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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Manifesto Internacionalista contra a guerra e a paz capitalista na Ucrânia - TŘÍDNÍ VÁLKA (2022)

 

O presente manifesto foi traduzido a partir do produzido em inglês pelo grupo TŘÍDNÍ VÁLKA. Já havíamos realizado um compilado de traduções a respeito desse tópico e consideramos essencial continuar essa tarefa.

 

***

Josef Čapek - Oheň 
(Josef Čapek, 1938)


“SUAS GUERRAS! NOSSOS MORTOS!” foi sob essa bandeira que proletários radicais se distanciaram dos desfiles pacifistas organizadas nas ruas da Espanha, em março de 2004, após os massacres em Madrid que deixaram mais de 200 mortos. Eles avançaram esse lema derrotista em resposta à participação militar da Espanha no Iraque e à “Guerra ao Terror” imposta pelo Estado capitalista mundial e seu ramo espanhol, ecoando dessa forma as muitas manifestações históricas de derrotismo revolucionário que entremeiam o desenvolvimento de sociedades de classe e, portanto, da luta de classes, da guerra de classes.

Como proletários socialistas revolucionários, comunistas, anarquistas..., não temos absolutamente nenhum interesse material em tomar partido, de qualquer maneira que seja, com o Estado capitalista e sua democracia, qualquer que seja sua aparência, com nossos inimigos de classe, com nossos exploradores, com aqueles que sempre nos retribuíram severamente com “tiros, metralhadoras e prisão” quando lutamos e tomamos as ruas para reivindicar nossa humanidade. E é assim independente da natureza e da orientação política do regime de turno na pátria A ou na pátria B, que estão em um conflito interestatal por seus próprios interesses de conquista e poder. Nós nunca expressaremos qualquer solidariedade com qualquer um de nossos exploradores!

SEUS INTERESSES! NOSSOS MORTOS! Não tomamos posição por nenhum dos Estados em conflito, seja ele categorizado, de acordo com a moralidade política burguesa dominante, como “o agressor” e o outro como “o agredido” ou vice-versa. Seus respectivos interesses em jogo são exclusivamente seus e em total oposição aos da classe explorada, ou seja, nós proletários; é por isso que, por fora e contra todo nacionalismo, todo patriotismo, todo regionalismo, todo localismo e todo particularismo, afirmamos em alto e bom som nosso internacionalismo!

O proletariado, como uma classe revolucionária, não mostra nenhuma neutralidade em relação a qualquer um de seus exploradores que se confrontam na redistribuição de suas participações no mercado, mas ao contrário, ele rejeita-as igualmente como dois lados da mesma realidade, o mundo de exploração de uma classe por outra, e expressa sua profunda solidariedade com todos os setores de nossa classe que estão passando pelas agressões multiplicadas de um ou outro de seus inimigos históricos. Mas sejamos claros, nós nunca negaremos aos proletários a necessidade imperativa de se defenderem contra qualquer agressão, repressão, tortura, massacre...

E aqui, na circunstância atual, os proletários na Ucrânia não mais possuem a sua frente apenas seu inimigo costumeiro e diário, isto é o Estado ucraniano “agredido” e sua burguesia local (chamada de “oligarca” para melhor esconder sua verdadeira natureza de classe, como se fossem diferentes de todos os outros capitalistas em outros lugares do mundo), não têm apenas de passar pelos ataques de sua própria burguesia (com cortes salariais, demissões, economia de guerra, repressão dos subsequentes movimentos grevistas), mas desde 24 de fevereiro desse ano também têm de confrontar a ofensiva militar do Estado “agressor” dos capitalistas russos com seu exército, seus bombardeamentos, seus mísseis, seus massacres diários...

SUAS NAÇÕES! NOSSOS MORTOS! E para todos os belicistas da esquerda e da extrema-esquerda do Capital, que acusarão mais uma vez os revolucionários de serem “neutros” e de não “tomarem posição”, respondemos que é bem o contrário que propomos nesse manifesto e em nossa atividade militante no geral: defendemos firmemente o partido do proletariado e a defesa de seus interesses históricos e imediatos, defendemos sua ação de subversão desse mundo de guerra e miséria, defendemos o desenvolvimento, a generalização, a coordenação e a centralização dos atos de fraternização, deserção, motim já existentes em ambos os lados do fronte, contra ambos os beligerantes, contra ambos os Estados, contra ambas as nações, contra ambas as frações locais da burguesia mundial... Defendemos a extensão dessas lutas e sua conexão orgânica, como momentos de uma totalidade com todas as lutas que têm acontecido há meses e em todos os lugares sob o Sol negro da ditadura social do Capital, seja no Sri Lanka, Peru, Irã, Equador ou Líbia.

Advogamos pelo desenvolvimento do terceiro campo, o único campo que defende os interesses globais do proletariado em sua luta imediata e histórica contra a exploração, o trabalho assalariado, a miséria e a guerra. Esse terceiro campo é o do proletariado internacionalista revolucionário, o qual se opõe a todos os campos burgueses em guerra, é o campo de nossos irmãos e irmãs de classe que lutam por seus próprios interesses, que são antagônicos aos interesses de todos aqueles que defendem a propriedade privada, o dinheiro e a ordem social que esses portam...

SUA PAZ! NOSSA EXPLORAÇÃO! Se rejeitamos categoricamente todas as guerras burguesas, nas quais o proletariado serve apenas como carne de canhão, não importando a qual campo é incorporado, rejeitamos a “paz” da mesma forma e com a mesma força, a “paz” não é nada mais do que o momento invertido, mas complementar, da “guerra”. A paz é somente um momento de reconstrução entre duas guerras, porque a guerra é necessária ao Capital de modo a temporariamente resolver a crise inerente ao seu modo de produção. Mas a guerra é também o momento supremo de paz social, e a última é somente a materialização da guerra permanente travada contra nossa classe através da exploração de nossa força de trabalho, a mercantilização de nossas vidas e a alienação de nossas existências.

Voltando à Ucrânia, gostaríamos de salientar aqui que se nos opomos fortemente ao apoio a qualquer lado na presente guerra, que não é nada além de uma guerra entre Estados, se recusamos tomar lados com uma ou outra burguesia beligerante, tanto a ucraniana que é “invadida” e “agredida” como a russa que é “invasora” e “agressora”, nosso julgamento é diferente e mesmo antagônico quando analisamos os eventos que transcorreram algumas semanas antes do estalar da guerra na Ucrânia. Estamos nos referindo à repressão militar no Cazaquistão e a “ocupação” desse país por tropas de elite do exército russo: uma “ocupação” não é necessariamente igual a outra!

NOSSAS REVOLTAS! NOSSOS MORTOS! Obviamente, ninguém, ou apenas alguns, ficou chocado com a repressão do levante de trabalhadores no Cazaquistão em janeiro e por uma boa razão. Nem mesmo no Ocidente, onde por fim os capitalistas entenderam rapidamente que a burguesia russa, ao “invadir” o Cazaquistão que havia se tornado incontrolável socialmente, ao esmagar o proletariado em revolta, ao restaurar através do terror a ordem dos grandes negócios, a ordem dos negócios internacionais, estava na verdade agindo objetivamente em serviço dos interesses de todos os capitalistas, e portanto também das multinacionais que têm suas sedes no Ocidente. Eis aqui a absoluta diferença em natureza entre a “ocupação” do Cazaquistão para reprimir um movimento social que ameaçava parcialmente a atual ordem das coisas, por um lado, e a “ocupação” de uma parte da Ucrânia em um conflito que responde aos interesses geoestratégicos entre diferentes frações do mesmo Capital mundial, por outro.

Todo mundo entenderá facilmente que a abordagem proletária a esses dois tipos de ocupação, e como se posicionar, será totalmente diferente. No caso, como na Ucrânia, onde existem dois atores burgueses que se confrontam, se posicionar e se empenhar contra um deles, contra o “agressor” (nesse caso, o Estado russo), mas não contra o outro, o “agredido” (o Estado ucraniano), acaba de maneira objetiva, e especialmente em um sentido eminentemente prático, quer se goste ou não, apesar de sua vontade, apesar do que se afirma, em se empenhar com e apoiar o último, e ainda mais na ausência de qualquer dinâmica de autonomização em relação às estruturas militares e de abastecimento que concebe esse comprometimento. Porque não nos enganemos, não existia antes do eclodir da guerra, e não existe no momento, qualquer movimento revolucionário forte na Ucrânia, suficientemente antagônico para que pudesse afirmar o poder social de nossa classe e defender seus interesses imediatos e históricos.

