutalmente reprimidas. Em outubro de 1934, todas as áreas de mineração nas Astúrias e o cinturão industrial de Oviedo e Gijon explodiram em uma insurreição suicida, que foi esmagada pelo governo republicano e seu exército, acabando em uma repressão brutal. Também na França, embora a classe trabalhadora estivesse profundamente desmoralizada e exausta pela política "esquerdista" do PC, segundo a qual até 1934 a revolução era iminente e era necessário "criar sovietes em toda parte", ela ainda manifestava uma certa combatividade. Durante o verão de 1935, diante da legislação que decretava grandes cortes salariais para os trabalhadores do setor estatal, ocorreram manifestações impressionantes e confrontos violentos com a polícia nas docas de Toulon, Tarbes, Lorient e Brest. Em Brest, depois que um trabalhador foi espancado até a morte por soldados com a coronha de seus fuzis, os trabalhadores exasperados lançaram violentas manifestações e tumultos entre 5 e 10 de agosto de 1935. Estas terminaram em 3 mortes e centenas de feridos; dezenas de trabalhadores foram presos[1].


Essas expressões de militância contínua, muitas vezes marcadas pela raiva, desespero e desorientação política, foram realmente "explosões de desespero" que mostraram todas as fraquezas da situação internacional de derrota e dispersão dos trabalhadores. A análise de Bilan traz isto à tona em relação à Espanha: 

"Se os critérios internacionais significam alguma coisa devemos dizer que, dada a evidência de um desenvolvimento da contrarrevolução a nível internacional, a orientação da Espanha entre 1931 e 1936 só pode seguir uma direção paralela [isto é, o curso contrarrevolucionário dos acontecimentos], ao invés do curso oposto de desenvolvimento revolucionário. A revolução só pode evoluir plenamente como resultado de uma situação revolucionária em nível internacional." (Bilan n°35, janeiro de 1937). 

 

Entretanto, a fim de mobilizar os trabalhadores daqueles países onde o movimento revolucionário não havia sido esmagado, as burguesias nacionais foram obrigadas a recorrer a uma mistificação específica. Nos países onde o proletariado já havia sido esmagado em um confronto direto entre as classes, a mobilização ideológica para a guerra por trás do fascismo ou do nazismo, ou por trás da ideologia estalinista da "defesa da pátria socialista", eram as formas específicas de desenvolvimento da contrarrevolução. Naqueles regimes políticos que haviam permanecido "democráticos", a mesma mobilização pela guerra foi empreendida em nome do antifascismo. Para isso, a burguesia francesa e espanhola (e outras como a burguesia belga, por exemplo) utilizaram a chegada da esquerda ao poder para mobilizar a classe em suporte ao antifascismo em defesa do Estado "democrático" e para estabelecer a economia de guerra.

A posição assumida pela esquerda em relação às lutas proletárias mencionadas acima mostra claramente que as políticas da Frente Popular não foram desenvolvidas para fortalecer a dinâmica das lutas dos trabalhadores. Durante as greves insurrecionais na Bélgica em 1932, o Parti Ouvrier Belge (POB) e sua comissão sindical se recusaram a apoiar o movimento. Isto serviu para direcionar a raiva dos trabalhadores também contra a socialdemocracia. Os grevistas atacaram a Maison du Peuple em Charleroi e rasgaram ou queimaram seus cartões de filiação ao POB e ao sindicato. A partir do final de 33, o POB apresentou o "Plano de Trabalho", como uma "alternativa popular" à crise capitalista, a fim de canalizar a raiva e o desespero dos trabalhadores.

A Espanha é também uma ilustração particularmente clara do que o proletariado pode esperar de um governo "republicano" e "de esquerda". Desde o início de sua existência, a República Espanhola mostrou que não precisava aprender nada com os regimes fascistas sobre como massacrar trabalhadores. Um grande número de lutas nos anos 30 foram esmagadas pelos governos republicanos ou pelo PSOE até 1933. O PSOE, que estava em oposição na época, incitou a insurreição suicida nas Astúrias, em outubro de 34, com papeado "revolucionário". Em seguida, isolou completamente o movimento, em conjunto com sua união, a UGT, o que impediu qualquer extensão do movimento. Daí em diante, Bilan expôs claramente o caráter dos regimes democráticos "de esquerda": 

"De fato, desde sua fundação em 31 de abril de 1931 até dezembro de 1931, a "guinada à esquerda" da República Espanhola - a formação do governo Azana-Caballero-Lerroux, a amputação de sua direita representada por Lerroux em dezembro de 1931 - não oferece de forma alguma condições favoráveis para o desenvolvimento de posições de classe proletárias ou para a formação de órgãos capazes de liderar a luta revolucionária. Não se trata de forma alguma de ver o que o governo republicano e radical-socialista deveria fazer para o bem da (...) revolução comunista. É uma questão de analisar o significado desta mudança para a esquerda ou para a extrema esquerda, este concerto unânime dos socialistas aos sindicalistas em defesa da república. Criou as condições para o desenvolvimento das conquistas da classe trabalhadora e a direção revolucionária do proletariado? Ou este movimento à esquerda foi ditado pela necessidade do capitalismo de entorpecer os trabalhadores, que haviam sido arrebatados por uma profunda explosão revolucionária, para garantir que não seguiriam o caminho da luta revolucionária. O caminho que a burguesia trilharia em outubro de 1934 era muito perigoso em 1931 (...)" (Bilan n°12, novembro de 1934).


Finalmente, é especialmente significativo que os violentos confrontos em Brest e Toulon no verão de 1935 eclodiram no exato momento em que a Frente Popular foi formada. Como estes se desenvolveram espontaneamente contra os slogans dos líderes políticos e sindicais da "esquerda", esta última não hesitou em caluniar como "provocadores" aqueles que estavam perturbando a "ordem republicana": "nem a Frente Popular, nem os comunistas que estão na linha de frente, quebram janelas, saqueiam cafés ou rasgam a bandeira nacional" (editorial Humanité, 7 de agosto de 1935).

Assim, desde o início, como Bilan mostrou em relação à Espanha a partir de 1933, as políticas da Frente Popular e dos governos de esquerda não se baseavam de forma alguma numa dinâmica de fortalecimento das lutas proletárias. Pelo contrário, desenvolveram-se contra ela, colidiram deliberadamente com os movimentos operários que estavam num terreno de classe para sufocar estas últimas explosões de resistência contra a "dissolução total do proletariado dentro do capitalismo" (Bilan n°22, agosto-setembro de 1935): 

"Na França, a Frente Popular, fiel a sua tradição traiçoeira, não deixará de apelar para o assassinato daqueles que recusam se curvar diante do 'desarmamento francês' e que, como em Brest e Toulon, se engajam em greves por suas próprias exigências, em batalhas de classe contra o capitalismo e para além do domínio dos pilares da Frente Popular" (Bilan n°26, dezembro-janeiro de 1936).


O antifascismo amarra os trabalhadores à defesa do Estado burguês


As Frentes Populares não "uniram as forças populares contra a ascensão do fascismo", pelo menos? Quando Hitler chegou ao poder na Alemanha no início de 1933, a esquerda usou o avanço das facções de extrema direita ou fascistas nos países "democráticos" para mostrar que era necessário defender a democracia por meio de uma ampla frente antifascista. Esta estratégia foi posta em prática pela primeira vez na França a partir do início de 1934 e foi posta em marcha por meio de um grande artifício. Um pretexto foi dado pela violenta manifestação de 6 de fevereiro de 1934 em protesto contra os efeitos da crise e da corrupção nos governos da Terceira República. Grupos da extrema direita (Croix de Feu, Camelots du Roi) estavam envolvidos nesta manifestação, assim como militantes do PC. Alguns dias depois, houve uma reviravolta completa na atitude do PC, devido a uma mudança de estratégia por parte de Stalin e do Komintern. Este último havia decidido substituir a tática de "classe contra classe" por uma política de reaproximação com os partidos socialistas. A partir daquele momento, o dia 6 de fevereiro foi apresentado como uma "ofensiva fascista" e uma "tentativa de golpe de estado" na França.

O motim de 6 de fevereiro de 1934 permitiu à esquerda exagerar a existência de uma ameaça fascista na França e, consequentemente, lançar uma ampla campanha para mobilizar os trabalhadores em nome do antifascismo para a defesa da "democracia". A greve geral convocada tanto pelo PC como pela SFIO (Section française de l'Internationale ouvrière) a partir do dia 12 coroou o antifascismo com o slogan "Unidade! Unidade contra o fascismo!". O PC francês assimilou rapidamente a nova orientação e na conferência nacional em Ivry, em junho de 1934, declarou Thorez: "No momento atual, o fascismo é o principal perigo. É contra isto que devemos concentrar toda a força de nossa ação proletária de massas e conquistar para esta ação todos os estratos de trabalhadores da população". Esta perspectiva resultou na rápida assinatura de um acordo bilateral entre o PC e a SFIO em julho de 1934.

Desta forma, o antifascismo tornou-se o ponto em torno do qual foi possível reagrupar todas as forças burguesas que estavam "apaixonadas pela liberdade" atrás da bandeira da Frente Popular. Também permitiu que os interesses do proletariado fossem ligados aos do capital nacional, formando a "aliança da classe trabalhadora com os trabalhadores das classes médias" para poupar a França "da vergonha e dos males de uma ditadura fascista", como disse Thorez. Como extensão disto, o PC francês desenvolveu o mote "200 famílias que saqueiam a França e vendem a baixo custo o interesse nacional". Assim, todos, com exceção destes "capitalistas", estavam sofrendo por causa da crise e se solidarizavam uns com os outros. Desta forma, a classe trabalhadora, e seus interesses de classe, foram afogados no povo e na nação em oposição a "um punhado de parasitas".

Por outro lado, o fascismo era denunciado diariamente e histericamente como o único elemento que levava à guerra. A Frente Popular mobilizou a classe trabalhadora em defesa da pátria contra o invasor fascista e o povo alemão foi identificado com o nazismo. Os slogans do PC francês chamavam todos a "comprar francês!" e glorificavam a reconciliação nacional. Assim, a esquerda arrastou o proletariado para defesa do estatismo por meio do nacionalismo mais ultrajante, a pior expressão do chauvinismo e da xenofobia. 

O ponto alto desta intensa campanha foi uma aliança eleitoral e a formação pública da Frente Popular em 14 de julho de 1935. Para a ocasião, os trabalhadores foram obrigados a cantar o hino nacional francês sob retratos conjuntos de Marx e Robespierre e foram obrigados a gritar "Viva a República Francesa dos soviets!". Ao concentrar todas as ações no desenvolvimento da campanha eleitoral para a "Frente Popular pela Paz e pelo Trabalho", os partidos de "esquerda" redirecionaram as lutas para fora do terreno de classe em direção ao da democracia eleitoral burguesa, afogaram o proletariado na massa amorfa do "povo francês" e o canalizaram para a defesa dos interesses nacionais. 

"Isto foi o resultado das novas posições de 14 de julho, que foram uma conseqüência lógica da política chamada antifascismo. A República não era o capitalismo, era o reino da liberdade, da democracia que é, como conhecemos, a plataforma do antifascismo. Os trabalhadores juraram solenemente defender esta República contra os agitadores internos e externos, enquanto Stalin lhes dizia para aprovar o armamento do imperialismo francês em nome da defesa da URSS" (Bilan n°22, agosto-setembro de 1935).


A mesma estratégia de mobilização da classe trabalhadora no terreno eleitoral em defesa da democracia foi utilizada em vários países. Ela os integrou na generalidade dos estratos populares e os mobilizou para a defesa dos interesses nacionais. Na Bélgica, a mobilização dos trabalhadores por trás da campanha em torno do "Plan de Travail" utilizou meios de propaganda psicológica que de forma alguma ficaram aquém da propaganda nazista ou estalinista. Isso resultou na entrada do POB no governo em '35. A propaganda antifascista, liderada pela esquerda do POB em particular, atingiu o clímax em 1937 em um duelo em Brusselles entre Degrelle, o líder do partido fascista Rex, e o primeiro ministro Van Zeeland, que teve o apoio de todas as forças "democráticas" incluindo o PC belga. No mesmo ano, Spaak, um dos líderes da ala esquerda do POB, enfatizou o "caráter nacional" do programa socialista belga. Ele também propôs que o partido se tornasse um partido do povo porque defendia o interesse comum e não mais os interesses de uma classe só!

Entretanto, foi na Espanha que o exemplo francês inspirou mais claramente as políticas da esquerda. Após o massacre nas Astúrias, o PSOE ainda focava sua propaganda em torno do antifascismo, a "frente unida de todos os democratas" e apelava para um programa da Frente Popular contra a ameaça fascista. Em janeiro de 1935 eles assinaram uma aliança da "Frente Popular" com a união UGT, os partidos republicanos e o PC espanhol, com o apoio crítico da CNT e do POUM. Esta "Frente Popular" chamava abertamente à substituição da luta dos trabalhadores pela luta no terreno burguês contra sua facção fascista e a favor de sua ala "antifascista" e "democrática". A luta contra o capitalismo foi enterrada em favor de um ilusório "programa de reforma" do sistema, que tinha que realizar uma "revolução democrática". Ao iludir o proletariado através desta falsa frente antifascista e democrática, a esquerda o mobilizou no terreno eleitoral e obteve um triunfo eleitoral em fevereiro de 1936: 

"Esta [coalizão republicano-socialista em 1931-33] foi uma demonstração conclusiva sobre o uso da democracia como meio de manobra para manter o regime capitalista. Mas depois disso, em 1936, e da mesma forma, foi novamente possível empurrar o proletariado espanhol a alinhar-se, não em defensa de interesses de classe, mas na defesa da "República", do "Socialismo" e do "Progresso" contra a monarquia, o fascismo clerical e a reação. Isto mostra a profunda desordem dos trabalhadores na Espanha, onde o proletariado só recentemente deu provas de sua combatividade e de seu espírito de autossacrifício." (Bilan n°28, fevereiro-março de 1936).