Por outro lado, no caso de um levante proletário em uma dada região que a burguesia é obrigada a reprimir através da contribuição de uma força interventora “externa” (por conta do derrotismo que enfraquece as forças de repressão locais), a “ocupação” resultante tem um caráter completamente diferente. Nosso inimigo é nossa própria burguesia, claro, mas é acima de tudo a burguesia que temos diretamente em frente de nós, a que está nos reprimindo, bombardeando, massacrando, a que está tomando o lugar da fração burguesa que inicialmente nos explorava, que está a substituindo. Obviamente, entendemos que contra uma “agressão”, contra uma “ocupação”, contra massacres e repressão, os proletários querem resistir, pegar armas, defenderem-se... Mas enquanto no Cazaquistão essa resistência armada teria como objetivo a defesa do levante social, a defesa de um embrião de dinâmicas revolucionárias, na Ucrânia a resistência dos proletários, mais uma vez se for limitada somente a um dos protagonistas da confrontação bélica, arrisca rapidamente aniquilar-se nas mãos do Estado ucraniano, de seus aliados e de seus interesses burgueses. Pelo menos é isso que a história das lutas de nossa classe sempre nos mostrou, até que se prove ao contrário... e o exemplo histórico da Espanha de 1936-37 é revelador nesse aspecto, já que a revolução foi sacrificada lá em nome do “mal menor” a ser defendido, a república burguesa, a frente popular antifascista, confrontado com o que era representado como o “mal absoluto”: o fascismo.

Na Espanha ontem, como em Rojava e na Ucrânia hoje, “o povo em armas” não é, e está longe de ser, o proletariado armado; armado com as armas da crítica para permitir o desenvolvimento da crítica real pelas armas...

Portanto, podemos apenas saudar os proletários que recusam se posicionar em um ou outro dos campos burgueses presentes e que, ao contrário, afirmam seu internacionalismo e se organizam para confrontar os dois irmãos inimigos. Como nos anos 80 do último século, quando desertores “iraquianos” se organizaram com desertores “iranianos”, durante a terrível carnificina que durou oito longos anos, e quando eles juntaram forças para lutar juntos contra ambos os exércitos burgueses.

Saudações, então, às proletárias na Ucrânia, tanto na região ocidental de Transcarpathia (portanto, sob administração militar ucraniana) e no Donbass, nas “províncias orientais” (portanto, sob administração militar russa), que foram às ruas para expressar seu desprezo pela “defesa da pátria” e para exigir o retorno de seus filhos, irmãos e parentes enviados aos frontes para defender interesses que não são seus.

Saudações aos proletários na Ucrânia que estão secretamente abrigando soldados russos que desertaram, por risco próprio já que quando são presos, seja pelas autoridades militares russas ou pelas ucranianas, são forçados a entender onde a força legal está nesse mundo nojento, qual lado e qual pátria eles têm de defender e que nenhuma fraternidade será tolerada.

Saudações aos proletários na Ucrânia que, apesar do alistamento obrigatório, escapam de sua incorporação em unidades militares através de todos os meios disponíveis, legais ou não, e dessa forma recusam se sacrificar e servir sob as dobras do trapo nacional ucraniano.

Saudações aos soldados russos que, desde o começo das “operações especiais” na Ucrânia, têm fugido da guerra e seus massacres, abandonando tanques e veículos armados funcionando e buscando sua salvação em voos, através de redes de solidariedade com desertores de ambos os exércitos.

Saudações também (embora a informação a esse rspeito seja menos precisa, a guerra das notícias e da propaganda militar obriga!) aos 600 soldados da marinha russa que recusaram no começo do conflito a desembarcar, sabotando então um desembarque na área de Odessa.

Saudações também (com as mesmas ressalvas) aos soldados russos que fizeram motim e se recusaram a atacar Kharkov, também no início do conflito.

Saudações aos soldados do exército da “República Popular de Donetsk”, forçadamente incorporados e enviados ao fronte de Mariupol, que recusaram continuar a lutar, a servir como “carne de canhão” (de acordo com eles mesmos!), enquanto dessa vez eles eram enviados para defender a vizinha “República Popular de Lugansk”.

Saudações aos rebeldes e sabotadores que, na Federação Russa, já queimaram dezenas de escritórios de recrutamento militar e outros escritórios dos porcos por todo o país.

Saudações aos ferroviários na Bielorrússia, que têm repetidamente sabotado os trilhos, essenciais para a manutenção de linhas de abastecimento do exército russo mobilizado na Ucrânia.

Saudações aos proletários na Ucrânia que, no início dos bombardeios, começaram a organizar saques coletivos de lojas abandonadas por seus donos, de supermercados e shoppings, como reportado em Mariupol, Kherson e até em Kharkov, avançando a satisfação das suas necessidades básicas de sobrevivência contra todas as leis e morais que protegem a propriedade privada.

Saudações a todos os proletários na frente doméstica, que organizam greves e se recusam a oferecer seu trabalho e seu suor para a economia de guerra, a economia da paz social, e portanto a economia de todas as formas, estejam conscientes ou não disso.

E finalmente, saudações aos proletários, ferroviários, estivadores... na Europa, Grécia, Inglaterra.. que recusam transportar equipamento militar para a OTAN para Ucrânia.

Saudações, portanto, para todos você que recusam se sacrificar no altar da guerra, da miséria e da pátria!!!

E o dia, que esperamos ser em breve, em que os proletários tomarão as ruas de Moscou e Kiev, e de todas as grandes áreas urbanas da Rússia e da Ucrânia, entoando com uma voz “Putin e Zelenski, fora!”, responderemos de nossa parte, nos referindo aos camaradas que bradavam nas ruas da Argentina há mais ou menos vinte anos atrás o lema “¡Que se vayan todos!”, que todos sumam, que vão para os infernos, Biden, Johnson, Macron, Scholz, Sanchez, von der Leyen, Michel, Stoltenberg... todos esses promotores da guerra e da miséria... e todos aqueles, com certeza todos aqueles, que estão na fila da alternância política!

Mas sejamos claros: eles são somente intermediários nesse sistema de prostituição generalizada que é o trabalho assalariado, a venda obrigatória de nossa força de trabalho. Para além de todas as pessoas que personificam a ditadura social do Capital, o último é acima de tudo uma relação social impessoal que pode ser, é e tem sido reproduzido por qualquer elemento, burguês ou proletário, cooptado a fazê-lo. Então, mesmo que compartilhemos por completo a alegria dos proletários no Sri Lanka que, depois de ter expulso o presidente vigente alguns dias atrás, invadiram seu palácio presidencial e mergulharam em sua luxuosa piscina, a pergunta que devemos nos fazer é: como empurrar a dinâmica revolucionária rumo a suas últimas consequências, como expropriar a classe proprietária e reapropriar nossos meios de existência... e acima de tudo, como não retroceder?! É aqui que a genuína aventura humana começa... 


Guerra de Classes, 31 de Julho de 2022

sábado, 24 de setembro de 2022

1936: Como a "Frente Popular" na França e na Espanha mobilizou a classe trabalhadora para a guerra (2006)

 

 

Apresentação

A presente tradução foi realizada através do texto disponibilizado aqui pela ICC (International Communist Current), publicado em 2006. 

Consideramos a tradução deste artigo importantíssima visto os tópicos citados e sua relevância para o contexto atual da luta de classes no território brasileiro, em que impera a mobilização da classe trabalhadora para a defesa da democracia. Não consideramos isso uma particularidade de nossa classe nesse país, mas a maneira através da qual a burguesia vem esmagando e recuperando as diferentes revoltas que tem acontecido, como por exemplo no Chile. Isso também não nos é surpresa, como já dito em um material compartilhado anteriormente nesse blog a dominação e retomada de controle pela burguesia opera através da falsificação do conteúdo das lutas e pela repolarização do proletariado em diferentes frentes a favor de um ou outro lado burguês. 

No contexto brasileiro e no Chile, essa repolarização se dá no presente principalmente pelos polos do fascismo e do antifascismo, em que a defesa da democracia se torna a batalha mais importante para salvar o mundo da barbárie fascista e a democracia é colocada como o maior interesse dos explorados, que representaria um mundo capitalista completamente livre e justo.  

Por esse motivo, consideramos que a tradução desse artigo e seu fazer conhecer entre os círculos brasileiros seria de muita serventia, de modo a nos conectar com o fio histórico que liga nossas lutas atuais com esses ensinamentos históricos das experiências passadas de nossa classe.