 

De fato, a política antifascista da esquerda e a formação de "Frentes Populares" conseguiram atomizar os trabalhadores, diluí-los dentro da população, mobilizá-los para uma transformação democrática do capitalismo a ponto de imbuí-los de veneno chauvinista e nacionalista. Bilan mostrou-se certo quando a Frente Popular foi formada oficialmente em 14 de julho de 1935: 

"Impressionantes manifestações de massa sinalizam a dissolução do proletariado francês no regime capitalista. Apesar de haver milhares e milhares de trabalhadores marchando pelas ruas de Paris, não há mais uma classe operária lutando por seus próprios objetivos na França, assim como existe na Alemanha. Neste sentido, o 14 de julho marca um momento decisivo no processo de desintegração do proletariado e na reconstrução de uma unidade sagrada da nação capitalista. (...) Os trabalhadores carregaram pacientemente a bandeira nacional, cantaram o hino nacional e até aplaudiram Daladier, Cot e outros ministros capitalistas que, junto com Blum e Cachin, juraram solenemente "dar pão aos trabalhadores, trabalho aos jovens e paz ao mundo". Isto significa balas de chumbo, quartéis e guerra imperialista para todos." (Bilan n°21, julho-agosto de 1935).


As medidas econômicas da Frente Popular: o Estado a serviço dos trabalhadores?


Mas será que a esquerda não limitou pelo menos os horrores da livre concorrência do capitalismo "monopolista" através de suas medidas para reforçar o controle do Estado sobre a economia? Não protegeu, portanto, as condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora? Mais uma vez, é necessário colocar as medidas exaltadas pela esquerda dentro do quadro geral da situação do capitalismo.

No início da década de 1930, havia uma anarquia total na produção capitalista. A crise mundial atirou milhões de proletários nas ruas. A crise econômica, produzida pela decadência do sistema capitalista, manifestou-se através de uma grande depressão na década de 1930 (o crash da bolsa de 1929, taxas de inflação recorde, queda na produção e crescimento industrial, aceleração dramática no desemprego). Isto empurrou a burguesia vitoriosa inexoravelmente para a guerra imperialista pela redivisão do mercado mundial super saturado. "Exportar ou morrer" tornou-se o slogan de toda burguesia nacional e foi expresso claramente pelos líderes nazistas.

 

Movimento em direção à guerra e ao desenvolvimento da economia de guerra


Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi privada de suas poucas colônias pelo tratado de Versalhes e ficou com dívidas e reparações de guerra esmagadoras. Foi isolada no centro da Europa e a partir daí surgiu o problema que determinou as políticas de todos os países europeus durante as duas décadas seguintes. Conforme reconstruía sua economia, a Alemanha foi confrontada com a necessidade urgente de encontrar saídas para seus produtos e sua expansão só poderia ocorrer dentro do quadro europeu. Os acontecimentos aceleraram-se quando Hitler chegou ao poder em 1933. As necessidades econômicas que impulsionaram a Alemanha para a guerra encontraram sua expressão política na ideologia nazista: o desafio do Tratado de Versalhes, a demanda por "espaço vital", que só poderia ser na Europa.

Isto convenceu certas facções da burguesia francesa de que a guerra era inevitável e que a Rússia soviética seria um bom aliado para bloquear as aspirações pan-germânicas. Tanto mais que, em nível internacional, a situação estava se tornando mais clara: enquanto a Alemanha deixava as Nações Unidas, a URSS se unia a ela. Anteriormente, esta última havia jogado a carta alemã para se opor ao bloqueio continental, imposto pelas democracias ocidentais. Mas então a relação da Alemanha com os EUA se estreitou à medida que estes últimos investiram na economia alemã, ressuscitaram-na graças ao plano Dawes e apoiaram a reconstrução econômica de um "bastião" ocidental contra o comunismo. Neste momento, a Rússia estalinista reorientou sua política externa para romper esta aliança. De fato, até muito tarde, importantes setores da burguesia dos países ocidentais acreditavam ser possível evitar a guerra com a Alemanha, fazendo algumas concessões e, sobretudo, dirigindo a necessária expansão da Alemanha para o leste. Munique 1938 expressou esta contínua incompreensão da situação e da próxima guerra.

A viagem a Moscou feita pelo ministro francês das Relações Exteriores, Laval, em maio de 1935, sublinhou dramaticamente este posicionamento de peões imperialistas no tabuleiro de xadrez europeu com a aproximação franco-russa. A assinatura por Stalin de um tratado de cooperação, significou seu reconhecimento implícito da política de defesa da França e encorajou o PC francês a votar a favor dos créditos militares. Alguns meses mais tarde, em agosto de 1935, o 7° Congresso do PCUS[2] delinhou as conseqüências políticas para a Rússia de uma possível aliança com os países ocidentais, a fim de enfrentar o imperialismo alemão. Dimitrov nomeou o novo inimigo que tinha que ser combatido: o fascismo. Os socialistas que haviam sido violentamente criticados até então, tornaram-se uma força democrática (entre outras) com a qual era necessário aliar-se para derrotar o inimigo fascista. Os partidos estalinistas de outros países seguiram a virada de 180° de seu irmão mais velho, o PCUS, tornando-se assim os mais ardentes defensores dos interesses imperialistas da chamada "pátria socialista".

Em resumo, todos os países industriais sentiram uma poderosa necessidade de desenvolver a economia de guerra; não apenas a produção maciça de armamentos, mas também toda a infraestrutura necessária para esta produção. Todas as grandes potências, tanto "democráticas" quanto "fascistas", desenvolveram uma política semelhante de grandes obras públicas sob o controle do Estado e uma indústria de armamento inteiramente voltada para a preparação de uma segunda guerra mundial. A indústria se organizou em torno delas; impôs uma reorganização do trabalho, da quais o "taylorismo" foi uma das progênies mais escolhidas.

 

A esquerda e o controle do estado


Uma das principais características das políticas econômicas da "esquerda" foi o fortalecimento das medidas de intervenção do Estado para apoiar a economia em crise e o controle do Estado sobre vários setores da economia. Justificava tais medidas como sendo as "de uma 'economia controlada', de socialismo de Estado, amadurecendo as condições que permitiriam aos 'socialistas' a conquistarem 'pacificamente' gradualmente os principais postos do Estado" (Bilan n°3, janeiro de 1934). Tais medidas foram geralmente elogiadas por toda a socialdemocracia europeia. Elas foram retomadas no programa econômico da Frente Popular na França, conhecido como o plano Jouhaux. Na Espanha, o programa da Frente Popular continha uma ampla política de créditos agrários e um plano de grandes obras públicas para reabsorver os desempregados, bem como uma legislação trabalhista que fixava, por exemplo, um salário mínimo. Podemos ver seu real significado examinando um de seus principais modelos, o "New Deal", que foi desenvolvido nos Estados Unidos após a crise de 1929 pelos democratas sob Roosevelt. Também analisando uma das materializações teóricas mais desenvolvidas deste "Socialismo de Estado", o "Plan de Travail" do socialista belga Henri De Man.

O "New Deal", criado nos Estados Unidos em 1932, era um plano de reconstrução econômica e de "paz social". A intervenção do governo teve como objetivo restabelecer o equilíbrio do sistema bancário e reativar o mercado financeiro, realizar grandes obras públicas (a construção de barragens pela Autoridade do Vale do Tennessee data deste período) e lançar certos programas sociais (sistema de pensão, seguro-desemprego, etc.). O papel da nova agência federal, a National Recovery Administration [Administração de Recuperação Nacional] (NRA), era estabilizar preços e salários em cooperação com empregadores e sindicatos. Ela criou a Public Works Administration [Administração de Obras Públicas] (PWA) para administrar a política de grandes obras públicas.

O governo Roosevelt abriu o caminho - sem saber - para que os partidos de trabalhadores conquistassem as principais alavancas do poder estatal? Para Bilan, o oposto aconteceu: "A intensidade da crise econômica, juntamente com o desemprego e a miséria de milhões de pessoas, acumulou a ameaça de graves conflitos sociais que o capitalismo americano teve que dissipar ou sufocar por todos os meios ao seu alcance" (Bilan n°3, janeiro de 1934). Portanto, longe de serem medidas em benefício dos trabalhadores, as medidas de "paz social" eram ataques diretos contra a autonomia de classe do proletariado. "Roosevelt tinha como objetivo, não dirigir a classe trabalhadora para a oposição de classe, mas dissolvê-la dentro do regime capitalista, sob o controle do Estado capitalista. Assim, os conflitos sociais não poderiam mais surgir a partir da verdadeira luta (de classe) entre os trabalhadores e os patrões e seriam restritos a uma oposição entre a classe trabalhadora e o NRA, um órgão capitalista estatal. Assim, os trabalhadores deveriam desistir de qualquer iniciativa na luta e renunciar o seu destino ao seu inimigo" (Idem.).

Um dos principais arquitetos destas medidas de controle estatal e o homem que foi a inspiração por trás da maioria delas, foi Henri De Man. Ele foi o chefe do instituto do nuúcleo do POB e foi vice-presidente e a luz guia do partido desde 1933. Suas medidas foram postas em prática pelas Frentes Populares, bem como pelos regimes fascistas (Mussolini era um grande admirador seu). Para De Man, que havia feito um estudo detalhado do desenvolvimento industrial e social nos Estados Unidos e na Alemanha, os "velhos dogmas" tinham de ser abandonados. Para ele, a base da luta de classes era a sensação de inferioridade social dos trabalhadores. Assim, em vez de orientar o socialismo em torno da satisfação das necessidades materiais de uma classe (os trabalhadores), ele deveria ser direcionado para valores espirituais universais, tais como justiça, respeito pela personalidade humana e uma preocupação com o "interesse geral". Desta forma, as inevitáveis e irreconciliáveis contradições entre a classe trabalhadora e os capitalistas foram eliminadas. Não somente a revolução deve ser rejeitada, mas também o "velho reformismo", que se torna inaplicável em períodos de crise. Não adianta exigir um pedaço maior de bolo, este que está constantemente encolhendo. Um bolo novo e maior deve ser feito. Este era o objetivo do que ele chamou de "revolução construtiva". Dentro deste quadro, para o congresso de "Natal" do POB de 1933 ele desenvolveu seu "Plan de Travail", que esperava "reformas estruturais" do capitalismo:

  • a nacionalização dos bancos, que continuariam a existir, mas que venderiam parte de suas ações a uma instituição de crédito estatal e se submeteriam às orientações do plano econômico;
  • esta mesma instituição de crédito compraria algumas das ações dos grandes monopólios em certos setores industriais básicos (como o energético), de modo que estes se tornariam empresas mistas sob a propriedade conjunta dos capitalistas e do Estado;
  • além dessas empresas "associadas", um setor capitalista livre continuaria a existir, estimulado e apoiado pelo Estado;
  • os sindicatos estariam diretamente envolvidos na coordenação desta economia mista por meio do "controle dos trabalhadores", uma orientação que De Man defendeu com base na experiência das grandes fábricas nos EUA.


De que forma estas "reformas estruturais", exaltadas por De Man, levaram à defesa da luta da classe trabalhadora? Para Bilan, De Man queria "mostrar que a luta dos trabalhadores deve se restringir naturalmente a objetivos nacionais em termos de forma e conteúdo, que a socialização significava a nacionalização progressiva da economia capitalista ou a economia mista. Sob o pretexto da 'ação imediata', De Man pregou a adaptação nacional dos trabalhadores dentro da 'nação única e indivisível' e ofereceu isto como o refúgio supremo dos trabalhadores que haviam sido controlados pela reação capitalista". Em conclusão, "As reformas estruturais de H. De Man visam colocar a verdadeira luta dos trabalhadores - e este é seu único objetivo - no domínio do irreal. Elas excluem qualquer luta pela defesa dos interesses imediatos ou históricos do proletariado em nome de uma reforma estrutural que, em termos de sua concepção e seus meios, só pode ajudar a burguesia a fortalecer seu Estado de classe, reduzindo a classe trabalhadora à impotência". (Bilan n°4, fevereiro de 1934).

Mas Bilan foi além e situou a proposta do "Plano de Trabalho" no contexto do papel que a esquerda desempenhou no marco histórico do período. "O advento do fascismo na Alemanha encerrou um período decisivo de lutas dos trabalhadores. (...) A socialdemocracia, que foi um elemento essencial nestas derrotas, foi também um elemento na reforma orgânica da vida do capitalismo (...) Ela usou uma nova linguagem para continuar sua tarefa. Rejeitou o internacionalismo verbal, por não ser mais necessário, e passou a uma franca preparação ideológica dos trabalhadores para a defesa de 'sua nação'. (...) É aí que se encontra a verdadeira origem do plano do De Man. Este último foi uma tentativa concreta de sancionar, por meio de uma mobilização adequada, a derrota do internacionalismo revolucionário e a preparação ideológica para incorporar o proletariado na luta em torno do capitalismo rumo à guerra. É por isso que seu nacionalsocialismo tem o mesmo papel que o nacional-socialismo dos fascistas". (Bilan n°4, fevereiro de 1934).

A análise do New Deal e do Plano de De Man ilustra bem que estas medidas não vão de forma alguma no sentido de fortalecer a luta do proletariado contra o capitalismo. Pelo contrário, elas visam reduzir a classe trabalhadora à impotência e fazê-la se submeter às necessidades da defesa nacional. Como diz Bilan, o plano de De Man não pode de forma alguma ser distinguido do programa de controle estatal dos regimes fascistas e nazistas ou dos planos de cinco anos do estalinismo, que haviam sido implementados na URSS a partir de 1928 e que no início inspiraram os democratas nos EUA.

Estes tipos de medidas foram generalizadas porque correspondiam às necessidades do capitalismo decadente. Neste período, a tendência geral ao capitalismo de estado é uma das características dominantes da vida social. "Neste período, cada capital nacional, porque não pode expandir-se de forma irrestrita e confrontado com severas rivalidades imperialistas, é obrigado a organizar-se da forma mais eficiente possível, para que externamente possa competir economica e militarmente com seus rivais e lidar internamente com o agravamento crescente das contradições sociais. O único poder na sociedade que é capaz de cumprir estas tarefas é o Estado. Somente o Estado pode:

  • assumir o controle da economia nacional de forma centralizada e mitigar a concorrência interna que enfraquece a economia, a fim de fortalecer sua capacidade de manter uma face unida contra a concorrência no mercado mundial;
  • desenvolver a força militar necessária para a defesa de seus interesses diante do crescente conflito internacional;
  • finalmente, devido a um aparelho repressivo e burocrático cada vez mais pesado, reforçar a coesão interna de uma sociedade ameaçada de colapso através da crescente decomposição de sua base econômica, (...)" (Plataforma da ICC).


Na realidade, todos esses programas que visavam uma reorganização da produção nacional sob o controle do Estado foram, então, inteiramente voltados para a guerra econômica e para a preparação de outro massacre mundial (a economia de guerra). Eles correspondem perfeitamente à necessidade dos estados burgueses de sobreviverem dentro do capitalismo no período decadente. 


Vitória das Frentes Populares: "revolução social" em marcha?


Mas não seriam estas análises pessimistas varridas pelas greves maciças de maio-junho de 1936 na França e pelas medidas sociais tomadas pelo governo da Frente Popular, e pela "revolução espanhola" que começou em julho de 1936? Estes acontecimentos não confirmam, ao contrário, na prática, o acerto da abordagem das frentes "antifascista" ou "popular"? Quando se trata disso, não foram estas uma expressão concreta da "revolução social" em ação? Examinemos a realidade destes acontecimentos.


Maio-Junho de 1936 na França: os trabalhadores se mobilizaram por trás do Estado democrático


A grande onda de greves que se seguiu imediatamente à ascensão ao governo da Frente Popular após sua vitória eleitoral de 5 de maio de 1936 confirmaria os limites do movimento operário, marcado como foi por uma derrota na onda revolucionária e curvado sob o peso da contrarrevolução.

 

Os "ganhos" de 1936


No dia 7 de maio, uma onda de greves eclodiu na indústria aeronáutica, seguida pelas indústrias de engenharia e automobilística, acompanhada de ocupações espontâneas de fábricas. Apesar de sua combatividade, estas lutas foram um sinal de quão limitada era a capacidade dos trabalhadores de empreender o combate em seu próprio terreno de classe. Nos primeiros dias do movimento, a esquerda conseguiu disfarçar como "vitória dos trabalhadores" o descarrilamento da combatividade dos trabalhadores para o terreno do interesse nacional. É verdade que esta foi a primeira vez que as ocupações de fábrica ocorreram na França: foi também a primeira vez que alguém viu os trabalhadores cantando a Marselhesa junto com a Internacional, ou marchando atrás da bandeira vermelha junto com a tricolor nacional. O aparelho de controle do PC e dos sindicatos continuava a dominar a situação e conseguiu manter os trabalhadores fechados nas fábricas ao som calmante do acordeão, enquanto seu destino era resolvido no topo, nas negociações que iriam levar aos acordos de Matignon. A unidade certamente existia, mas era a do aparelho de controle da burguesia sobre a classe trabalhadora, não a da classe trabalhadora em si. Quando alguns poucos opositores se recusaram a entender que, uma vez assinados os acordos, era hora de voltar ao trabalho, a Humanité lhes explicou que "é necessário saber como parar uma greve... é até mesmo necessário saber como concordar com um compromisso" (Maurice Thorez, discurso de junho de 1936), e que "não devemos assustar nossos amigos radicais".

Durante o julgamento de Riom, realizado pelo regime de Vichy para punir os responsáveis pela "decadência moral da França", o próprio Léon Blum explicou como as ocupações da fábrica haviam sido parte da mobilização nacional: "os trabalhadores estavam lá como guardiães, como supervisores e também, em certo sentido, como co-proprietários. E do ponto de vista especial que lhe diz respeito, o fato de observar a comunidade de direitos e deveres em relação ao patrimônio nacional não leva a garantir e preparar sua defesa comum e unânime? (...) é assim que se cria para os trabalhadores, pouco a pouco, uma propriedade conjunta na pátria; é assim que se ensina a defender a pátria".

A esquerda conseguiu o que queria: levou a combatividade dos trabalhadores ao terreno estéril do nacionalismo, do interesse nacional. "A burguesia é obrigada a recorrer à Frente Popular para canalizar uma inevitável explosão da luta de classes em seu próprio benefício, particularmente na medida em que a Frente Popular aparece como a emanação da classe trabalhadora e não como a força capitalista que dissolveu o proletariado para mobilizá-lo para a guerra" (Bilan n°32 junho-julho de 1936).

Para acabar com qualquer resistência operária, os estalinistas usavam seus porretes contra aqueles que "se deixavam levar à realizar ações imprudentes" (M Thorez, 8 de junho de 1936) e o governo da Frente Popular chamou a polícia para abater os trabalhadores em Clichy em 1937. Ao espancar ou matar as últimas minorias recalcitrantes de trabalhadores, a burguesia conseguiu arrastar todo o proletariado francês para a defesa da nação.

Fundamentalmente, não havia nada no programa da Frente Popular que preocupasse a burguesia. No dia 16 de maio, Daladier, o presidente do Partido Radical, foi tranquilizador: "nenhum artigo do programa da Frente Popular contém nada que possa incomodar os legítimos interesses de qualquer cidadão, preocupar os investidores, ou prejudicar qualquer força de trabalho saudável da França. Não há dúvida de que nem mesmo foi lido por muitos dos que mais apaixonadamente lutaram contra ele" (L'Oeuvre, 16 de maio de 1936). No entanto, para inculcar sua ideologia antifascista e permanecer totalmente credível em seu papel de defensora da pátria e do Estado capitalista, a esquerda teve que distribuir algumas migalhas. Os acordos de Matignon e as pseudo-conquistas de 1936 tornaram possível apresentar a esquerda no poder como "uma grande vitória dos trabalhadores", para ganhar a confiança dos trabalhadores na Frente Popular e sua defesa do Estado burguês mesmo em tempo de guerra.

Este famoso acordo Matignon, assinado em 7 de junho de 1936 e celebrado pela CGT como "uma vitória sobre a pobreza", e que até hoje ainda é apresentado como um modelo de "reforma social", foi portanto a cenoura usada para vender o programa da Frente Popular aos trabalhadores. O que exatamente ele oferecia?

Sob a aparência de "concessões" à classe trabalhadora, tais como aumentos salariais, a semana de 40 horas e feriados remunerados, a burguesia assegurou acima de tudo a organização da produção sob a liderança de um estado "imparcial", como o líder da CGT Léon Jouhaux apontou: "(...) o início de uma nova era (...), a era das relações diretas entre as duas grandes forças econômicas organizadas do país (...) As decisões foram tomadas de forma totalmente independente, sob a égide do governo, este último desempenhando o papel de árbitro quando necessário, o que corresponde à sua função de representante do interesse geral" (discurso de rádio de 8 de junho de 1936). O objetivo era conseguir que os trabalhadores aceitassem aumentos sem precedentes na velocidade das filas através da introdução de novos métodos de organização do trabalho destinados a aumentar em dez vezes a produtividade por hora, especialmente na indústria de armamento. Isto significou a generalização do taylorismo, do funcionamento da linha de produção e a ditadura do cronômetro na fábrica.

Foi Léon Blum pessoalmente quem tirou o véu "social" que havia escondido as leis de 1936, em seu discurso no julgamento de Riom em 1942, que tinha a intenção de lançar a culpa da pesada derrota infligida ao exército francês pelos nazistas em 1940 à porta da Frente Popular e da semana de 40 horas: "O que está por trás da produtividade de hora em hora? (...) depende da boa coordenação e da adaptação dos movimentos do trabalhador à sua máquina; depende também da condição moral e física do trabalhador.

"Há toda uma escola de pensamento na América, a escola de Taylor e os engenheiros Bedeau, que você pode ver na inspeção da linha de fábrica, que realizaram estudos muito minuciosos dos métodos materiais de organização que maximizam a produtividade por hora das máquinas, sendo este precisamente seu objetivo. Mas há também a escola Gilbreth que estudou e pesquisou os dados sobre as condições físicas que permitirão ao trabalhador obter esta produtividade. O ponto essencial é limitar o cansaço do trabalhador (...) você não acha que toda nossa legislação social foi do tipo que melhorou esta condição moral e física do trabalhador: a jornada de trabalho mais curta, mais lazer, feriados pagos, a sensação de ter conquistado uma certa dignidade e igualdade, tudo isso foi pensado como elementos para maximizar a produtividade horária que o trabalhador poderia extrair da máquina".


Foi assim e por isso que as medidas "sociais" do governo da Frente Popular foram necessárias para adaptar e acalmar o proletariado aos novos métodos de produção destinados ao rápido rearmamento da nação antes da eclosão da guerra. Além disso, é notável que os feriados pagos, de uma forma ou de outra, foram concedidas ao mesmo tempo na maioria dos países desenvolvidos rumo à guerra e, portanto, impondo a sua força de trabalho os mesmos aumentos na velocidade de produção.

Em junho de 1936, inspirado pelos movimentos na França, uma greve dos estivadores eclodiu na Bélgica. Depois de primeiro tentar detê-la, os sindicatos reconheceram o movimento e o orientaram para exigências semelhantes às da Frente Popular na França: aumento dos salários, semana de 40 horas e uma semana de férias pagas. Em 15 de junho, o movimento se generalizou em direção a Borinage e às regiões de Liège e Limburg: 350.000 trabalhadores em todo o país estavam em greve. O principal resultado do movimento foi refinar o sistema de consulta social através da criação da conferência nacional do trabalho, onde patrões e sindicatos acordaram o plano nacional para otimizar a competitividade da indústria belga.

Uma vez terminadas as greves e atingido um aumento duradouro na produtividade por hora, restava apenas ao governo da Frente Popular retomar o que havia concedido. Os aumentos salariais foram consumidos pela inflação em questão de meses (os preços dos alimentos aumentaram 54% entre 1936 e 1938), a semana de 40 horas foi posta em questão pelo próprio Blum um ano depois, e completamente esquecida quando o governo Radical de Daladier em 1938 acelerou toda a máquina econômica em preparação para a guerra: abolindo os pagamentos extras para as primeiras 250 horas extras, pondo fim aos contratos de trabalho que proibiam o trabalho à peça e sancionando todos aqueles que recusaram as horas extras na causa da defesa nacional. "Nas fábricas que trabalham para a defesa nacional, sempre foram concedidas dispensas na semana legal de 40 horas. Na maioria das outras coisas, em 1938 obtive o acordo da organização dos trabalhadores para uma semana de 45 horas nas fábricas que trabalham direta ou indiretamente para a defesa nacional" (Blum no julgamento do Riom). Finalmente, com o apoio do governo Blum e o acordo dos sindicatos, os patrões recuperaram seus feriados remunerados. O Natal e o Ano Novo foram incorporados ao período de feriados pagos, e isto foi seguido pela abolição de todos os feriados públicos existentes: o total somou até 80 horas extras de trabalho - o que correspondeu exatamente às duas semanas de feriados pagos concedidas pela Frente Popular.

Quanto ao reconhecimento dos delegados sindicais e dos contratos de trabalho, isso representou nada mais do que o fortalecimento do domínio dos sindicatos sobre os trabalhadores, ampliando sua presença nas fábricas. Para isso, Léon Jouhaux, o socialista e líder sindical, explicou nestes termos: "a organização dos trabalhadores [isto é, os sindicatos] querem a paz social. Em primeiro lugar para não envergonhar o governo da Frente Popular e, em segundo lugar, para não dificultar o rearmamento". Quando a burguesia se prepara para a guerra, o Estado deve controlar toda a sociedade de modo a direcionar toda sua energia para este fim sangrento. E, nas fábricas, são os sindicatos que permitem ao Estado policiar a força de trabalho.

Se houve vitória, foi a sinistra vitória do capital preparando sua única "solução" para a crise: a guerra imperialista.


A preparação para a guerra


Desde o início da Frente Popular na França, com seu slogan "paz, pão, liberdade", seu antifascismo e pacifismo, a defesa dos interesses imperialistas da burguesia francesa foi misturada com ilusões democráticas. Dentro deste quadro, a esquerda explorou habilmente os preparativos internacionais para a guerra para demonstrar que o "perigo fascista está em nossa fronteira", organizando, por exemplo, toda uma campanha sobre a agressão italiana na Etiópia. De forma ainda mais clara, a SFIO e o PC desempenharam papéis diferentes em relação à Guerra Civil espanhola: enquanto a SFIO se recusou a intervir na Espanha em nome do pacifismo, o PC pediu a intervenção em nome da "luta antifascista".

Se havia uma coisa pela qual o capital francês podia agradecer ao governo da Frente Popular, era sua preparação para a guerra.

Em primeiro lugar, a esquerda pôde usar a enorme massa de trabalhadores em greve como meio de pressão contra as forças mais retrógradas da burguesia, impondo as medidas necessárias para salvaguardar o capital nacional diante da crise e fazendo com que tudo parecesse uma vitória para a classe trabalhadora;

Em segundo lugar, a Frente Popular lançou um programa de rearmamento através da nacionalização da indústria bélica sobre o qual Blum deveria declarar durante o julgamento do Riom: "Propus um grande projeto fiscal... cujo objetivo era dirigir todas as forças da nação para o rearmamento e fazer deste intenso esforço de rearmamento uma condição para uma recuperação industrial e econômica definitiva. Isso deixou objetivamente para trás a economia liberal, para substituí-la por uma economia de guerra".

E de fato, a esquerda estava ciente de que a guerra estava chegando: foi a esquerda que impulsionou a entente franco-russa, e que denunciou mais violentamente as tendências a Munique da burguesia francesa. Suas "soluções" para a crise não eram diferentes daquelas da Alemanha nazista, da América do New Deal ou da Rússia estalinista: o desenvolvimento do setor improdutivo da indústria de armamento. Como Bilan assinalou: "não é por acaso que estas grandes greves eclodiram na indústria da engenharia, a começar pelas fábricas de aeronaves (...) estes setores estão trabalhando a todo vapor, graças à política de rearmamento que está sendo seguida em todos os países. Este fato é sentido pelos trabalhadores e eles foram forçados a lançar seu movimento para reduzir o ritmo embrutecedor da linha de produção".

Finalmente e acima de tudo, a Frente Popular levou a classe trabalhadora ao pior terreno possível para ela, o de sua derrota esmagadora: o nacionalismo.

Graças à histeria patriótica desenvolvida pela esquerda através do antifascismo, o proletariado foi levado a defender uma fração da burguesia contra outra, a democrata contra a fascista, e um estado contra outro, a França contra a Alemanha. O PC francês declarou: "chegou o momento de colocar em prática o armamento generalizado do povo, de empreender as reformas fundamentais que aumentarão dez vezes o poder militar e técnico do país. O exército do povo, o exército de trabalhadores e camponeses, bem ensinado e bem dirigido por oficiais fiéis à República". Em nome deste "ideal" os "comunistas" celebraram o nome de Joana D'Arc, "a grande libertadora da França", e o PC apelou para uma frente francesa com o mesmo slogan utilizado pela extrema-direita apenas alguns anos antes: "A França para os franceses"! Sob o pretexto de defender as liberdades democráticas ameaçadas pelo fascismo, o proletariado foi levado a aceitar os sacrifícios necessários para a saúde do capital francês, e finalmente a sacrificar suas vidas no massacre da Segunda Guerra Mundial.