1936: Como a "Frente Popular" na França e na Espanha mobilizou a classe trabalhadora para a guerra (2006)

 

Setenta anos atrás, em maio de 1936, uma enorme onda de lutas dos trabalhadores irrompeu espontaneamente contra a exploração ampliada provocada pela crise econômica e o desenvolvimento da economia de guerra. Na Espanha, em julho do mesmo ano, a classe operária iniciou imediatamente uma greve geral e pegou em armas em resposta à revolta militar de Franco. Muitos revolucionários, incluindo alguns dos mais conhecidos como Trotsky, interpretaram estes eventos como o início de uma nova onda revolucionária internacional. Na verdade, eles foram enganados pelo apoio entusiasta das multidões, por uma compreensão superficial das forças presentes e pela natureza "radical" de alguns dos discursos.


Com base em uma análise clara do equilíbrio de forças em nível internacional, a esquerda comunista italiana (em sua revista, Bilan) percebeu que as Frentes Populares estavam longe de ser a expressão de um desenvolvimento do movimento revolucionário. Pelo contrário, elas mostraram que a classe estava ficando cada vez mais enredada pela ideologia nacionalista e democrática e estava abandonando a luta contra os efeitos da crise histórica do capitalismo. "A Frente Popular mostrou ser o processo concreto da dissolução da consciência de classe do proletariado, a arma destinada a manter os trabalhadores no terreno da preservação da sociedade burguesa em todos os aspectos de suas vidas social e política". (Bilan n°31, maio-junho de 1936). Com grande rapidez, tanto na França como na Espanha, o aparato político da esquerda "socialista" e "comunista" se colocaria à frente desses movimentos. Ao encerrar os trabalhadores na falsa alternativa do fascismo/antifascismo, eles sabotaram o movimento de dentro, orientaram-no para a defesa do Estado democrático e por fim alistaram os trabalhadores na França e na Espanha no segundo massacre imperialista mundial.


Hoje há um lento ressurgir da luta de classes e novas gerações aparecem em busca de alternativas radicais ao fracasso cada vez mais manifesto do capitalismo. Neste contexto, movimentos "antiglobalização", como o ATTAC, denunciam o liberalismo desenfreado e a "ditadura do mercado", que "arrebata o poder político das mãos dos Estados, e portanto dos cidadãos" e clama pela "defesa da democracia contra a ditadura financeira". Este "outro mundo" proposto pelos partidários da "antiglobalização" frequentemente toma medidas inspiradas nas políticas dos anos 30, 50 ou 70, quando o Estado supostamente desempenhou um papel muito mais importante como ator econômico imediato. Deste ponto de vista, as políticas dos governos da Frente Popular, com seus programas de controle estatal da economia, "da unidade de todos os estratos da população trabalhadora contra os capitalistas e a ameaça fascista", desencadeando uma "revolução social", são exageradas a fim de apoiar a afirmação de que "outro mundo", que outras políticas, são possíveis dentro do capitalismo.


Portanto, é absolutamente essencial, por ocasião deste 70º aniversário, lembrar o contexto e o significado dos acontecimentos de 1936:

  • recordar as trágicas lições destas experiências, em particular a armadilha fatal para a classe trabalhadora de abandonar o terreno da defesa intransigente de seus interesses específicos para submeter-se às necessidades de um ou outro campo burguês;

  • denunciar as mentiras espalhadas pela "esquerda", de que foram a encarnação dos interesses da classe trabalhadora ao longo destes acontecimentos, mostrando que eles foram de fato o seu executor.

     

A década de 1930 foi caracterizada pela derrota da onda revolucionária de 1917-23 e pelo triunfo da contrarrevolução. Eles foram fundamentalmente diferentes do atual período histórico de ressurgimento das lutas e do lento desenvolvimento da consciência. Entretanto, a nova geração de proletários que tentam fugir da ideologia contrarrevolucionária, se depara continuamente com essa mesma "esquerda", suas armadilhas e manipulações ideológicas, embora agora use as novas roupas de "antiglobalização". Só é possível escapar delas reapropriando-se das lições, conquistadas de maneira tão difícil, da experiência passada do proletariado.

 

A Frente Popular fortaleceu a luta contra a exploração capitalista?


A Frente Popular afirmou que estava "unificando a força do povo contra a arrogância dos capitalistas e a ascensão do fascismo". Mas será que elas realmente deram início a uma dinâmica que fortaleceu a luta contra a exploração capitalista? Foram realmente um passo para o desenvolvimento da revolução? Para responder a isso, uma abordagem marxista não pode se basear exclusivamente no tom radical dos discursos e na violência das erupções sociais que sacudiram vários países da Europa Ocidental na época. Ela toma como base uma análise do equilíbrio de forças entre as classes a nível internacional e para todo o período histórico. Qual foi o contexto geral de forças e fraquezas do proletariado e de seu inimigo mortal, a burguesia, no qual ocorreram os acontecimentos de 1936?


O produto da derrota histórica do proletariado


A poderosa onda revolucionária forçou a burguesia a terminar a guerra, levou a classe trabalhadora ao poder na Rússia e abalou as fundações do poder burguês na Alemanha e em toda a Europa Central. Em seguida, durante toda a década de 1920, o proletariado sofreu uma série de derrotas sangrentas. O esmagamento do proletariado alemão em 1919 e depois em 1923 pelos social-democratas do SPD abriu o caminho para a ascensão de Hitler ao poder. O trágico isolamento da revolução na Rússia assinou a sentença de morte da Internacional Comunista e deixou o caminho aberto para o triunfo da contrarrevolução estalinista, que aniquilou toda a velha guarda dos bolcheviques e a força viva do proletariado. Finalmente, a última centelha proletária foi impiedosamente extinta na China em 1927. O curso da história havia sido invertido. A burguesia havia obtido vitórias decisivas sobre o proletariado internacional e o curso rumo à revolução mundial foi substituído por uma marcha inexorável rumo à guerra mundial. Isto significou o mais horrível retorno à barbárie capitalista.


Entretanto, apesar de tais derrotas esmagadoras dos batalhões da vanguarda mundial do proletariado, ainda havia episódios de combatividade, às vezes importantes, dentro da classe. Este foi particularmente o caso nos países em que não havia sofrido uma derrota direta, nem física nem ideologicamente, no contexto dos confrontos revolucionários de 1917-1927. Assim, no ponto alto da crise dos anos 30, em julho de 1932, uma greve selvagem irrompeu entre os mineiros na Bélgica, que rapidamente assumiu dimensões insurrecionais. Ela partiu de um movimento contra as reduções salariais nas minas de Borinage. Quando os grevistas foram demitidos, o movimento se espalhou por toda a província e houve violentos confrontos com a polícia. Na Espanha de 1931 a 1934, a classe trabalhadora se engajou em várias lutas, que foram brutalmente reprimidas. Em outubro de 1934, todas as áreas de mineração nas Astúrias e o cinturão industrial de Oviedo e Gijon explodiram em uma insurreição suicida, que foi esmagada pelo governo republicano e seu exército, acabando em uma repressão brutal. Também na França, embora a classe trabalhadora estivesse profundamente desmoralizada e exausta pela política "esquerdista" do PC, segundo a qual até 1934 a revolução era iminente e era necessário "criar sovietes em toda parte", ela ainda manifestava uma certa combatividade. Durante o verão de 1935, diante da legislação que decretava grandes cortes salariais para os trabalhadores do setor estatal, ocorreram manifestações impressionantes e confrontos violentos com a polícia nas docas de Toulon, Tarbes, Lorient e Brest. Em Brest, depois que um trabalhador foi espancado até a morte por soldados com a coronha de seus fuzis, os trabalhadores exasperados lançaram violentas manifestações e tumultos entre 5 e 10 de agosto de 1935. Estas terminaram em 3 mortes e centenas de feridos; dezenas de trabalhadores foram presos[1].


Essas expressões de militância contínua, muitas vezes marcadas pela raiva, desespero e desorientação política, foram realmente "explosões de desespero" que mostraram todas as fraquezas da situação internacional de derrota e dispersão dos trabalhadores. A análise de Bilan traz isto à tona em relação à Espanha: 

"Se os critérios internacionais significam alguma coisa devemos dizer que, dada a evidência de um desenvolvimento da contrarrevolução a nível internacional, a orientação da Espanha entre 1931 e 1936 só pode seguir uma direção paralela [isto é, o curso contrarrevolucionário dos acontecimentos], ao invés do curso oposto de desenvolvimento revolucionário. A revolução só pode evoluir plenamente como resultado de uma situação revolucionária em nível internacional." (Bilan n°35, janeiro de 1937). 