A Frente Popular encontrou aliados efetivos em sua tarefa de executor entre seus críticos de esquerda: O Parti Socialiste Ouvrier et Paysan de Maurice Pivert ("Partido Socialista dos Trabalhadores e Camponeses", PSOP), os trotskistas e os anarquistas. Todos desempenharam o papel de promotores entre os elementos mais combativos da classe e estavam constantemente se fazendo passar como "os mais radicais", embora a única coisa radical neles fosse a mistificação que eles vendiam. O Jeunesses Socialistes de la Seine ("Juventude Socialista do Sena"), ou Trotskistas como Craipeau e Roux, praticaram o entrismo, e foram os primeiros a defender e organizar a milícia antifascista; os amigos de Pivert dentro do PSOP foram os mais virulentos na crítica à "covardia" de Munique. Todos foram unânimes na defesa da República Espanhola ao lado dos antifascistas e todos participariam mais tarde do banho de sangue interimperialista como parte da Resistência. Todos fizeram a sua parte em defesa da capital nacional, todos eles mereceram bem da pátria!


Espanha, julho de 1936: o proletariado enviado para o abatedouro


Graças à formação da Frente Popular, e sua vitória nas eleições de fevereiro de 1936, a burguesia injetou a classe trabalhadora com o veneno da "revolução democrática" e conseguiu vincular os trabalhadores à defesa do Estado burguês "democrático". De fato, quando uma nova onda de greves irrompeu imediatamente após as eleições, ela foi retida e sabotada pela esquerda e pelos anarquistas porque "entrar greve é fazer o jogo dos patrões e da direita". Isto encontraria uma expressão concreta e trágica durante o Pronunciamento militar de 19 de julho de 1936. Os trabalhadores reagiram imediatamente ao golpe de estado entrando em greve, ocupando quartéis e desarmando os soldados, contra as ordens do governo que exigia calma. Onde quer que os apelos do governo fossem respeitados ("o governo comanda, a Frente Popular obedece"), os militares assumiram o controle e uma repressão sangrenta se seguia.


"A luta armada na frente imperialista é o túmulo do proletariado" (Bilan n°34)


Entretanto, a ilusão da "revolução espanhola" foi reforçada pelo suposto desaparecimento do Estado capitalista republicano e pela inexistência da burguesia, todos eles escondidos atrás do pseudo-"governo dos trabalhadores" e ainda mais outras organizações de esquerda como o "Comitê Central das Milícias Antifascistas" ou o "Conselho Central da Economia" que mantiveram a ilusão do duplo poder. Em nome desta "mudança revolucionária", tão facilmente conquistada, a burguesia exigiu e obteve dos trabalhadores a unidade nacional, com o único objetivo de derrotar Franco. Entretanto, "A alternativa não é entre Azaña e Franco, mas entre a burguesia e o proletariado; qualquer um dos dois parceiros que for vencido, o verdadeiro perdedor será o proletariado que pagará o preço de uma vitória de Azaña ou Franco" (Bilan n°33, julho-agosto de 1936).

Rapidamente, o governo republicano da Frente Popular, com a ajuda do CNT e do POUM, transformou a reação dos trabalhadores ao golpe de Estado franquista em uma luta antifascista e manobrou para substituir a batalha social, econômica e política contra todas as forças da burguesia por um confronto militar nas trincheiras apenas contra Franco, enquanto os trabalhadores podiam pegar armas apenas para serem mortos na frente militar da "guerra civil", longe de seu terreno de classe. "Poderíamos supor que o armamento dos trabalhadores tinha uma virtude congênita do ponto de vista político e que, uma vez armados materialmente, os trabalhadores podiam se livrar de seus líderes traiçoeiros e dar a sua luta uma forma superior. Nada poderia estar mais longe da verdade. Os trabalhadores que a Frente Popular consegue incorporar à burguesia, já que lutam sob a liderança e pela vitória de uma fração burguesa, são assim impedidos até mesmo de evoluir para posições de classe" (Bilan n°33, julho-agosto de 1936).

Além disso, não havia nada de "civil" nesta guerra. Ela rapidamente se tornou um conflito puramente interimperialista e um prelúdio para a Segunda Guerra Mundial, conforme as democracias e a Rússia tomaram o lado dos republicanos enquanto a Itália e a Alemanha tomaram o lado dos falangistas. "As fronteiras de classe, que por si só poderiam ter desmantelado os regimentos de Franco e renovado a confiança dos camponeses aterrorizados pela direita, foram substituídas por outras fronteiras especificamente capitalistas. A unidade nacional foi alcançada para a matança imperialista, região contra região, cidade contra cidade na Espanha e, por extensão, Estado contra Estado nos dois blocos democrático e fascista. Se a guerra mundial já começou ou não, a mobilização do proletariado espanhol e internacional está agora pronta para a matança mútua sob a bandeira imperialista do fascismo e do antifascismo" (Bilan n°34, agosto-setembro de 1936).


As ilusões de uma "revolução social"


A guerra na Espanha ainda desenvolveu outro mito. Ao substituir a guerra entre "democracia" e "fascismo" pela guerra de classes do proletariado contra o capitalismo, a Frente Popular desfigurou o próprio conteúdo da revolução: seu objetivo central não é mais a destruição do estado burguês através da tomada do poder político pelo proletariado, mas as supostas medidas de socialização e gestão dos trabalhadores nas fábricas. São sobretudo os anarquistas e certas tendências que se identificam com o conselhismo que exaltaram este mito, chegando ao ponto de afirmar que nesta Espanha republicana, antifascista e estalinista, a conquista de posições socialistas foi muito mais longe do que foi possível na revolução de outubro na Rússia.

Sem desenvolver esta questão aqui, deve-se dizer que estas medidas, mesmo que tivessem sido mais radicais do que foram na realidade, não teriam mudado nada da natureza fundamentalmente contrarrevolucionária dos acontecimentos na Espanha. Tanto para a burguesia quanto para o proletariado, o ponto central da revolução não pode ser outra coisa senão a destruição ou a preservação do Estado capitalista.

O capitalismo não só pode tolerar perfeitamente, temporariamente, medidas de autogestão ou a chamada socialização da terra (a criação de cooperativas), enquanto espera a oportunidade de restaurar a ordem na hora certa, mas pode até mesmo encorajá-las como meio de mistificação, canalizando a energia do proletariado em conquistas ilusórias e longe do objetivo central que está em jogo na revolução: a destruição do poder capitalista e seu estado.

A exaltação das chamadas medidas sociais como ponto alto da revolução nada mais é do que radicalismo verbal, o que afasta o proletariado de sua luta revolucionária contra o Estado e camufla sua mobilização como carne de canhão a serviço da burguesia. Tendo abandonado seu terreno de classe, o proletariado não só seria alistado nas milícias anarquistas e POUMistas antifascistas e enviado para o massacre no fronte, como também seria submetido a uma exploração cada vez mais brutal e a cada vez mais sacrifícios em nome da produção bélica e da economia bélica antifascista: reduções salariais, inflação, racionamento, militarização do trabalho e prolongamento da jornada de trabalho. E quando o proletariado se levantou em desespero, em Barcelona em maio de 1937, a Frente Popular com o Generalitat de Barcelona, e com a participação ativa dos anarquistas, reprimiu abertamente a classe trabalhadora da cidade, enquanto os franquistas interromperam as hostilidades até que a esquerda tivesse esmagado a revolta dos trabalhadores.

Dos socialdemocratas aos esquerdistas, e mesmo incluindo certas frações da direita, todos concordam que a ascensão da esquerda ao governo em 1936 na França e na Espanha (mas também, sem dúvida de maneira menos espetacular, em outros países como Suécia e Bélgica) foi uma grande vitória para a classe trabalhadora e um sinal de sua militância e força durante os anos 30. Contra estas manipulações ideológicas, os revolucionários de hoje, como seus antecessores de Bilan, devem afirmar alto e claro que as Frentes Populares e suas chamadas "revoluções sociais" não foram nada além de uma mistificação. A chegada da esquerda ao poder neste período, ao contrário, expressou a profundidade da derrota do proletariado mundial e tornou possível o alistamento da classe trabalhadora na França e na Espanha na guerra imperialista que a burguesia inteira preparava, alistando-os en masse sob as bandeiras da ideologia antifascista.

"E eu pensava, acima de tudo, que era uma grande conquista e um grande serviço aquele que eu havia prestado: ter conduzido estas massas e esta elite da classe trabalhadora de volta aos seus sentimentos de amor e dever para com a pátria" (declaração de Blum no julgamento do Riom).

Para a classe operária, 1936 marca um dos períodos mais sombrios da contrarrevolução, quando as piores derrotas da classe operária lhe foram apresentadas como vitórias; quando a burguesia podia, quase sem oposição, impor ao proletariado ainda cambaleante da derrota da onda revolucionária iniciada em 1917, sua própria "solução" para a crise: a guerra.

 

 

Jos

[1] Ver B Kermoal : “Colère ouvrière à la veille du Front populaire”, Le Monde Diplomatique June 2006. 

[2] Communist Party of the Soviet Union [Partido Comunista da União Soviética].

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

O Passado de Nosso Ser - Barbaria

 



O passado de Nosso Ser [1,2]

Apresentação

Como parte de nosso objetivo geral enquanto grupo [Editora Amanajé], recebemos essa tradução, revisamos e compartilhamos. Entendemos que esse texto é de grande valia para compreendermos os processos de ruptura que ocorreram durante o período de ascenso e de refluxo da onda revolucionária do começo do século XX. No início desse ano, publicamos a tradução de um texto de Errico Malatesta, datado de 1883, no qual encontramos uma cristalização da negação de rebaixar e enfraquecer nosso programa para atingir uma maior aderência, uma maioria, o que simboliza uma clara ruptura com o democratismo (entendido aqui como a realização de concessões na busca da maioria). A tradução que trazemos agora expande sobre esse tema. 


Sobre o Barbaria

Barbaria nasceu em 2018, ainda que muitos de seus membros viessem de um grupo anterior chamado Germinal e que serviu como processo de clarificação programática. Comunistas contra a mercadoria, o Estado e o trabalho assalariado, o grupo encontra na esquerda comunista a corrente que melhor defendeu e aprofundou essas posições. Embora seus integrantes vivam no Estado espanhol, o Barbaria tenta pensar-se em um sentido internacionalista tanto na sua relação com outros grupos de revolucionários como nas lutas de nossa classe por todo o mundo. Assim o faz sob a convicção de que somente se pode deter o processo de extinção como espécie, ao qual nos leva a catástrofe capitalista, mediante uma revolução mundial, feita pelo proletariado internacional e seu órgão específico, o partido de classe. 

Textos essenciais para leitura:

- (es, en) http://barbaria.net/2018/05/27/el-pasado-de-nuestro-ser

- (es) http://barbaria.net/2020/12/15/el-capitalismo-de-stalin/ 

- (es) http://barbaria.net/2021/12/27/interseccionando-el-capitalismo/ 

- (es) http://barbaria.net/2019/06/09/el-decrecentismo-y-la-gestion-de-la-miseria/ 

- (es, en) http://barbaria.net/2019/10/14/diez-notas-sobre-la-perspectiva-revolucionaria/ 

- (es, pt, en) http://barbaria.net/2020/03/20/las-pandemias-del-capital/


Uma única prática humana é imediatamente
teoria: a revolução. O conhecimento humano avança
através de revoluções sociais. O resto é silêncio.
Amadeo Bordiga

O objetivo deste texto é retornar a um debate fundamental que teve lugar durante a fundação da Terceira Internacional há cem anos. Um debate entre o oficialismo do movimento comunista e aqueles que estavam infectados pelo vírus da “infantilidade esquerdista”, nas palavras polêmicas de Lenin. Um debate entre personagens muito conhecidos, como Lenin ou Trotsky, e outros não só mais desconhecidos, mas em boa medida deturpados, como Pannekoek, Gorter, Otto Rühle ou Amadeo Bordiga.

Mas para quê retomar este debate? Qual é a utilidade de discutir sobre polêmicas de cem anos atrás? Na realidade, o grande problema de quem se considera de “esquerda radical” é o completo desconhecimento destas discussões. Sem essa memória, vivem num presentismo contínuo que os leva, por nenhum motivo aparente - sem perceber - a cometer continuamente os mesmos erros, a estarem condenados a serem a esquerda do capital.

Nos primórdios da Terceira Internacional se discutiram questões chave em torno do que é uma revolução, qual é a natureza do comunismo, qual é a essência das instituições políticas burguesas, qual é a utilidade ou não de alcançar a hegemonia (comunista) dentro da classe proletária antes da explosão de um processo revolucionário, mas também quais estratégias e táticas adotar para acabar com as relações sociais capitalistas: a intervenção (ou não) nos parlamentos e nos sindicatos, a frente única ou a construção de “governos operários” dentro de regimes capitalistas, a defesa (ou não) do direito à autodeterminação dos povos…

Como podemos perceber, estas são questões que voltam a se apresentar constantemente para todo aquele que quer mudar radicalmente esta sociedade em decomposição que é o reino do capital. O que fazer em um momento no qual uma perspectiva de transformação revolucionária da sociedade não é atual e imediata, quando sua necessidade nunca foi maior, porém, ao mesmo tempo, não se enxerga seu horizonte imediato? Não seria útil, ao menos, se realizar um programa mínimo de melhoria das condições de vida das “maiorias sociais” – como se diz agora –, “sujando-se as mãos em um trabalho árduo” dentro dos parlamentos, dos sindicatos, na construção da independência nacional – como fazem as CUPs –, na aliança com setores menos reacionários que outros? É necessário sair da suposta torre de cristal em que vivem os maximalistas, os esquerdistas, encantados por nosso doutrinarismo abstrato. A ascensão do Podemos foi uma maré que arrastou consigo uma boa parte das organizações da chamada “esquerda radical”, sobretudo em sua versão “trotskista” (veja o caso de Anticapitalistas). Para nós, a forma de neorreformismo que o Podemos encarna é um fracasso antecipado; sua única virtude é ideológica, a fim de reforçar as esperanças (nocivas) de nossa classe no regime democrático e, consequentemente, no reino impessoal do capital. No Podemos e em suas diferentes ramificações cidadãs, mergulharam uma grande variedade de correntes da esquerda radical, não só de trotskistas – acostumados como estão às operações nocivas do entrismo, nocivas, antes de tudo, para seus militantes –, mas também autonomistas e libertários. É cada vez mais óbvio como o Podemos se parece com apenas mais um partido do regime, as esperanças de mudança – ainda que fossem moderadas e em pequena escala – defrontam-se com a continuação, a partir das experiências do Syriza ou dos governos municipais, dos despejos, com os quais as polícias municipais de Madrid e Barcelona perseguem e detêm os mais desfavorecidos, os imigrantes ilegais e como se orgulham de pagar a dívida com maior presteza que os rivais políticos.