 

Entretanto, a fim de mobilizar os trabalhadores daqueles países onde o movimento revolucionário não havia sido esmagado, as burguesias nacionais foram obrigadas a recorrer a uma mistificação específica. Nos países onde o proletariado já havia sido esmagado em um confronto direto entre as classes, a mobilização ideológica para a guerra por trás do fascismo ou do nazismo, ou por trás da ideologia estalinista da "defesa da pátria socialista", eram as formas específicas de desenvolvimento da contrarrevolução. Naqueles regimes políticos que haviam permanecido "democráticos", a mesma mobilização pela guerra foi empreendida em nome do antifascismo. Para isso, a burguesia francesa e espanhola (e outras como a burguesia belga, por exemplo) utilizaram a chegada da esquerda ao poder para mobilizar a classe em suporte ao antifascismo em defesa do Estado "democrático" e para estabelecer a economia de guerra.

A posição assumida pela esquerda em relação às lutas proletárias mencionadas acima mostra claramente que as políticas da Frente Popular não foram desenvolvidas para fortalecer a dinâmica das lutas dos trabalhadores. Durante as greves insurrecionais na Bélgica em 1932, o Parti Ouvrier Belge (POB) e sua comissão sindical se recusaram a apoiar o movimento. Isto serviu para direcionar a raiva dos trabalhadores também contra a socialdemocracia. Os grevistas atacaram a Maison du Peuple em Charleroi e rasgaram ou queimaram seus cartões de filiação ao POB e ao sindicato. A partir do final de 33, o POB apresentou o "Plano de Trabalho", como uma "alternativa popular" à crise capitalista, a fim de canalizar a raiva e o desespero dos trabalhadores.

A Espanha é também uma ilustração particularmente clara do que o proletariado pode esperar de um governo "republicano" e "de esquerda". Desde o início de sua existência, a República Espanhola mostrou que não precisava aprender nada com os regimes fascistas sobre como massacrar trabalhadores. Um grande número de lutas nos anos 30 foram esmagadas pelos governos republicanos ou pelo PSOE até 1933. O PSOE, que estava em oposição na época, incitou a insurreição suicida nas Astúrias, em outubro de 34, com papeado "revolucionário". Em seguida, isolou completamente o movimento, em conjunto com sua união, a UGT, o que impediu qualquer extensão do movimento. Daí em diante, Bilan expôs claramente o caráter dos regimes democráticos "de esquerda": 

"De fato, desde sua fundação em 31 de abril de 1931 até dezembro de 1931, a "guinada à esquerda" da República Espanhola - a formação do governo Azana-Caballero-Lerroux, a amputação de sua direita representada por Lerroux em dezembro de 1931 - não oferece de forma alguma condições favoráveis para o desenvolvimento de posições de classe proletárias ou para a formação de órgãos capazes de liderar a luta revolucionária. Não se trata de forma alguma de ver o que o governo republicano e radical-socialista deveria fazer para o bem da (...) revolução comunista. É uma questão de analisar o significado desta mudança para a esquerda ou para a extrema esquerda, este concerto unânime dos socialistas aos sindicalistas em defesa da república. Criou as condições para o desenvolvimento das conquistas da classe trabalhadora e a direção revolucionária do proletariado? Ou este movimento à esquerda foi ditado pela necessidade do capitalismo de entorpecer os trabalhadores, que haviam sido arrebatados por uma profunda explosão revolucionária, para garantir que não seguiriam o caminho da luta revolucionária. O caminho que a burguesia trilharia em outubro de 1934 era muito perigoso em 1931 (...)" (Bilan n°12, novembro de 1934).


Finalmente, é especialmente significativo que os violentos confrontos em Brest e Toulon no verão de 1935 eclodiram no exato momento em que a Frente Popular foi formada. Como estes se desenvolveram espontaneamente contra os slogans dos líderes políticos e sindicais da "esquerda", esta última não hesitou em caluniar como "provocadores" aqueles que estavam perturbando a "ordem republicana": "nem a Frente Popular, nem os comunistas que estão na linha de frente, quebram janelas, saqueiam cafés ou rasgam a bandeira nacional" (editorial Humanité, 7 de agosto de 1935).

Assim, desde o início, como Bilan mostrou em relação à Espanha a partir de 1933, as políticas da Frente Popular e dos governos de esquerda não se baseavam de forma alguma numa dinâmica de fortalecimento das lutas proletárias. Pelo contrário, desenvolveram-se contra ela, colidiram deliberadamente com os movimentos operários que estavam num terreno de classe para sufocar estas últimas explosões de resistência contra a "dissolução total do proletariado dentro do capitalismo" (Bilan n°22, agosto-setembro de 1935): 

"Na França, a Frente Popular, fiel a sua tradição traiçoeira, não deixará de apelar para o assassinato daqueles que recusam se curvar diante do 'desarmamento francês' e que, como em Brest e Toulon, se engajam em greves por suas próprias exigências, em batalhas de classe contra o capitalismo e para além do domínio dos pilares da Frente Popular" (Bilan n°26, dezembro-janeiro de 1936).


O antifascismo amarra os trabalhadores à defesa do Estado burguês


As Frentes Populares não "uniram as forças populares contra a ascensão do fascismo", pelo menos? Quando Hitler chegou ao poder na Alemanha no início de 1933, a esquerda usou o avanço das facções de extrema direita ou fascistas nos países "democráticos" para mostrar que era necessário defender a democracia por meio de uma ampla frente antifascista. Esta estratégia foi posta em prática pela primeira vez na França a partir do início de 1934 e foi posta em marcha por meio de um grande artifício. Um pretexto foi dado pela violenta manifestação de 6 de fevereiro de 1934 em protesto contra os efeitos da crise e da corrupção nos governos da Terceira República. Grupos da extrema direita (Croix de Feu, Camelots du Roi) estavam envolvidos nesta manifestação, assim como militantes do PC. Alguns dias depois, houve uma reviravolta completa na atitude do PC, devido a uma mudança de estratégia por parte de Stalin e do Komintern. Este último havia decidido substituir a tática de "classe contra classe" por uma política de reaproximação com os partidos socialistas. A partir daquele momento, o dia 6 de fevereiro foi apresentado como uma "ofensiva fascista" e uma "tentativa de golpe de estado" na França.

O motim de 6 de fevereiro de 1934 permitiu à esquerda exagerar a existência de uma ameaça fascista na França e, consequentemente, lançar uma ampla campanha para mobilizar os trabalhadores em nome do antifascismo para a defesa da "democracia". A greve geral convocada tanto pelo PC como pela SFIO (Section française de l'Internationale ouvrière) a partir do dia 12 coroou o antifascismo com o slogan "Unidade! Unidade contra o fascismo!". O PC francês assimilou rapidamente a nova orientação e na conferência nacional em Ivry, em junho de 1934, declarou Thorez: "No momento atual, o fascismo é o principal perigo. É contra isto que devemos concentrar toda a força de nossa ação proletária de massas e conquistar para esta ação todos os estratos de trabalhadores da população". Esta perspectiva resultou na rápida assinatura de um acordo bilateral entre o PC e a SFIO em julho de 1934.

Desta forma, o antifascismo tornou-se o ponto em torno do qual foi possível reagrupar todas as forças burguesas que estavam "apaixonadas pela liberdade" atrás da bandeira da Frente Popular. Também permitiu que os interesses do proletariado fossem ligados aos do capital nacional, formando a "aliança da classe trabalhadora com os trabalhadores das classes médias" para poupar a França "da vergonha e dos males de uma ditadura fascista", como disse Thorez. Como extensão disto, o PC francês desenvolveu o mote "200 famílias que saqueiam a França e vendem a baixo custo o interesse nacional". Assim, todos, com exceção destes "capitalistas", estavam sofrendo por causa da crise e se solidarizavam uns com os outros. Desta forma, a classe trabalhadora, e seus interesses de classe, foram afogados no povo e na nação em oposição a "um punhado de parasitas".

Por outro lado, o fascismo era denunciado diariamente e histericamente como o único elemento que levava à guerra. A Frente Popular mobilizou a classe trabalhadora em defesa da pátria contra o invasor fascista e o povo alemão foi identificado com o nazismo. Os slogans do PC francês chamavam todos a "comprar francês!" e glorificavam a reconciliação nacional. Assim, a esquerda arrastou o proletariado para defesa do estatismo por meio do nacionalismo mais ultrajante, a pior expressão do chauvinismo e da xenofobia. 

O ponto alto desta intensa campanha foi uma aliança eleitoral e a formação pública da Frente Popular em 14 de julho de 1935. Para a ocasião, os trabalhadores foram obrigados a cantar o hino nacional francês sob retratos conjuntos de Marx e Robespierre e foram obrigados a gritar "Viva a República Francesa dos soviets!". Ao concentrar todas as ações no desenvolvimento da campanha eleitoral para a "Frente Popular pela Paz e pelo Trabalho", os partidos de "esquerda" redirecionaram as lutas para fora do terreno de classe em direção ao da democracia eleitoral burguesa, afogaram o proletariado na massa amorfa do "povo francês" e o canalizaram para a defesa dos interesses nacionais. 

"Isto foi o resultado das novas posições de 14 de julho, que foram uma conseqüência lógica da política chamada antifascismo. A República não era o capitalismo, era o reino da liberdade, da democracia que é, como conhecemos, a plataforma do antifascismo. Os trabalhadores juraram solenemente defender esta República contra os agitadores internos e externos, enquanto Stalin lhes dizia para aprovar o armamento do imperialismo francês em nome da defesa da URSS" (Bilan n°22, agosto-setembro de 1935).


A mesma estratégia de mobilização da classe trabalhadora no terreno eleitoral em defesa da democracia foi utilizada em vários países. Ela os integrou na generalidade dos estratos populares e os mobilizou para a defesa dos interesses nacionais. Na Bélgica, a mobilização dos trabalhadores por trás da campanha em torno do "Plan de Travail" utilizou meios de propaganda psicológica que de forma alguma ficaram aquém da propaganda nazista ou estalinista. Isso resultou na entrada do POB no governo em '35. A propaganda antifascista, liderada pela esquerda do POB em particular, atingiu o clímax em 1937 em um duelo em Brusselles entre Degrelle, o líder do partido fascista Rex, e o primeiro ministro Van Zeeland, que teve o apoio de todas as forças "democráticas" incluindo o PC belga. No mesmo ano, Spaak, um dos líderes da ala esquerda do POB, enfatizou o "caráter nacional" do programa socialista belga. Ele também propôs que o partido se tornasse um partido do povo porque defendia o interesse comum e não mais os interesses de uma classe só!

Entretanto, foi na Espanha que o exemplo francês inspirou mais claramente as políticas da esquerda. Após o massacre nas Astúrias, o PSOE ainda focava sua propaganda em torno do antifascismo, a "frente unida de todos os democratas" e apelava para um programa da Frente Popular contra a ameaça fascista. Em janeiro de 1935 eles assinaram uma aliança da "Frente Popular" com a união UGT, os partidos republicanos e o PC espanhol, com o apoio crítico da CNT e do POUM. Esta "Frente Popular" chamava abertamente à substituição da luta dos trabalhadores pela luta no terreno burguês contra sua facção fascista e a favor de sua ala "antifascista" e "democrática". A luta contra o capitalismo foi enterrada em favor de um ilusório "programa de reforma" do sistema, que tinha que realizar uma "revolução democrática". Ao iludir o proletariado através desta falsa frente antifascista e democrática, a esquerda o mobilizou no terreno eleitoral e obteve um triunfo eleitoral em fevereiro de 1936: 

"Esta [coalizão republicano-socialista em 1931-33] foi uma demonstração conclusiva sobre o uso da democracia como meio de manobra para manter o regime capitalista. Mas depois disso, em 1936, e da mesma forma, foi novamente possível empurrar o proletariado espanhol a alinhar-se, não em defensa de interesses de classe, mas na defesa da "República", do "Socialismo" e do "Progresso" contra a monarquia, o fascismo clerical e a reação. Isto mostra a profunda desordem dos trabalhadores na Espanha, onde o proletariado só recentemente deu provas de sua combatividade e de seu espírito de autossacrifício." (Bilan n°28, fevereiro-março de 1936).

 

De fato, a política antifascista da esquerda e a formação de "Frentes Populares" conseguiram atomizar os trabalhadores, diluí-los dentro da população, mobilizá-los para uma transformação democrática do capitalismo a ponto de imbuí-los de veneno chauvinista e nacionalista. Bilan mostrou-se certo quando a Frente Popular foi formada oficialmente em 14 de julho de 1935: 

"Impressionantes manifestações de massa sinalizam a dissolução do proletariado francês no regime capitalista. Apesar de haver milhares e milhares de trabalhadores marchando pelas ruas de Paris, não há mais uma classe operária lutando por seus próprios objetivos na França, assim como existe na Alemanha. Neste sentido, o 14 de julho marca um momento decisivo no processo de desintegração do proletariado e na reconstrução de uma unidade sagrada da nação capitalista. (...) Os trabalhadores carregaram pacientemente a bandeira nacional, cantaram o hino nacional e até aplaudiram Daladier, Cot e outros ministros capitalistas que, junto com Blum e Cachin, juraram solenemente "dar pão aos trabalhadores, trabalho aos jovens e paz ao mundo". Isto significa balas de chumbo, quartéis e guerra imperialista para todos." (Bilan n°21, julho-agosto de 1935).


As medidas econômicas da Frente Popular: o Estado a serviço dos trabalhadores?


Mas será que a esquerda não limitou pelo menos os horrores da livre concorrência do capitalismo "monopolista" através de suas medidas para reforçar o controle do Estado sobre a economia? Não protegeu, portanto, as condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora? Mais uma vez, é necessário colocar as medidas exaltadas pela esquerda dentro do quadro geral da situação do capitalismo.

No início da década de 1930, havia uma anarquia total na produção capitalista. A crise mundial atirou milhões de proletários nas ruas. A crise econômica, produzida pela decadência do sistema capitalista, manifestou-se através de uma grande depressão na década de 1930 (o crash da bolsa de 1929, taxas de inflação recorde, queda na produção e crescimento industrial, aceleração dramática no desemprego). Isto empurrou a burguesia vitoriosa inexoravelmente para a guerra imperialista pela redivisão do mercado mundial super saturado. "Exportar ou morrer" tornou-se o slogan de toda burguesia nacional e foi expresso claramente pelos líderes nazistas.

 

Movimento em direção à guerra e ao desenvolvimento da economia de guerra


Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi privada de suas poucas colônias pelo tratado de Versalhes e ficou com dívidas e reparações de guerra esmagadoras. Foi isolada no centro da Europa e a partir daí surgiu o problema que determinou as políticas de todos os países europeus durante as duas décadas seguintes. Conforme reconstruía sua economia, a Alemanha foi confrontada com a necessidade urgente de encontrar saídas para seus produtos e sua expansão só poderia ocorrer dentro do quadro europeu. Os acontecimentos aceleraram-se quando Hitler chegou ao poder em 1933. As necessidades econômicas que impulsionaram a Alemanha para a guerra encontraram sua expressão política na ideologia nazista: o desafio do Tratado de Versalhes, a demanda por "espaço vital", que só poderia ser na Europa.

Isto convenceu certas facções da burguesia francesa de que a guerra era inevitável e que a Rússia soviética seria um bom aliado para bloquear as aspirações pan-germânicas. Tanto mais que, em nível internacional, a situação estava se tornando mais clara: enquanto a Alemanha deixava as Nações Unidas, a URSS se unia a ela. Anteriormente, esta última havia jogado a carta alemã para se opor ao bloqueio continental, imposto pelas democracias ocidentais. Mas então a relação da Alemanha com os EUA se estreitou à medida que estes últimos investiram na economia alemã, ressuscitaram-na graças ao plano Dawes e apoiaram a reconstrução econômica de um "bastião" ocidental contra o comunismo. Neste momento, a Rússia estalinista reorientou sua política externa para romper esta aliança. De fato, até muito tarde, importantes setores da burguesia dos países ocidentais acreditavam ser possível evitar a guerra com a Alemanha, fazendo algumas concessões e, sobretudo, dirigindo a necessária expansão da Alemanha para o leste. Munique 1938 expressou esta contínua incompreensão da situação e da próxima guerra.

A viagem a Moscou feita pelo ministro francês das Relações Exteriores, Laval, em maio de 1935, sublinhou dramaticamente este posicionamento de peões imperialistas no tabuleiro de xadrez europeu com a aproximação franco-russa. A assinatura por Stalin de um tratado de cooperação, significou seu reconhecimento implícito da política de defesa da França e encorajou o PC francês a votar a favor dos créditos militares. Alguns meses mais tarde, em agosto de 1935, o 7° Congresso do PCUS[2] delinhou as conseqüências políticas para a Rússia de uma possível aliança com os países ocidentais, a fim de enfrentar o imperialismo alemão. Dimitrov nomeou o novo inimigo que tinha que ser combatido: o fascismo. Os socialistas que haviam sido violentamente criticados até então, tornaram-se uma força democrática (entre outras) com a qual era necessário aliar-se para derrotar o inimigo fascista. Os partidos estalinistas de outros países seguiram a virada de 180° de seu irmão mais velho, o PCUS, tornando-se assim os mais ardentes defensores dos interesses imperialistas da chamada "pátria socialista".