Para enfrentar este neorreformismo só conhecemos um remédio, uma arma, um instrumento: a teoria. Uma teoria que em nosso caso parte de entender uma das principais contribuições de Marx, sua teoria sobre o capital e sobre o valor. Explicamos em numerosos textos publicados – e continuaremos fazendo em futuros textos e livros – que o grande limite destas formas de neorreformismo parte de sua ideia da autonomia da política, na crença de que se pode governar à margem do curso e das necessidades do capital e de seus movimentos impessoais [3]. A função determina o órgão. Os supostos governantes são funcionários dos movimentos dos mercados e estes passam por um mau momento, uma época na qual as bases reais do capital tendem a se esgotar pela expulsão de trabalho vivo – de cuja sucção vampiresca vive o capital – ocasionada pela revolução tecnológica. A impossibilidade real – e não só ideológica – de um reformismo do capital conduz a uma dinâmica de barbárie social e humana que se estende como uma mancha de óleo imparável.

Então não basta somente uma teoria que descreva a necrologia do capital, sua tendência catastrófica ao desmoronamento. Como dizia Bordiga, O capital de Marx é uma teoria antecipatória do comunismo. Entretanto, e como sabia o mesmo Bordiga, para isso é necessária uma reflexão orgânica sobre o programa comunista. E, nisso, nós temos uma diferença substancial em relação a autores como Robert Kurz ou Anselm Jappe, nos quais nos baseamos por suas reflexões sobre os limites internos do capital, mas cujo catastrofismo – na ausência de uma reflexão programática, de caráter comunista, que se sustente no fio histórico que é fundamental se reapropriar para continuar alinhavando – conduz a uma “socialdemocracia da catástrofe”[4].

Por tudo isso, é fundamental se dirigir a uma das principais fontes deste fio histórico. Aquela que foi atada há cem anos, quando, durante quase uma década, milhões de proletários e proletárias estremeceram a ordem estabelecida em todos os lugares.


A onda revolucionária de 1917-1927

Concentrar-nos-emos no período que vai desde a revolução russa de fevereiro, cujo centenário está prestes a cumprir-se, até o fracasso da revolução chinesa de 1927, massacrada pelo Kuomintang em Xangai, precisamente por essa teimosa busca por alianças progressistas que caracterizou a política do estalinismo internacional.

Na realidade, a onda revolucionária começa a diminuir de modo decisivo a partir de 1921. O ano de 1921 é o último momento de ascensão da revolução alemã, com a chamada Ação de março, que gerará confrontos decisivos na Saxônia. No ano anterior o movimento dos conselhos operários na Itália havia se exaurido. Ainda assim, haverá momentos decisivos de enfrentamento social em 1923 na Alemanha, na Bulgária durante o mesmo ano, em 1926 no Reino Unido, até chegar à China, em 1927. Essa mudança de trajetória da onda revolucionária será fundamental para entender os debates programáticos que constituem a raiz de nosso artigo. A revolução alemã explode em novembro de 1918, a partir dos marinheiros de Kiel. Imediatamente, os conselhos operários se estendem por todos os lugares, em todas as cidades alemãs e forçam a queda do 2º Reich. Em poucos dias acabava a Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro, às 11 horas. A extensão da onda revolucionária no coração da Europa Central é grande demais para as elites econômicas da burguesia internacional. O conflito que provocou mais de dez milhões de mortes entre os trabalhadores tem que acabar, antes que a revolução acabe com as próprias elites. Como em 1914, a socialdemocracia alemã será fundamental para esmagar a revolução e liderar a contrarrevolução que se pagará com mais de cem mil proletários assassinados entre 1918 e 1923.

Porém, há um primeiro aspecto do qual nos parece importantíssimo tomar consciência. As revoluções não são feitas nem preparadas, elas surgem, criam a si mesmas; são expressão da criatividade e do imaginário social, da autonomia humana e de sua capacidade de autoinstituição. Que partido criou os sovietes? Essa forma maravilhosa de comunidade social em revolução que, a partir da Rússia, invadiria o mundo desde Petrogado a Seattle, de Viena a Turim, da Finlândia ao Brasil… Uma forma – a tendência de constituir assembleias enormes e abertas, que surge cada vez que há um movimento de insurreição ou de luta social de nossa classe – que se repetiu permanentemente em revoluções e revoltas passadas: desde os comitês em Barcelona de 1936 aos Conselhos Húngaros de 1956, da revolta operária do Leste de Berlim de 1953 às enormes assembleias dos trabalhadores poloneses de 1980, desde as comissões de moradores de Portugal em 1974 à Praça Tahir do Egito em 2011 ou de outro modo às assembleias maciças do 15M. O que essas formas expressam é o gérmen do comunismo. Diante da separação e da atomização que imperam no reino do capital e em sua forma de democracia representativa – na qual votamos como idiotas, no sentido grego, isolados uns dos outros –, nos conselhos se redescobre o ser comum, o outro como aquele no qual eu me fundamento, a força e a beleza do ser e do estar juntos. Obviamente, não fetichizamos a forma-conselho – este será um dos limites fundamentais da esquerda germano-holandesa, como veremos –, porém sua forma expressa, sem dúvida, que o projeto comunista não é uma ideologia, mas sim que supõe um movimento real que tende a negar e a superar as condições existentes do capital, que a partir da contradição e do antagonismo – inseparável – da relação entre capital e trabalho assalariado, se despertam, em algumas ocasiões, movimentos de classe que tendem a negar o isolamento e as separações inerentes ao reino do capital e que, neste sentido, tendem a expressar formas de organização social que contém em gérmen um conteúdo comunista, comunitário, e que, em suas formas, revelam uma nova forma, nem alienada nem fictícia, de comunidade humana.

Como dizia Bordiga, nos períodos normais o que domina é a atomização social, a separação de um tecido social fragmentado. A revolução supõe uma ionização humana: o que eram partículas e átomos cidadãos e democráticos, separados uns dos outros, tendem a convergir e confluir em uma dinâmica conjunta, rompendo com a fragmentação social e cidadã. O importante é entender que tal dinâmica é “espontânea” ou, melhor dizendo, nasce da mesma dinâmica de autoatividade e criação social que se desprende de um processo revolucionário. Por outro lado, é normal que seja assim, posto que se o capital se fundamenta em nossas separações, qualquer processo de ascensão social que tenha um componente anticapitalista encontra sua seiva em negar tais separações.

As revoluções não são feitas, surgem. Daí o absurdo de construir partidos para a revolução. Praticamente todas as revoluções instituíram a si mesmas, na ausência do famoso partido revolucionário tão caro aos leninistas e aos trotskistas. A possibilidade do triunfo e da implantação de uma revolução comunista é outra história. O comunismo, como possibilidade, tem que nascer do processo de comunização e transformação das relações sociais e da vida cotidiana que se desdobra concomitantemente com a destruição do Estado e da luta contra o capital, o valor e suas diferentes metamorfoses. A função de uma organização comunista não é injetar a consciência de fora, isto é, o modelo leninista de O que fazer, mas sim ser um catalisador que acelera o desenvolvimento da consciência e da perspectiva comunista dentro da classe, ou seja, favorecer o processo de constituição do proletariado em classe, em partido – seguindo Marx no Manifesto Comunista. Como defendia Bordiga, seguindo Marx de 1848, o partido é a classe: a classe que se autoemancipa a si mesma, como ressaltou Marx nos estatutos da 1ª Internacional.

Consequentemente, a tarefa de uma organização comunista não é menor que no modelo leninista. Pelo contrário, é mais árdua, já que não se trata de substituir a classe, de conquistar sua confiança e aquiescência e se estabelecer em sua direção reconhecida. Trata-se de ser um órgão da classe que não se sobrepõe a ela, mas sim que tenta fazer com que a classe aprofunde por si própria a perspectiva da luta pelo comunismo. Como veremos ao longo deste longo ensaio, não se trata de uma questão semântica. Seu significado profundo, o que entendemos em última instância como comunismo – e se é uma sociedade autônoma ou heterônoma, uma sociedade longínqua ou um objetivo pelo qual se deve lutar desde já –, conecta-se profundamente à ideia da organização que tem de se construir e como se relacionar com o Estado, a política, os sindicatos, os parlamentos, as lutas imediatas, etc.


A Fundação da 3ª Internacional

Realiza seu 1º congresso em 1919 em Moscou. Nesse momento, se funda ao calor de uma onda revolucionária que se estendia pela Rússia, Finlândia, os Países Bálticos, Itália, Áustria, Hungria e diversos outros territórios que culminavam na Alemanha. Logo, será na realidade no 2º Congresso da Internacional em 1920, ao mesmo tempo em que o Exército Vermelho bolchevique se encontrava às portas de Varsóvia, quando começou a proposição de algumas das questões mais importantes que aludem ao sentido deste texto. Não é por acaso que será neste congresso em que se apresentará um dos piores textos de Lenin: Esquerdismo: a doença infantil do comunismo.

Porém, como vimos no parágrafo anterior, é essencial que nos dirijamos à Alemanha, pois o resultado da revolução neste país e as diferentes correntes que surgirão do processo alemão serão necessários para recuperar o fio histórico do qual falávamos no início de nosso trabalho.

Em novembro de 1918 explodiu a revolução alemã a partir da insurreição dos marinheiros de Kiel, que se negaram a entrar em combate, tal como queria o Comando Supremo do Exército. A criação espontânea dos conselhos alemães viu a reação imediata do SPD [5], que controlou seu processo de constituição – o que é uma advertência diante do fetichismo destas instituições, como se fossem comunistas por si mesmas.

Os revolucionários se dividirão entre anarquistas e marxistas. O peso do anarquismo alemão será importante – e confluirá em parte com as Unionen [Uniões] alimentadas pela esquerda comunista alemã, o KAPD [Kommunistische Arbeiterpartei Deutschlands; Partido Comunista Operário da Alemanha], como veremos – através da criação em 1918 da FAUD (União Livre de Trabalhadores da Alemanha [Freie Arbeiter-Union Deutschlands]). Enquanto as forças marxistas à esquerda do SPD e do USPD [6] estavam constituídas por duas correntes principais: a Liga Espartaquista em torno de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht e os IKD (Comunistas Internacionalistas da Alemanha [Internationale Kommunisten Deutschlands]) influenciados por Herman Gorter e Anton Pannekoek, que dirigiam o periódico holandês Die Tribune [A Tribuna].

Porém, na referida discussão coletiva terão particular importância as elaborações de Pannekoek, que não só ressaltará, como Rosa Luxemburgo, a importância da dinâmica espontânea do processo revolucionário, mas que extrairá e aprofundará lições decisivas desde o ponto de vista dos princípios de um programa comunista [7]. Em particular, Pannekoek recuperará as lições que Marx havia desenvolvido sobre o Estado em A guerra civil na França a partir da experiência da Comuna de Paris: o Estado não tem que ser conquistado nem tomado, mas destruído e substituído por um Estado não-Estado, sustentado pela auto-organização do próprio processo revolucionário. Obviamente, a dinâmica soviética e conselhista da revolução era um aprofundamento na linha da perspectiva revolucionária marxiana. De fato, as teses de Pannekoek chegaram a influenciar a esquerda comunista do partido bolchevique, Bukharin e Piatakov, que as fizeram suas. Em princípio, o (bom) livro de Lenin, O Estado e a revolução, era uma polêmica contra Bukharin e Pannekoek e seus desvios “anarquistas”, porém Lenin se convenceu de seus argumentos e fez suas as teses deles [8]. Com isto, o que queremos ressaltar é que os principais dirigentes da esquerda comunista alemã e holandesa não eram uns recém-chegados à política revolucionária, como se depreende, com malícia, das acusações do panfleto leninista, Esquerdismo: a doença infantil do comunismo.

O panfleto leninista, escrito pouco antes das sessões do 2º Congresso, supõe uma autêntica tergiversação das posições das esquerdas. Em todo caso, qual é o cerne do debate? Algo com que todos, o centro dirigente da Internacional Comunista (Lenin, Trotsky, Bukharin, Zinoviev, etc.) e as esquerdas (KAPD, PCdI, Sylvia Pankhurst, etc.) estavam de acordo: existe um refluxo da dinâmica revolucionária. A onda iniciada em 1917 começou sua lenta e progressiva queda. O que o centro da 3ª Internacional pretendia fazer era evitar tal refluxo e para isso levou a cabo uma série de medidas táticas, conotadas todas elas por atingir a maioria da classe operária antes da revolução.

É a isso que vão se opor todas as esquerdas, a que, sem ser um período revolucionário, se lute para se alcançar a maioria no interior da classe. Consideram que as táticas leninistas provocam a dissolução do programa comunista dentro do velho reformismo, dentro da sociedade do capital. A classe ou é revolucionária ou não é nada e as revoluções não são feitas: elas surgem. Com relação a isto, todas as esquerdas estão de acordo. Neste sentido, as intenções de forçar uma situação de modo voluntarista só conduzem a desorientar os comunistas no momento em que voltar a surgir uma situação revolucionária ou de ascensão de classe, além de desorientar as mesmas massas. O que os revolucionários têm de fazer na época de refluxo das lutas é manter uma coesão programática que seja o fio do presente que prepara a futura ascensão comunista. Vejamos como Pannekoek resume perfeitamente as diferenças em um texto memorável:

Uma destas tendências [a da esquerda, N. do A.] quer esclarecer e revolucionar os espíritos com a palavra e pela ação e, consequentemente, tenta opor do modo mais taxativo os princípios novos às ideologias antigas; a outra tenta ganhar para a ação prática as massas que ainda se mantêm à margem e pretende, na medida do possível, evitar o que pode contrariá-las e, mais que as diferenças, sempre destaca o que pode unir. A primeira aspira à distinção clara e precisa, a segunda aspira à reunião das massas; se deveria designar a primeira de radical e a segunda de oportunista [9].