Em resumo, todos os países industriais sentiram uma poderosa necessidade de desenvolver a economia de guerra; não apenas a produção maciça de armamentos, mas também toda a infraestrutura necessária para esta produção. Todas as grandes potências, tanto "democráticas" quanto "fascistas", desenvolveram uma política semelhante de grandes obras públicas sob o controle do Estado e uma indústria de armamento inteiramente voltada para a preparação de uma segunda guerra mundial. A indústria se organizou em torno delas; impôs uma reorganização do trabalho, da quais o "taylorismo" foi uma das progênies mais escolhidas.

 

A esquerda e o controle do estado


Uma das principais características das políticas econômicas da "esquerda" foi o fortalecimento das medidas de intervenção do Estado para apoiar a economia em crise e o controle do Estado sobre vários setores da economia. Justificava tais medidas como sendo as "de uma 'economia controlada', de socialismo de Estado, amadurecendo as condições que permitiriam aos 'socialistas' a conquistarem 'pacificamente' gradualmente os principais postos do Estado" (Bilan n°3, janeiro de 1934). Tais medidas foram geralmente elogiadas por toda a socialdemocracia europeia. Elas foram retomadas no programa econômico da Frente Popular na França, conhecido como o plano Jouhaux. Na Espanha, o programa da Frente Popular continha uma ampla política de créditos agrários e um plano de grandes obras públicas para reabsorver os desempregados, bem como uma legislação trabalhista que fixava, por exemplo, um salário mínimo. Podemos ver seu real significado examinando um de seus principais modelos, o "New Deal", que foi desenvolvido nos Estados Unidos após a crise de 1929 pelos democratas sob Roosevelt. Também analisando uma das materializações teóricas mais desenvolvidas deste "Socialismo de Estado", o "Plan de Travail" do socialista belga Henri De Man.

O "New Deal", criado nos Estados Unidos em 1932, era um plano de reconstrução econômica e de "paz social". A intervenção do governo teve como objetivo restabelecer o equilíbrio do sistema bancário e reativar o mercado financeiro, realizar grandes obras públicas (a construção de barragens pela Autoridade do Vale do Tennessee data deste período) e lançar certos programas sociais (sistema de pensão, seguro-desemprego, etc.). O papel da nova agência federal, a National Recovery Administration [Administração de Recuperação Nacional] (NRA), era estabilizar preços e salários em cooperação com empregadores e sindicatos. Ela criou a Public Works Administration [Administração de Obras Públicas] (PWA) para administrar a política de grandes obras públicas.

O governo Roosevelt abriu o caminho - sem saber - para que os partidos de trabalhadores conquistassem as principais alavancas do poder estatal? Para Bilan, o oposto aconteceu: "A intensidade da crise econômica, juntamente com o desemprego e a miséria de milhões de pessoas, acumulou a ameaça de graves conflitos sociais que o capitalismo americano teve que dissipar ou sufocar por todos os meios ao seu alcance" (Bilan n°3, janeiro de 1934). Portanto, longe de serem medidas em benefício dos trabalhadores, as medidas de "paz social" eram ataques diretos contra a autonomia de classe do proletariado. "Roosevelt tinha como objetivo, não dirigir a classe trabalhadora para a oposição de classe, mas dissolvê-la dentro do regime capitalista, sob o controle do Estado capitalista. Assim, os conflitos sociais não poderiam mais surgir a partir da verdadeira luta (de classe) entre os trabalhadores e os patrões e seriam restritos a uma oposição entre a classe trabalhadora e o NRA, um órgão capitalista estatal. Assim, os trabalhadores deveriam desistir de qualquer iniciativa na luta e renunciar o seu destino ao seu inimigo" (Idem.).

Um dos principais arquitetos destas medidas de controle estatal e o homem que foi a inspiração por trás da maioria delas, foi Henri De Man. Ele foi o chefe do instituto do nuúcleo do POB e foi vice-presidente e a luz guia do partido desde 1933. Suas medidas foram postas em prática pelas Frentes Populares, bem como pelos regimes fascistas (Mussolini era um grande admirador seu). Para De Man, que havia feito um estudo detalhado do desenvolvimento industrial e social nos Estados Unidos e na Alemanha, os "velhos dogmas" tinham de ser abandonados. Para ele, a base da luta de classes era a sensação de inferioridade social dos trabalhadores. Assim, em vez de orientar o socialismo em torno da satisfação das necessidades materiais de uma classe (os trabalhadores), ele deveria ser direcionado para valores espirituais universais, tais como justiça, respeito pela personalidade humana e uma preocupação com o "interesse geral". Desta forma, as inevitáveis e irreconciliáveis contradições entre a classe trabalhadora e os capitalistas foram eliminadas. Não somente a revolução deve ser rejeitada, mas também o "velho reformismo", que se torna inaplicável em períodos de crise. Não adianta exigir um pedaço maior de bolo, este que está constantemente encolhendo. Um bolo novo e maior deve ser feito. Este era o objetivo do que ele chamou de "revolução construtiva". Dentro deste quadro, para o congresso de "Natal" do POB de 1933 ele desenvolveu seu "Plan de Travail", que esperava "reformas estruturais" do capitalismo:

  • a nacionalização dos bancos, que continuariam a existir, mas que venderiam parte de suas ações a uma instituição de crédito estatal e se submeteriam às orientações do plano econômico;
  • esta mesma instituição de crédito compraria algumas das ações dos grandes monopólios em certos setores industriais básicos (como o energético), de modo que estes se tornariam empresas mistas sob a propriedade conjunta dos capitalistas e do Estado;
  • além dessas empresas "associadas", um setor capitalista livre continuaria a existir, estimulado e apoiado pelo Estado;
  • os sindicatos estariam diretamente envolvidos na coordenação desta economia mista por meio do "controle dos trabalhadores", uma orientação que De Man defendeu com base na experiência das grandes fábricas nos EUA.


De que forma estas "reformas estruturais", exaltadas por De Man, levaram à defesa da luta da classe trabalhadora? Para Bilan, De Man queria "mostrar que a luta dos trabalhadores deve se restringir naturalmente a objetivos nacionais em termos de forma e conteúdo, que a socialização significava a nacionalização progressiva da economia capitalista ou a economia mista. Sob o pretexto da 'ação imediata', De Man pregou a adaptação nacional dos trabalhadores dentro da 'nação única e indivisível' e ofereceu isto como o refúgio supremo dos trabalhadores que haviam sido controlados pela reação capitalista". Em conclusão, "As reformas estruturais de H. De Man visam colocar a verdadeira luta dos trabalhadores - e este é seu único objetivo - no domínio do irreal. Elas excluem qualquer luta pela defesa dos interesses imediatos ou históricos do proletariado em nome de uma reforma estrutural que, em termos de sua concepção e seus meios, só pode ajudar a burguesia a fortalecer seu Estado de classe, reduzindo a classe trabalhadora à impotência". (Bilan n°4, fevereiro de 1934).

Mas Bilan foi além e situou a proposta do "Plano de Trabalho" no contexto do papel que a esquerda desempenhou no marco histórico do período. "O advento do fascismo na Alemanha encerrou um período decisivo de lutas dos trabalhadores. (...) A socialdemocracia, que foi um elemento essencial nestas derrotas, foi também um elemento na reforma orgânica da vida do capitalismo (...) Ela usou uma nova linguagem para continuar sua tarefa. Rejeitou o internacionalismo verbal, por não ser mais necessário, e passou a uma franca preparação ideológica dos trabalhadores para a defesa de 'sua nação'. (...) É aí que se encontra a verdadeira origem do plano do De Man. Este último foi uma tentativa concreta de sancionar, por meio de uma mobilização adequada, a derrota do internacionalismo revolucionário e a preparação ideológica para incorporar o proletariado na luta em torno do capitalismo rumo à guerra. É por isso que seu nacionalsocialismo tem o mesmo papel que o nacional-socialismo dos fascistas". (Bilan n°4, fevereiro de 1934).

A análise do New Deal e do Plano de De Man ilustra bem que estas medidas não vão de forma alguma no sentido de fortalecer a luta do proletariado contra o capitalismo. Pelo contrário, elas visam reduzir a classe trabalhadora à impotência e fazê-la se submeter às necessidades da defesa nacional. Como diz Bilan, o plano de De Man não pode de forma alguma ser distinguido do programa de controle estatal dos regimes fascistas e nazistas ou dos planos de cinco anos do estalinismo, que haviam sido implementados na URSS a partir de 1928 e que no início inspiraram os democratas nos EUA.

Estes tipos de medidas foram generalizadas porque correspondiam às necessidades do capitalismo decadente. Neste período, a tendência geral ao capitalismo de estado é uma das características dominantes da vida social. "Neste período, cada capital nacional, porque não pode expandir-se de forma irrestrita e confrontado com severas rivalidades imperialistas, é obrigado a organizar-se da forma mais eficiente possível, para que externamente possa competir economica e militarmente com seus rivais e lidar internamente com o agravamento crescente das contradições sociais. O único poder na sociedade que é capaz de cumprir estas tarefas é o Estado. Somente o Estado pode:

  • assumir o controle da economia nacional de forma centralizada e mitigar a concorrência interna que enfraquece a economia, a fim de fortalecer sua capacidade de manter uma face unida contra a concorrência no mercado mundial;
  • desenvolver a força militar necessária para a defesa de seus interesses diante do crescente conflito internacional;
  • finalmente, devido a um aparelho repressivo e burocrático cada vez mais pesado, reforçar a coesão interna de uma sociedade ameaçada de colapso através da crescente decomposição de sua base econômica, (...)" (Plataforma da ICC).


Na realidade, todos esses programas que visavam uma reorganização da produção nacional sob o controle do Estado foram, então, inteiramente voltados para a guerra econômica e para a preparação de outro massacre mundial (a economia de guerra). Eles correspondem perfeitamente à necessidade dos estados burgueses de sobreviverem dentro do capitalismo no período decadente. 


Vitória das Frentes Populares: "revolução social" em marcha?


Mas não seriam estas análises pessimistas varridas pelas greves maciças de maio-junho de 1936 na França e pelas medidas sociais tomadas pelo governo da Frente Popular, e pela "revolução espanhola" que começou em julho de 1936? Estes acontecimentos não confirmam, ao contrário, na prática, o acerto da abordagem das frentes "antifascista" ou "popular"? Quando se trata disso, não foram estas uma expressão concreta da "revolução social" em ação? Examinemos a realidade destes acontecimentos.


Maio-Junho de 1936 na França: os trabalhadores se mobilizaram por trás do Estado democrático


A grande onda de greves que se seguiu imediatamente à ascensão ao governo da Frente Popular após sua vitória eleitoral de 5 de maio de 1936 confirmaria os limites do movimento operário, marcado como foi por uma derrota na onda revolucionária e curvado sob o peso da contrarrevolução.

 

Os "ganhos" de 1936


No dia 7 de maio, uma onda de greves eclodiu na indústria aeronáutica, seguida pelas indústrias de engenharia e automobilística, acompanhada de ocupações espontâneas de fábricas. Apesar de sua combatividade, estas lutas foram um sinal de quão limitada era a capacidade dos trabalhadores de empreender o combate em seu próprio terreno de classe. Nos primeiros dias do movimento, a esquerda conseguiu disfarçar como "vitória dos trabalhadores" o descarrilamento da combatividade dos trabalhadores para o terreno do interesse nacional. É verdade que esta foi a primeira vez que as ocupações de fábrica ocorreram na França: foi também a primeira vez que alguém viu os trabalhadores cantando a Marselhesa junto com a Internacional, ou marchando atrás da bandeira vermelha junto com a tricolor nacional. O aparelho de controle do PC e dos sindicatos continuava a dominar a situação e conseguiu manter os trabalhadores fechados nas fábricas ao som calmante do acordeão, enquanto seu destino era resolvido no topo, nas negociações que iriam levar aos acordos de Matignon. A unidade certamente existia, mas era a do aparelho de controle da burguesia sobre a classe trabalhadora, não a da classe trabalhadora em si. Quando alguns poucos opositores se recusaram a entender que, uma vez assinados os acordos, era hora de voltar ao trabalho, a Humanité lhes explicou que "é necessário saber como parar uma greve... é até mesmo necessário saber como concordar com um compromisso" (Maurice Thorez, discurso de junho de 1936), e que "não devemos assustar nossos amigos radicais".

Durante o julgamento de Riom, realizado pelo regime de Vichy para punir os responsáveis pela "decadência moral da França", o próprio Léon Blum explicou como as ocupações da fábrica haviam sido parte da mobilização nacional: "os trabalhadores estavam lá como guardiães, como supervisores e também, em certo sentido, como co-proprietários. E do ponto de vista especial que lhe diz respeito, o fato de observar a comunidade de direitos e deveres em relação ao patrimônio nacional não leva a garantir e preparar sua defesa comum e unânime? (...) é assim que se cria para os trabalhadores, pouco a pouco, uma propriedade conjunta na pátria; é assim que se ensina a defender a pátria".

A esquerda conseguiu o que queria: levou a combatividade dos trabalhadores ao terreno estéril do nacionalismo, do interesse nacional. "A burguesia é obrigada a recorrer à Frente Popular para canalizar uma inevitável explosão da luta de classes em seu próprio benefício, particularmente na medida em que a Frente Popular aparece como a emanação da classe trabalhadora e não como a força capitalista que dissolveu o proletariado para mobilizá-lo para a guerra" (Bilan n°32 junho-julho de 1936).

Para acabar com qualquer resistência operária, os estalinistas usavam seus porretes contra aqueles que "se deixavam levar à realizar ações imprudentes" (M Thorez, 8 de junho de 1936) e o governo da Frente Popular chamou a polícia para abater os trabalhadores em Clichy em 1937. Ao espancar ou matar as últimas minorias recalcitrantes de trabalhadores, a burguesia conseguiu arrastar todo o proletariado francês para a defesa da nação.

Fundamentalmente, não havia nada no programa da Frente Popular que preocupasse a burguesia. No dia 16 de maio, Daladier, o presidente do Partido Radical, foi tranquilizador: "nenhum artigo do programa da Frente Popular contém nada que possa incomodar os legítimos interesses de qualquer cidadão, preocupar os investidores, ou prejudicar qualquer força de trabalho saudável da França. Não há dúvida de que nem mesmo foi lido por muitos dos que mais apaixonadamente lutaram contra ele" (L'Oeuvre, 16 de maio de 1936). No entanto, para inculcar sua ideologia antifascista e permanecer totalmente credível em seu papel de defensora da pátria e do Estado capitalista, a esquerda teve que distribuir algumas migalhas. Os acordos de Matignon e as pseudo-conquistas de 1936 tornaram possível apresentar a esquerda no poder como "uma grande vitória dos trabalhadores", para ganhar a confiança dos trabalhadores na Frente Popular e sua defesa do Estado burguês mesmo em tempo de guerra.

Este famoso acordo Matignon, assinado em 7 de junho de 1936 e celebrado pela CGT como "uma vitória sobre a pobreza", e que até hoje ainda é apresentado como um modelo de "reforma social", foi portanto a cenoura usada para vender o programa da Frente Popular aos trabalhadores. O que exatamente ele oferecia?

Sob a aparência de "concessões" à classe trabalhadora, tais como aumentos salariais, a semana de 40 horas e feriados remunerados, a burguesia assegurou acima de tudo a organização da produção sob a liderança de um estado "imparcial", como o líder da CGT Léon Jouhaux apontou: "(...) o início de uma nova era (...), a era das relações diretas entre as duas grandes forças econômicas organizadas do país (...) As decisões foram tomadas de forma totalmente independente, sob a égide do governo, este último desempenhando o papel de árbitro quando necessário, o que corresponde à sua função de representante do interesse geral" (discurso de rádio de 8 de junho de 1936). O objetivo era conseguir que os trabalhadores aceitassem aumentos sem precedentes na velocidade das filas através da introdução de novos métodos de organização do trabalho destinados a aumentar em dez vezes a produtividade por hora, especialmente na indústria de armamento. Isto significou a generalização do taylorismo, do funcionamento da linha de produção e a ditadura do cronômetro na fábrica.

Foi Léon Blum pessoalmente quem tirou o véu "social" que havia escondido as leis de 1936, em seu discurso no julgamento de Riom em 1942, que tinha a intenção de lançar a culpa da pesada derrota infligida ao exército francês pelos nazistas em 1940 à porta da Frente Popular e da semana de 40 horas: "O que está por trás da produtividade de hora em hora? (...) depende da boa coordenação e da adaptação dos movimentos do trabalhador à sua máquina; depende também da condição moral e física do trabalhador.