Pannekoek resume de modo perfeito as diferenças. Uma tendência dá muito mais importância aos fatores conscientes do processo subjetivo da constituição da classe: para isso, é fundamental como surgem os novos princípios que põem em questão as formas de organização da 2ª Internacional (parlamentos, democracia, sindicatos, hierarquia dos chefes diante das massas nos partidos, etc.); enquanto a outra se adapta a elas e põe mais ênfase no que as une do que nas diferenças, tratando de adaptar-se a elas tal e como são em um período de refluxo. Para as esquerdas isto é oportunismo, já que o proletariado como tal só existe através de sua luta, de seu combate, de sua força convergente a partir de um objetivo comum, subversivo. De fundo, há uma diferença basilar na concepção da revolução e do comunismo:

Sua natureza [a do oportunismo, N. do A.] consiste em considerar somente o momento, e não o desenvolvimento ulterior, em manter-se na superfície dos fenômenos em lugar de se preocupar com as causas determinantes profundas. Quando não tem forças suficientes para realizar de imediato um objetivo, o oportunismo não tenta fazer com que as forças cresçam, mas estuda o meio de realizar o objetivo por outras vias, contornando as dificuldades. Dado que seu fim é o êxito momentâneo, o oportunismo sacrifica as condições de um êxito futuro e duradouro […], mas apenas o que se adquire então como clareza, perspicácia, coesão, autonomia das massas será o que tem valor duradouro como base da evolução ulterior em direção ao comunismo [10].

Pannekoek volta a resumir perfeitamente as diferenças. O oportunismo leninista vive do presente e de seu êxito contingente, mas não pensa qual é sua possível implantação duradoura em uma perspectiva comunista. A esquerda não duvida que seja possível desenvolver lutas sociais em conjunto com a esquerda reformista – por exemplo, as que se viveram em 1923 na Alemanha sob os governos do SPD e do KPD na Turíngia e na Saxônia –, o que afirma é que são lutas que não vão transcender, no futuro, em uma perspectiva comunista. Já que prefere, à aparência da luta imediata, seu desenvolvimento e implantação numa perspectiva de futuro, a esquerda trata de pensar o presente desde o futuro da sociedade comunista, e o oportunismo leninista e trotskista submete estes princípios e objetivos à flexibilidade da tática, de cada momento concreto, de cada conjuntura. O leninismo é um pensamento da conjuntura constante e permanente. E, não obstante, para os comunistas revolucionários há poucas conjunturas [11]. As conjunturas surgem, parafraseando Bordiga, quando se rompe o silêncio, quando a teoria devém revolução social. O cerne do profundo limite leninista consiste no fato de que ele teoriza que em “nossa tática é necessária a máxima flexibilidade”, pois se trata de “levar as amplas massas – hoje, todavia, em sua maior parte adormecidas, apáticas, rotineiras, inertes, sem despertar – a esta nova posição” [12]. Isto é, alcançar a maioria da classe quando essa se encontra apática, rotineira, inerte, quando não é classe em combate, quando não é classe em absoluto, no sentido histórico e subjetivo, o que é um meio seguro de fracasso, de derrota, de adaptação oportunista às formas burguesas do capital, já que não se pode separar a passividade social da ideologia que reproduz a “classe social” como categoria do capital nesse momento. O leninismo, como afirma Camatte [13], é uma ideologia idealista, que separa ser e consciência, corpo e mente. Pretende injetar de fora a “consciência de classe”, patrimônio dos revolucionários profissionais. Não entende que é o ser – em movimento, em revolução – quem cria a consciência. O leninismo, que crê ter o monopólio da consciência efetiva, se põe como um demiurgo por sobre as massas, jogando como um aprendiz de bruxo. Como indica Camatte:

Só com a mobilização do proletariado para a luta contra o modo de produção capitalista se produz a consciência, se faz efetiva, tanto para a classe como para alguns elementos (não separados dela) que haviam reconhecido e defendido a teoria em sua invariância. [14]

Daí o equívoco da obstinação leninista de intervir constantemente, em épocas de passividade social, no terreno do inimigo. É neste sentido que Lenin expõe, por exemplo, que há de se intervir nas divisões e nas crises do aparato político burguês para apoiar “os atritos, as disputas, os conflitos e o divórcio total” dentro da política burguesa, para logo apoiar um governo trabalhista contra o governo liberal, porque depois será a vez dos comunistas, se estes são inteligentes e não doutrinários. Para eles, a revolução é um assunto de tática, de maquiavelismo, de inteligência política. O leninismo é uma ideologia da confusão e das manobras [15]. Na realidade, desta maneira o que se provoca é uma enorme confusão diante da perspectiva possível da perspectiva comunista. Gera-se confusão em lugar de esclarecimento.

E é que, além disso, o leninismo subestima enormemente as formas políticas do capital. Lenin chega a dizer de modo polêmico que “o doutrinarismo de esquerda obstina-se em rechaçar incondicionalmente determinadas formas antigas, sem ver que o novo conteúdo encontra seu caminho através de todos os tipos de formas e que nosso dever de comunistas consiste em dominar todas” [16]. Nem toda forma se adapta a um conteúdo comunista, pelo contrário, somente formas que expressem autoatividade social se adaptam, potencialmente, a ela – ainda que sem fetichizar, por exemplo, os conselhos, como fez a esquerda germano-holandesa. Porém, as formas políticas do mundo do capital implicam inevitavelmente num conteúdo mercantil. Do mesmo modo que não se pode utilizar a mercadoria e o dinheiro contra a lógica do capital – o grande erro do proudhonismo –, não se pode se voltar o Estado, os partidos políticos e os sindicatos como aparatos do Estado contra a mercadoria e o capital. Não se tratam apenas de formas cooptadas por burocracias que as põem a serviço da burguesia. Tais formas já são parte do movimento do capital, de sua metamorfose. O Estado moderno, capitalista, é o resultado da separação e da fragmentação social provocadas pela produção e pelo mercado capitalista – entre empresas diferentes, entre trabalhadores que competem entre si –; essa separação, essa guerra de todos contra todos, implica que a única comunidade “universal” que pode subsistir é representativa, fictícia… Daí o funcional à opressão mercantil. Nos encontramos diante de uma comunidade cidadã que vive não só separada no terreno da produção material da vida, mas também no mundo simbólico da política e da representação cidadã. Todos somos cidadãos iguais perante a lei, porque na vida material pertencemos a classes antagônicas, umas das quais – o proletariado – não pode se reconhecer como tal senão para negar ao capital e a si mesma. Dentro do mundo do capital só pode se reconhecer parcialmente, de modo corporativo e sindical, como mercadoria que vende sua força de trabalho. Os sindicatos são uma mediação necessária com o capital neste sentido. Partidos, parlamentos, sindicatos… e o Estado são metamorfoses, por conseguinte, da dinâmica iniciada pelo capital: metamorfose da separação das pessoas dos meios de reprodução e produção da vida. A política e a democracia codificam e tornam coesa essa separação. Existem porque essa separação também existe. Rompê-la é subverter a política e o Estado. Por isso, diferentemente do que diz Lenin, não se trata de  sujar as mãos de modo inteligente, de utilizar estas formas para poder fazer com que se estenda dentro delas um conteúdo que ajude a subversão social. A função determina o órgão. A função da política é inseparável da reprodução material e ideológica do capital, do mesmo modo que a forma do valor é inseparável de seu conteúdo: neste caso, o trabalho abstrato é o resultado da separação dos meios de produção e reprodução da vida, ou seja, do processo histórico de expulsão de suas terras pelo qual passaram os camponeses medievais e a destruição de suas comunidades seculares, o que implica que a expressão social da riqueza só pode ocorrer de modo mediado, através do mercado. Também a forma da política é inseparável do dito conteúdo. É uma forma a priori, representativa e fictícia, porque faz abstração das condições materiais de existência – condições de exploração e antagonismo social, de subalternidade da vida –, e é por abstrair tais condições materiais que pode reproduzi-las. No feudalismo, o senhor era ao mesmo tempo o detentor dos direitos econômicos e dos jurídicos e políticos. No mundo do capital, a separação entre privado e público que dá origem à política moderna faz o Estado pressupor como algo natural o funcionamento do capital e de suas dinâmicas. Do mesmo modo que a riqueza só pode se expressar de modo mediado através do mercado, a fragmentação social que a individualização moderna implica, o fato de todos sermos cidadãos separados uns dos outros, faz com que a comunidade humana e material não possam exercer sua universalidade de modo autônomo e imanente. Exige-se uma comunidade fictícia e alienada, o Estado, que é quem reconstrói artificialmente através da soberania e da representação a comunidade social. Essa é a essência da política moderna. Por outro lado, a separação entre público e privado faz precisamente com que os fundamentos materiais do capital sejam naturalizados, obscurecidos e coisificados. Pode-se redistribuir os efeitos da dinâmica mercantil, mas sem nunca pôr em questão a produção do capital. Toda ascensão social se confronta com essa separação codificada que é o Estado e a política democrática. Uma forma que, longe de poder ser utilizada com inteligência – Lenin dixit –, é uma das mais obstinadas inimigas do movimento comunista, do movimento emancipador.

Então, o grande limite do leninismo é a incapacidade de entender os conteúdos inquestionáveis – deterministas – da política burguesa. Sua forma é inseparável de um conteúdo burguês [17]. A função determina o órgão. A participação neste tipo de instituição é inseparável de seus conteúdos burgueses. Daí a falácia leninista de poder utilizá-los em benefício de um discurso emancipatório, falácia que também nunca se cumpriu: jamais se verificou a estratégia leninista no teste que mais gostam de repetir, o teste dos fatos. Pelo contrário, a burguesia utilizou este tipo de organismo, em todos os momentos e em todo lugar, como mecanismo de integração dos conteúdos subversivos que brotam permanentemente nesta sociedade, a partir do antagonismo entre capital e proletariado. A política subsume, integra magistralmente tal antagonismo. Definitivamente, com a tática leninista assistimos à fábula do caçador caçado, de como “a inteligência é oportunista” (Bordiga), isto é, a presumida inteligência tática, sem princípios e disposta a sujar as mãos, recepciona totalmente a lógica que pretende combater.

Acontece que, como dissemos anteriormente, as possibilidades revolucionárias surgem em outro terreno, no terreno dos terremotos sociais, da convergência e da ionização humana de partículas sociais que anteriormente estavam enfrentadas entre si e que a partir da experiência da opressão, da luta, de uma lenta maturação subterrânea da consciência irrompem na cena autêntica da vida coletiva pondo em questão a separação constitutiva do mundo do capital. É então que o proletariado começa a se constituir em classe, quando os revolucionários podem atuar como catalisadores do processo social para que a classe acelere a perspectiva consciente de sua autoemancipação. Como indica Pannekoek no texto já citado:

Da mesma maneira que um pequeno partido radical não pode realizar uma revolução, tampouco um grande partido de massas ou uma coalizão de partidos diversos pode realizá-la. Ela surge espontaneamente das massas; as ações decididas por um partido revolucionário às vezes podem dar o impulso (ainda que isto aconteça raramente), porém, as forças decisivas se encontram em outro lugar, nos fatores psíquicos, no fundo do subconsciente das massas e no fundo dos grandes acontecimentos da política mundial. A tarefa de um partido revolucionário consiste em divulgar antecipadamente noções claras de maneira que em todas as partes dentro da massa se encontrem elementos que saibam o que devem fazer em tais momentos e saibam julgar por si mesmos a situação [18].

Pannekoek volta a ser novamente de uma clarividência invejável. As revoluções não são feitas nem por um pequeno partido – como era o KAPD, com 40 mil militantes no momento de seu nascimento em 1920 – nem por partidos muito maiores como foi o VKPD [19]. Acontece que as revoluções brotam espontaneamente das massas. As revoluções surgem. O comunismo tem que ser um plano consciente da espécie – para usar as palavras de Bordiga. As forças decisivas da possível implantação de uma dinâmica comunista se encontram na consciência dos objetivos e dos princípios que as mesmas massas proletárias alcançam na revolução. A função dos comunistas não é substituir tal dinâmica, mas ser um catalisador que permite que o mesmo sujeito da história – a classe, que é quem se constitui em partido – se aprofunde em tal dinâmica consciente. É dessa forma que a tática leninista não é senão, na melhor das hipóteses, um enorme elemento de confusão com seu taticismo heterônomo, propriedade de um gabinete da revolução – o partido de vanguarda – que é quem conhece a história de antemão e faz com que as massas inconscientes e amorfas tomem o bom caminho devido a sua clarividência – a dos intelectuais que injetam a consciência de fora. Do engano só brotam enganos e da falta de clareza, confusão. Na vida real – como Umberto Terracini do PCdI respondeu a Lenin –, é inútil dizer uma coisa – como, por exemplo, que as massas confiem em uma unidade com a socialdemocracia, em participar dos sindicatos reacionários, dos parlamentos burgueses – para que elas façam outra coisa, porque na realidade isso é um gancho lançado pela vanguarda clarividente. A perspectiva leninista parte da impotência constitutiva da classe. E dessa impotência só surge impotência. De uma tática heterônima não pode surgir nenhum processo autônomo de autoemancipação social.

As esquerdas, pelo contrário, confiam que a dinâmica de emancipação social surge da capacidade de criatividade, da autoinstituição social do proletariado, demonstrada permanentemente em todas as explosões revolucionárias e em toda revolta autêntica. O programa comunista busca um fim – a autoemancipação da espécie – através de princípios apropriados – a autonomia e a capacidade instituinte da classe – e as táticas do programa comunista têm de ser harmônicas a tais objetivos e a princípios.

Isso requer separar-se das táticas herdadas da 2ª Internacional que, como insistem Gorter e Pannekoek, continuam impregnando as táticas da maioria da 3ª Internacional. Continuemos raciocinando junto de Pannekoek:

Enquanto as massas permanecerem amorfas, pode parecer que trabalho semelhante é ineficaz; porém, a clareza dos princípios atua interiormente em muitas pessoas que primeiramente se mantêm afastadas da revolução e mostra sua força ativa dando-lhes uma diretriz clara. Se, por outro lado, tenta se formar um grande partido, edulcorando os princípios, fazendo coalizões e concessões, quando a revolução chega se dá a elementos duvidosos a possibilidade de adquirir influência sem que as massas possam se aperceber de sua insuficiência.

“Enquanto as massas permanecerem amorfas” qualquer atividade comunista no imediato é ineficaz, porque, além disso:

A adaptação aos pontos de vista tradicionais é uma tentativa de conquistar o poder sem que se verifique a condição prévia, a subversão das ideias. Isto atua, pois, no sentido de reter o curso da revolução. Além disso, é uma ilusão, pois as massas, quando se põem em revolução, podem captar apenas as ideias mais radicais; pelo contrário, enquanto a revolução não chega, não captam mais do que as ideias moderadas. Uma revolução é, ao mesmo tempo, um período de comoção das ideias das massas; cria as condições de tal comoção e está condicionada, por sua vez, por ela; e por isto, pela força dos princípios claros que têm de transformar o mundo inteiro, que a direção da revolução recai no partido comunista [20].

Pannekoek continua ainda imerso em um paradigma no qual a direção da revolução recai no partido comunista [21], porém, na realidade, tudo na citação, em seu pensamento e em sua prática vai para outro sentido. As revoluções supõem um enorme cataclismo social, o qual provoca uma revolução da vida e da prática humana e de classe, uma aceleração da consciência. Como indicava o mesmo Trotsky, nos tempos de normalidade social, as décadas parecem dias, mas, durante a revolução social, os tempos e os espaços se dilatam e cada dia vale por uma década de normalidade social, os tempos se aceleram mediante o calor da comunização das relações sociais e das vidas. É este o espaço fértil para que germine uma perspectiva comunista. Então, nesses momentos em que os tempos se dilatam com uma força e criatividade sem par, é quando se tem de lançar por inteiro à ação – como salientava Bordiga –, porém para isso é fundamental se encontrar “armado” com um programa comunista composto de objetivos e princípios claros, objetivos e princípios que têm de ser apreendidos e desenvolvidos pelas multidões em revolução. Nesses momentos de revolução social descobre-se a virtude do isolamento teórico prévio, quando se rompe o silêncio e a prática humana, quando se faz teoria na revolução. Nesses momentos nos quais tudo está em jogo, é fundamental lutar de maneira intransigente para afirmar uma perspectiva multitudinária que destrua os poderes mercantis e políticos do capital, afirmando o poder autônomo das multidões proletárias em revolução e reconhecendo que a finalidade é a dissolução de todas as classes sociais, a sociedade comunista. Se previamente se viveu na confusão e na conivência permanente com as instituições políticas e econômicas do capital, é impossível improvisar a força e a clarividência necessária. Este é outro dos grandes problemas do leninismo, o que ajudou, além disso, com que toda uma geração de quadros da 3ª Internacional se convertesse em líderes dos partidos stalinistas no final dos anos 1920 e 1930 [22].

A revolução comunista é uma grande descontinuidade com o passado opressor. O cisma prévio dos comunistas prepara o futuro no momento em que se fertiliza com as multidões em revolução. O afastamento do presente é o que garante o futuro do amanhã. O partido comunista é a linha do futuro no presente e é fundamental manter tal fio, a contracorrente, porque é a única maneira de reconhecermos a maré quando ela estiver a nosso favor e tivermos que nos deixar arrastar por ela.


Sobre a flexibilidade tática

A vida na nova humanidade está na revolução,
a revolução nasce do cisma.
Amadeo Bordiga

Como vimos ao longo deste texto, do que todas as esquerdas da 3ª Internacional acusavam o centro da direção moscovita da Internacional era de uma flexibilidade tática que ia contra a natureza comunista dos partidos e das possibilidades de desenvolvimento da revolução proletária na Europa Ocidental. O importante era se ater aos princípios programáticos, a fim de poder aproveitar as oportunidades que viriam na esteira de posteriores ascensões sociais e de classe. O pior que se poderia fazer nesse momento eram adaptações oportunistas dos princípios. Em relação a isto, Amadeo Bordiga era particularmente claro:

Mas o pior de todos os remédios que se pode utilizar para reparar as situações desfavoráveis seria pôr em questão periodicamente os princípios teóricos e organizativos em que se baseia o partido, com o objetivo de modificar a extensão de sua zona de contato com as massas. Nas situações em que diminui a predisposição revolucionária das massas, o que muitos defendem, como levar o partido até as massas [ver Lenin, N. do A.], equivale na realidade a desnaturalizar o caráter do partido, a expulsar precisamente aquelas qualidades que são as adequadas como vetores que influem sobre as massas no momento em que retomam o movimento ofensivo [23].

Como podemos comprovar, as orientações de Bordiga e do Partido Comunista da Itália (PCdI) são muito similares, nas questões-chave, à esquerda germano-holandesa. É fundamental manter a intransigência em torno dos princípios teóricos e programáticos. Desviar desse caminho é o pior serviço que um revolucionário pode fazer à perspectiva comunista, já que supõe desnaturalizar o caráter do partido e proporcionar uma ajuda inestimável à burguesia e à manutenção do status quo. É necessário saber manter sempre a perspectiva do que é essencial e não se deixar desviar pelo contingente:

O movimento comunista internacional tem de estar composto não somente por aqueles que se encontram firmemente convencidos da necessidade da revolução, que estão dispostos a lutar por ela à custa de qualquer sacrifício, mas por aqueles que estão decididos a continuar em um terreno revolucionário quando as dificuldades da luta mostrarem que a meta é mais áspera e distante [24].

Ou seja, ser comunista é uma escolha muito difícil. Não basta a simples convicção e o sacrifício, são necessárias uma solidez e intransigência teóricas que ajudem a se manter no terreno da revolução quando a força das massas reflui. Em uma época de revolução, muitas pessoas, seguindo a onda, se dirigem à perspectiva revolucionária, mas apesar disso são poucos os que se mantêm quando a onda vai contra a corrente. Por isso é fundamental não se deixar cegar por questões contingentes nem tratar – a todo custo – de levar o partido às massas quando estas se encontram atomizadas e passivas. É necessário defender a perspectiva programática do comunismo para que, quando retornar a ionização social da materialidade revolucionária, nós comunistas possamos ser não só um produto passivo, mas sim um fator ativo, um catalisador do aprofundamento imanente por parte da classe em tal perspectiva.

Se as possibilidades revolucionárias forem menos imediatas, não correremos por um momento o risco de nos distrairmos da necessidade de continuar tecendo o fio da preparação (comunista) nem de cair, pelo contrário, na solução de outros problemas contingentes, o que só beneficiaria a burguesia [25].

Bordiga constrói uma relação recíproca, de maior a menor importância, seguindo uma rigorosa hierarquia entre teoria, fins, princípios, programa, tática e organização. Veja que a organização é a última em importância ou, visto de outro modo, a síntese entre múltiplas determinações abstratas: nela vivem a teoria, os fins, os princípios, o programa e a tática comunista. A organização comunista só pode existir como organismo vivo de seu programa, daí a parte complicada da construção das organizações revolucionárias. É importante que observemos que a tática tem de estar subordinada ao programa comunista, aos princípios e aos fins. Não se pode aplicar uma tática contrária aos princípios, por exemplo. Por isso a importância da batalha das esquerdas em relação à flexibilidade leninista. Por sua vez, a teoria marxista não vive fora da luta por alguns fins – a comunidade livre das mulheres e dos homens, a sociedade na qual desaparecem as classes sociais – e por alguns princípios que foram sendo adquiridos ao longo da secular luta proletária – por exemplo, a necessária destruição do Estado burguês, ou o fato de que a perspectiva comunista não pode existir fora de uma dinâmica revolucionária de massas. Tampouco pode prescindir do programa, ou seja, a bússola e o mapa que nos orienta para alcançar os objetivos e os princípios do comunismo na prática das multidões em revolução. O programa vai se enriquecendo à luz das experiências passadas. Por exemplo, nesta época foi decisivo ir esclarecendo que os comunistas não podem participar de parlamentos burgueses ou de sindicatos, ou que a questão nacional é inseparável do fortalecimento político e material das frações da burguesia e do capital. Por outro lado, na prática e na teoria comunistas a questão das táticas, as questões concretas que em contextos específicos se apresentam aos revolucionários, também estão presentes. Muitas questões que nessa época Bordiga considerava táticas, hoje em dia têm que fazer parte do programa comunista, como o abstencionismo, já que fazem parte do caminho que tem de traçar o fio comunista tecido pelo proletariado que deveio classe. Por fim, a organização: uma parte fundamental da batalha das esquerdas comunistas europeias foi contra uma autonomização do tático, do contingente, que dissolvia no reino espontâneo do fetichismo do capital a perspectiva comunista, seus princípios e seu programa.

Bordiga criticou sempre a ideia do “mal menor” como uma infecção mortal sobre “o corpo da doutrina e da vontade de ação” dos comunistas. E o fato é que, na realidade, é trivial distinguir momentos melhores ou piores desde a perspectiva da autoemancipação proletária – isto é, a de sua negação enquanto classe –, já que:

A ofensiva capitalista contra o proletariado existe desde antes de meu nascimento e desde antes do nascimento do movimento proletário. É o modo de ser do capitalismo. A simples presença destes asquerosos que administram a economia e a sociedade de modo mercantil é já uma ofensiva e nós estamos obrigados a viver sob esta opressão. Que tipo de ofensiva têm que lançar os burgueses além daquela da qual necessitam cotidianamente para preservar o capitalismo? A luta de classes é um fato permanentemente ofensivo. Existe um momento da história em que a ofensiva se inverte, porém este momento precisa, como condição essencial, que exista um partido autenticamente comunista. O inverso não é certo. Não se pode dizer: temos o partido e, portanto, lançamos a ofensiva. O partido é condição necessária, mas não suficiente. [26]

A ofensiva do capitalismo é permanente, mas às vezes se dá uma inversão da práxis que rompe com o fetichismo mercantil. Diferentemente da doutrina trotskista, para Bordiga é um contrassenso dizer que falta o partido para resolver “a crise da humanidade” ou que com a existência de tal partido poderia se levar a cabo uma revolução. As revoluções não são feitas, elas surgem. O partido é um órgão da classe, se alimenta das ascensões e dos combates da classe e pode ser um fator ativo só a partir da autoatividade da classe, porém para isso é necessário que a revolução surja:

São necessárias aquelas condições que nós definimos, pegando emprestada a terminologia da física, como “polarização social”, assim como ocorre nos campos elétricos, nos sólidos cristalinos, na ionização de um gás. O número dos elétrons e dos átomos interessados não tem importância para desencadear o evento, mas é necessário que se produza para se expandir quantitativamente. A conquista da assim chamada maioria se dá depois de se verificar as condições iniciais da teoria, ação e ambiente. Podemos experimentar todas as táticas que quisermos sempre e quando em nosso slogan revolucionário não existirem palavras que possam estar em contraste, que desrespeitem ou simplesmente se esqueçam de nossos princípios. Por isso, não queríamos que se pusesse [nos debates da 3ª Internacional, N. do A.] a condição da maioria. Poderá se verificar a “conquista da maioria”, mas não é uma ponte pela qual é necessário se passar obrigatoriamente antes de a revolução ter ionizado as moléculas sociais. […] Hoje somos muitos? Somos poucos? De que importa se conseguimos estar na linha que une centenas de milhões de homens que lutaram com as centenas de milhões que lutarão? Este é o verdadeiro problema, o arco histórico que conjuga as revoluções do comunismo originário com o comunismo desenvolvido. [27]

O importante para uma organização comunista é unir-se ao programa histórico de nossa perspectiva, o que reconduz, como diria Walter Benjamin, às gerações do passado com as possibilidades da redenção emancipadora. O partido é “a linha do futuro no presente”. Isto que é decisivo.

Como vimos, existia uma comunhão de princípios e intenções entre a esquerda comunista germano-holandesa e os italianos e a eles teriam que se unir outras tendências da esquerda comunista, como a britânica de Sylvia Pankhurst ou a búlgara. Isto não quer dizer que sobre uma série de questões – por exemplo, os sindicatos ou a questão nacional nas periferias do capitalismo – não houvesse diferença entre eles. Estas diferenças em boa medida aumentaram nas correntes formais que afirmavam pertencer a uma das principais alas da esquerda comunista. Os germano-holandeses não veem em Bordiga senão um ultraleninista, ao passo que a esquerda italiana vê neles um conselhismo que fetichiza a forma da auto-organização em detrimento do conteúdo do programa comunista – sem entender que, precisamente neste período do qual estamos falando, Gorter, Pannekoek, etc. construíram um partido como o KAPD. Não obstante, houve organizações e personalidades mais individuais que trataram de realizar uma confluência entre ambas as correntes, definindo – nas diferenças e perspectivas – a legitimidade da existência de uma esquerda comunista internacional. Esta opção convence-nos.

Além disso, nos anos 20, quando, todavia, as perspectivas teóricas não tinham sido definidas com rigor, a confluência era muito evidente. Il Soviet [O Soviet], o periódico dirigido por Bordiga em Nápoles, publicou o texto de Pannekoek citado aqui amplamente sobre El desarollo de la revolución mundial y la táctica de los comunistas [O desenvolvimento da revolução mundial e a tática dos comunistas]. De fato, e como se lembram Jean Barrot e Denis Authier [28], o Il Soviet não publicava só Pannekoek, mas também Gorter e Pankhurst [29]. Por outro lado, não publicaram nenhum artigo de Lenin e, dos russos, publicavam sobretudo os esquerdistas, como Alexandra Kollontai. Isto era o que Bordiga dizia sobre Pannekoek para apresentar o artigo, já mencionado, que publicaram na Il Soviet:

Como se sabe, o camarada Lenin, em sua admirável atividade, encontrou ultimamente tempo para se dedicar, em um opúsculo especial escrito na véspera do Congresso de Moscou, ao movimento radical dentro do comunismo internacional, definindo-o como doença infantil do comunismo. Neste opúsculo, são colocados em destaque especialmente nossa infantilidade e a de nosso periódico; e depois das palmadas do padre, nos resignamos a aguentar pacientemente as provocações dos queridos irmãos de nossa casa, que não nos faltarão.

Porém, da mesma maneira que para as crianças impertinentes que foram punidas nunca lhes falta um tio protetor para consolá-las com alguma guloseima, aqui nós também recebemos uma guloseima em forma de grande artigo – que será editado também em opúsculo – publicado com o título indicado acima.

Achamos oportuno lembrar que Pannekoek afirmou nitidamente desde 1912, antes de Lenin, o que se converteu em uma referência do comunismo internacional: a destruição do Estado democrático-parlamentar como primeira tarefa da revolução proletária. Lembraremos também que uma testemunha competente e pouco suspeita, Karl Radek, definiu Pannekoek como “o espírito mais claro do socialismo internacional” [30].

A força e a ironia das palavras falam por si mesmas. Mais tarde será a esquerda comunista internacional no exílio a que começa, através da revista Bilan, a realizar essa confluência, influenciada por algumas das posições da esquerda germano-holandesa – em relação à Rússia, ao Estado, aos sindicatos, etc. –, ainda que vá ser a revista dirigida por Marc Chiric nos anos 40 e 50, Internationalisme [Internacionalismo] – órgão da Gauche Communiste de France [esquerda comunista da França] –, quem realizará com mais força tal síntese.

Em todo caso, ao longo deste texto nós tentamos deixar clara a questão essencial deste debate sobre táticas, estratégia e perspectiva comunistas nos nascimentos da 3ª Internacional. Na realidade, as esquerdas comunistas, em sua pluralidade, não eram defensoras infantis de uma ofensiva contínua, de uma guerra de movimentos cega e visceral – como mais tarde Gramsci acusaria não só a Bordiga ou a Pannekoek, mas também a Trotsky e Rosa Luxemburgo, realizando um polpettone [31] indigesto. Na realidade, a esquerda comunista internacional é uma esquerda ocidental que entende, como Gorter lembra permanentemente em sua Resposta ao Camarada Lenin [Carta Aberta], que nos países do capitalismo avançado não se pode reproduzir as táticas que os bolcheviques levaram a cabo na Rússia. Não são infantis, muito pelo contrário. Reconhecem, diferentemente de Lenin, a maior fortaleza das instituições políticas da burguesia no Ocidente. Têm consciência do determinismo a que essas instituições implicam e sabem que nem todas as formas podem ser utilizadas. Como Bordiga lembrava a Lenin nos debates de Moscou, o parlamentarismo ocidental é virulento [32].

Os companheiros russos não podiam nem sequer imaginar, pois não experimentaram o que era o parlamentarismo. Não podiam imaginar o rol de coesão social e desvio das energias revolucionárias que a democracia parlamentar representou. Bordiga viveu isso na própria carne durante o bienio rosso [biênio vermelho] (1919-1920). Giolitti, o político liberal burguês e bicho papão italiano sabia perfeitamente: 150 deputados socialistas no parlamento. Medo? Nenhum. Que fossem 300.

Para terminar nosso artigo, queremos restituir a força do resumo que Gorter leva a cabo a respeito das diferenças entre as esquerdas e o centro leninista:

Para a internacional, a revolução europeia ocidental se desenvolverá conforme as leis e a tática da revolução russa.

Para a Esquerda, a revolução europeia ocidental tem leis que lhes são próprias e se aterá a elas.

Para a Internacional, a revolução europeia ocidental estará em condições de fazer compromissos e alianças com partidos de pequenos camponeses e pequeno-burgueses, inclusive com partidos da grande burguesia.

Para a Esquerda isso é impossível.

Segundo a Internacional, haverá durante a revolução na Europa Ocidental “cisões” e rachas entre os partidos burgueses, pequeno-burgueses e dos camponeses pobres.

Segundo a Esquerda, partidos burgueses e partidos pequeno-burgueses formarão, até o fim da revolução, uma frente única.

A 3ª Internacional subestima o poder do capital europeu ocidental e norte-americano.

A Esquerda concebe sua tática em função deste enorme poder.

A 3ª Internacional não vê de maneira alguma no capital financeiro, no grande capital, o poder capaz de unificar todas as classes burguesas.

A Esquerda elabora sua tática com relação a esse poder.

A 3ª Internacional, ao não admitir que o proletariado da Europa Ocidental se encontra reduzido a suas próprias forças, não tenta desenvolver espiritualmente este proletariado que, não obstante, continua em todos os domínios vivendo sob a influência da ideologia burguesa, e adota uma tática que deixa persistir a submissão às ideias da burguesia.

A Esquerda adota uma tática que visa em primeiro lugar emancipar o espírito do proletariado.

A 3ª Internacional, ao não ver a necessidade de emancipar os espíritos, nem a união de todos os partidos burgueses e pequeno-burgueses, baseia sua tática em compromissos e “cisões”, deixa substituir os sindicatos e tenta conquistá-los.

A Esquerda, pretendendo em primeiro lugar a emancipação dos espíritos e convencida da unidade das formações burguesas, considera que é necessário acabar com os sindicatos e que o proletariado necessita de melhores armas.

Pelas mesmas razões, a 3ª Internacional não ataca o parlamentarismo.

A Esquerda, pelas mesmas razões, quer a abolição do parlamentarismo.

A 3ª Internacional deixa a escravidão ideológica no Estado em que estava na época da 2ª.

A Esquerda pretende extirpá-la dos espíritos. Corta o mal pela raiz.

A 3ª Internacional, ao não admitir a necessidade de em primeiro lugar, na Europa Ocidental, emancipar os espíritos e, tampouco, a unidade de todas as formações burguesas em tempos de revolução, tenta agrupar as massas enquanto massas, então, sem se perguntar se são verdadeiramente comunistas, nem orientar sua tática de maneira que o sejam.

A Esquerda quer formar em todos os países partidos que reúnam unicamente comunistas e concebe sua tática em consequência disto. É através do exemplo destes partidos, pequenos ao começar, que ela quer transformar em comunistas a maioria dos proletários, em outras palavras, as massas.

A 3ª Internacional considera, pois, as massas da Europa Ocidental um meio.

A Esquerda considera-as como um fim.

Por causa desta tática – perfeitamente justificada na Rússia –, a 3ª Internacional pratica uma política de chefes.

A Esquerda, pelo contrário, pratica uma política de massas.

Por causa desta tática, a 3ª Internacional leva à ruína não só a revolução europeia ocidental, mas também e sobretudo a revolução russa.

A Esquerda, pelo contrário, graças a sua tática leva o proletariado mundial à vitória.

A fim de permitir aos operários compreenderem melhor nossa tática, vou resumir também minha exposição sob a forma de breves teses, a serem lidas, é claro, à luz do todo:

A tática da revolução europeia ocidental deve ser absolutamente diferente da tática da revolução russa.

Pois entre nós o proletariado está só.

É necessário, então, fazer a revolução completamente sozinho, contra todas as outras classes.

Portanto, a importância das massas proletárias é proporcionalmente maior e a dos líderes menor que na Rússia.

O proletariado deve dispor, para fazer a revolução, das melhores armas de todas.

Uma vez que os sindicatos são armas ineficazes, é necessário substituí-los ou transformá-los por meio de organizações de fábrica [33] convocadas a se unificarem.

Ao se encontrar o proletariado restringido a fazer a revolução só e sem ajuda, é necessária a mais elevada evolução das inteligências e dos corações. Por isso é melhor não recorrer ao parlamentarismo em tempos de revolução [34].


Notas

[1] Tradução de Thiago Papageorgiou do artigo El pasado de nuestro ser, disponível no website do Grupo Barbaria. Inclui entre colchetes a tradução do título das obras além da tradução de nomes de revistas, partidos e grupos; comentários do autor com comentários dentro das citações são indicados com N. do A. entre colchetes. Todas as citações foram traduzidas a partir do espanhol. [N. T.]
[2] O presente texto foi escrito e publicado em setembro de 2016.
[3] Ver nossa publicação: Auge y estallido de una burbuja. Sobre Podemos y otras consideraciones contra el Estado [A ascensão e o estouro de uma bolha. Sobre o Podemos e outras considerações contra o Estado].
[4] Veja a respeito da carta de J. C. publicada na revista italiana Il Lato Cattivo [O Lado Nocivo] e disponível aqui [A Propósito da Crítica do Valor: Uma Carta a Anselm Jappe]. Ver também o artigo de Federico Corriente, “Jacques Camatte y el eslabón perdido de la crítica social” [Jacques Camatte e o elo perdido da crítica social], Salamandra, nº 21-22, no qual ele indica justamente que o referido elo é a teoria do proletariado revolucionário. Ao enxergar este apenas como capital variável, Kurz fetichiza o capital como uma coisa, que não nasce nem se reproduz a partir de uma relação social permanentemente contraditória, como a que entrelaça capital e trabalho assalariado. O capital nasce da exploração do trabalho assalariado, é isto que cria a condição de possibilidade, na verdade a única condição de possibilidade, de que o proletariado supere o capital se negando a si mesmo.
[5] Partido Social-Democrata Alemão [Sozialdemokratische Partei Deutschlands], o mais forte de toda a 2ª Internacional.
[6] O Partido Social-Democrata Independente da Alemanha [Unabhängige Sozialdemokratische Partei Deutschlands] foi um racha do SPD de caráter centrista, entre o reformismo e a revolução, no qual confluíram personalidades da social-democracia como Bernstein, Kautsky, Hilferding, etc.
[7] Sobre a história da esquerda germano-holandesa, desde seu início até seu final, ver o livro muito documental da CCI: La gauche hollandaise [A esquerda holandesa].
[8] Com limites evidentes, como se pôde comprovar na dinâmica revolucionária aberta no ano de 1917 na Rússia. Obviamente, com isso não pretendemos negar que o ineditismo da experiência e das dificuldades do mesmo processo revolucionário e de seu isolamento ulterior criaram uma situação extremamente complexa e difícil, mas o fato de Lenin não ter relacionado sua teoria do Estado e de sua extinção com a do partido ajudou com que finalmente o partido dirigisse o processo revolucionário e o substituísse, se confundindo com o Estado e levando a cabo o próprio processo contrarrevolucionário. Esta contrarrevolução não chegava de fora da dinâmica revolucionária, como durante a Comuna de Paris ou em 1905, mas do próprio partido bolchevique.
[9] Anton Pannekoek, “El desarollo de la revolución mundial y la táctica de los comunistas” [O desenvolvimento da revolução mundial e a tática dos comunistas], in Contra el nacionalismo, contra el imperialismo y la guerra: ¡Revolución proletaria mundial! [Contra o nacionalismo, contra o imperialismo e a guerra: Revolução proletária mundial!]. Ediciones Espartaco Internacional, p. 227.
[10] Ibid., p. 228-229.
[11] Ver a respeito nosso artigo, Las instituciones son el limite [As instituições são o limite].
[12] Esta citação e a anterior foram extraídas de Lenin, La enfermedad infantil del izquierdismo en el comunismo, ed. Progreso, Moscou.
[13] Ver Jacques Camatte, El KAPD y el movimiento proletario [O KAPD e o movimento proletário].
[14Ibid. Aqui Camatte realiza, além disso, uma explicação sintética de como o partido comunista é uma expressão orgânica da classe (um produto que por isso mesmo pode ser um fator ativo na época da revolução), que no momento de ascensão revolucionária pode passar de um elemento histórico a um fator formal, ativo, sempre e quando não se separe da classe, porque, além disso, a classe em revolução devém partido (Marx, Manifesto Comunista).
[15] O leninismo é uma ideologia do manobrismo, dirá com força o comunista francês (amigo de Bordiga e crítico ulterior dos surtos leninistas do comunista napolitano), Lucien Laugier. Ver a respeito disso seu texto extraordinário L’antikapdédisme du PCI [O antikapdismo do PCI], ao qual voltaremos mais adiante.
[16] Lenin, op. cit.
[17] No texto de Laugier já citado, este realiza uma crítica muito pertinente ao mesmo Amadeo Bordiga. Sua radicalidade comunista na hora de questionar o valor, o dinheiro, o mercado, a empresa, etc. não é transferida à política, à crítica do Estado acima de tudo. É importante ter em conta que o capitalismo se sustenta sobre uma dualidade, economia e política, com a qual a revolução comunista tem que romper conscientemente.
[18] Ibid., p. 229 e 330.
[19] Vereinigte Kommuntische Partei Deutschlands [Partido Comunista Unificado da Alemanha], fusão entre o antigo KPD e o USPD, a social-democracia independente.
[20] Anton Pannekoek, op. cit., p. 230.
[21] Paradigma com o qual romperá rapidamente, porém, por desgraça, em uma direção conselhista que dissolve a função do partido como órgão da classe, um órgão interno a esta e não substitucionista, como indicava Camatte na citação acima.
[22] Referimo-nos a personagens como Togliatti, Thorez, Rakosi, ou até mesmo Gramsci, não à segunda geração de líderes stalinistas que não haviam passado pelo “período heróico" prévio, como Dolores Ibarruri, Thälmann ou Santiago Carrillo. Que saibamos, é algo que não foi ainda desenvolvido suficientemente desde um ponto de vista teórico, isto é, como o taticismo leninista na 3ª Internacional, a busca constante por ziguezagueadas e imbróglios ajudou a posterior emersão da política stalinista no Komintern, política qualitativamente diferente da de Lenin e Trotsky, porém que encontrou seus fundamentos neles, além de ajudar uma série de quadros dos partidos comunistas, sem solidez teórica, a iniciar o processo de “bolchevização” e stalinização dos partidos comunistas. O exemplo do PCdI é paradigmático quanto a isso e o papel de Gramsci nisso é nefasto, ainda que obviamente não tão nefasto e pérfido como foi o caso desse “profissional da contrarrevolução” em que se converteu Palmiro Togliatti.
[23] Amadeo Bordiga, “Partito ed azione di clase” [Partido e ação de classe; disponível em português aqui], in- Scritti 1911-1926 [Escritos 1911-1926], Fondazione Amadeo Bordiga, vol. 5, p. 362.
[24] Ibid., p. 367. [Nota do Revisor: Em tradução direta do italiano no site n+1: “Se as possibilidades revolucionárias forem menos imediatas, não correremos por um momento o risco de nos distrairmos de tecer nossa própria trama de preparação e de cair na solução de outros problemas contingentes, dos quais só a burguesia ganharia.”]
[25] Ibid.
[26] Amadeo Bordiga, “1919-1926: Rivoluzione e controrivoluzione in Europa” [1919-1926: Revolução e contrarrevolução na Europa], n+1. Trata-se da transcrição de um informe de Bordiga em uma das reuniões periódicas do Partido Comunista Internacional. Como dizem os companheiros da n+1, as gravações foram encontradas por acaso em um mercado de segunda mão e são de um valor extraordinário para a reconstrução teórica e histórica dos debates da 3ª Internacional que Bordiga realiza. Disponível aqui.
[27] Ibid.
[28] Jean Barrot (Gilles Dauvé) e Denis Authier, La izquierda comunista en Alemania. 1919-1921 [A esquerda comunista na Alemanha. 1919-1921]. Zero ZYX, Madrid, 1978. Trata-se de um livro muito recomendado.
[29] De fato, Bordiga realizou uma enérgica defesa de Pankhurst quando ela foi expulsa da Internacional Comunista. Veja no tomo 6 de seus Scritti [Escritos], “Il Partito Comunista Inglese e Sylvia Pankhurst” [O Partido Comunista Inglês e Sylvia Pankhurst], p. 152.
[30]  Trata-se de uma nota resgatada pela Invariance [Invariância] (a revista de Jacques Camatte), quando publicou o texto de Pannekoek que mencionamos, e publicada na edição castelhana da Espartaco Internacional.
[31] Obra literária ou cinematográfica complexa e desordenada. [N. T.]
[32] Amadeo Bordiga: “1919-1926: Rivoluzione e controrivoluzione in Europa” [1919-1926: Revolução e contrarrevolução na Europa], op. cit.
[33] Há um equívoco na tradução do termo alemão Betriebsorganisationen, organizações de empresa ou local de trabalho, traduzido aqui como organizações de fábrica. [N. T.]
[34] Gorter, Carta Aberta ao Camarada Lenin.