"Há toda uma escola de pensamento na América, a escola de Taylor e os engenheiros Bedeau, que você pode ver na inspeção da linha de fábrica, que realizaram estudos muito minuciosos dos métodos materiais de organização que maximizam a produtividade por hora das máquinas, sendo este precisamente seu objetivo. Mas há também a escola Gilbreth que estudou e pesquisou os dados sobre as condições físicas que permitirão ao trabalhador obter esta produtividade. O ponto essencial é limitar o cansaço do trabalhador (...) você não acha que toda nossa legislação social foi do tipo que melhorou esta condição moral e física do trabalhador: a jornada de trabalho mais curta, mais lazer, feriados pagos, a sensação de ter conquistado uma certa dignidade e igualdade, tudo isso foi pensado como elementos para maximizar a produtividade horária que o trabalhador poderia extrair da máquina".


Foi assim e por isso que as medidas "sociais" do governo da Frente Popular foram necessárias para adaptar e acalmar o proletariado aos novos métodos de produção destinados ao rápido rearmamento da nação antes da eclosão da guerra. Além disso, é notável que os feriados pagos, de uma forma ou de outra, foram concedidas ao mesmo tempo na maioria dos países desenvolvidos rumo à guerra e, portanto, impondo a sua força de trabalho os mesmos aumentos na velocidade de produção.

Em junho de 1936, inspirado pelos movimentos na França, uma greve dos estivadores eclodiu na Bélgica. Depois de primeiro tentar detê-la, os sindicatos reconheceram o movimento e o orientaram para exigências semelhantes às da Frente Popular na França: aumento dos salários, semana de 40 horas e uma semana de férias pagas. Em 15 de junho, o movimento se generalizou em direção a Borinage e às regiões de Liège e Limburg: 350.000 trabalhadores em todo o país estavam em greve. O principal resultado do movimento foi refinar o sistema de consulta social através da criação da conferência nacional do trabalho, onde patrões e sindicatos acordaram o plano nacional para otimizar a competitividade da indústria belga.

Uma vez terminadas as greves e atingido um aumento duradouro na produtividade por hora, restava apenas ao governo da Frente Popular retomar o que havia concedido. Os aumentos salariais foram consumidos pela inflação em questão de meses (os preços dos alimentos aumentaram 54% entre 1936 e 1938), a semana de 40 horas foi posta em questão pelo próprio Blum um ano depois, e completamente esquecida quando o governo Radical de Daladier em 1938 acelerou toda a máquina econômica em preparação para a guerra: abolindo os pagamentos extras para as primeiras 250 horas extras, pondo fim aos contratos de trabalho que proibiam o trabalho à peça e sancionando todos aqueles que recusaram as horas extras na causa da defesa nacional. "Nas fábricas que trabalham para a defesa nacional, sempre foram concedidas dispensas na semana legal de 40 horas. Na maioria das outras coisas, em 1938 obtive o acordo da organização dos trabalhadores para uma semana de 45 horas nas fábricas que trabalham direta ou indiretamente para a defesa nacional" (Blum no julgamento do Riom). Finalmente, com o apoio do governo Blum e o acordo dos sindicatos, os patrões recuperaram seus feriados remunerados. O Natal e o Ano Novo foram incorporados ao período de feriados pagos, e isto foi seguido pela abolição de todos os feriados públicos existentes: o total somou até 80 horas extras de trabalho - o que correspondeu exatamente às duas semanas de feriados pagos concedidas pela Frente Popular.

Quanto ao reconhecimento dos delegados sindicais e dos contratos de trabalho, isso representou nada mais do que o fortalecimento do domínio dos sindicatos sobre os trabalhadores, ampliando sua presença nas fábricas. Para isso, Léon Jouhaux, o socialista e líder sindical, explicou nestes termos: "a organização dos trabalhadores [isto é, os sindicatos] querem a paz social. Em primeiro lugar para não envergonhar o governo da Frente Popular e, em segundo lugar, para não dificultar o rearmamento". Quando a burguesia se prepara para a guerra, o Estado deve controlar toda a sociedade de modo a direcionar toda sua energia para este fim sangrento. E, nas fábricas, são os sindicatos que permitem ao Estado policiar a força de trabalho.

Se houve vitória, foi a sinistra vitória do capital preparando sua única "solução" para a crise: a guerra imperialista.


A preparação para a guerra


Desde o início da Frente Popular na França, com seu slogan "paz, pão, liberdade", seu antifascismo e pacifismo, a defesa dos interesses imperialistas da burguesia francesa foi misturada com ilusões democráticas. Dentro deste quadro, a esquerda explorou habilmente os preparativos internacionais para a guerra para demonstrar que o "perigo fascista está em nossa fronteira", organizando, por exemplo, toda uma campanha sobre a agressão italiana na Etiópia. De forma ainda mais clara, a SFIO e o PC desempenharam papéis diferentes em relação à Guerra Civil espanhola: enquanto a SFIO se recusou a intervir na Espanha em nome do pacifismo, o PC pediu a intervenção em nome da "luta antifascista".

Se havia uma coisa pela qual o capital francês podia agradecer ao governo da Frente Popular, era sua preparação para a guerra.

Em primeiro lugar, a esquerda pôde usar a enorme massa de trabalhadores em greve como meio de pressão contra as forças mais retrógradas da burguesia, impondo as medidas necessárias para salvaguardar o capital nacional diante da crise e fazendo com que tudo parecesse uma vitória para a classe trabalhadora;

Em segundo lugar, a Frente Popular lançou um programa de rearmamento através da nacionalização da indústria bélica sobre o qual Blum deveria declarar durante o julgamento do Riom: "Propus um grande projeto fiscal... cujo objetivo era dirigir todas as forças da nação para o rearmamento e fazer deste intenso esforço de rearmamento uma condição para uma recuperação industrial e econômica definitiva. Isso deixou objetivamente para trás a economia liberal, para substituí-la por uma economia de guerra".

E de fato, a esquerda estava ciente de que a guerra estava chegando: foi a esquerda que impulsionou a entente franco-russa, e que denunciou mais violentamente as tendências a Munique da burguesia francesa. Suas "soluções" para a crise não eram diferentes daquelas da Alemanha nazista, da América do New Deal ou da Rússia estalinista: o desenvolvimento do setor improdutivo da indústria de armamento. Como Bilan assinalou: "não é por acaso que estas grandes greves eclodiram na indústria da engenharia, a começar pelas fábricas de aeronaves (...) estes setores estão trabalhando a todo vapor, graças à política de rearmamento que está sendo seguida em todos os países. Este fato é sentido pelos trabalhadores e eles foram forçados a lançar seu movimento para reduzir o ritmo embrutecedor da linha de produção".

Finalmente e acima de tudo, a Frente Popular levou a classe trabalhadora ao pior terreno possível para ela, o de sua derrota esmagadora: o nacionalismo.

Graças à histeria patriótica desenvolvida pela esquerda através do antifascismo, o proletariado foi levado a defender uma fração da burguesia contra outra, a democrata contra a fascista, e um estado contra outro, a França contra a Alemanha. O PC francês declarou: "chegou o momento de colocar em prática o armamento generalizado do povo, de empreender as reformas fundamentais que aumentarão dez vezes o poder militar e técnico do país. O exército do povo, o exército de trabalhadores e camponeses, bem ensinado e bem dirigido por oficiais fiéis à República". Em nome deste "ideal" os "comunistas" celebraram o nome de Joana D'Arc, "a grande libertadora da França", e o PC apelou para uma frente francesa com o mesmo slogan utilizado pela extrema-direita apenas alguns anos antes: "A França para os franceses"! Sob o pretexto de defender as liberdades democráticas ameaçadas pelo fascismo, o proletariado foi levado a aceitar os sacrifícios necessários para a saúde do capital francês, e finalmente a sacrificar suas vidas no massacre da Segunda Guerra Mundial.

A Frente Popular encontrou aliados efetivos em sua tarefa de executor entre seus críticos de esquerda: O Parti Socialiste Ouvrier et Paysan de Maurice Pivert ("Partido Socialista dos Trabalhadores e Camponeses", PSOP), os trotskistas e os anarquistas. Todos desempenharam o papel de promotores entre os elementos mais combativos da classe e estavam constantemente se fazendo passar como "os mais radicais", embora a única coisa radical neles fosse a mistificação que eles vendiam. O Jeunesses Socialistes de la Seine ("Juventude Socialista do Sena"), ou Trotskistas como Craipeau e Roux, praticaram o entrismo, e foram os primeiros a defender e organizar a milícia antifascista; os amigos de Pivert dentro do PSOP foram os mais virulentos na crítica à "covardia" de Munique. Todos foram unânimes na defesa da República Espanhola ao lado dos antifascistas e todos participariam mais tarde do banho de sangue interimperialista como parte da Resistência. Todos fizeram a sua parte em defesa da capital nacional, todos eles mereceram bem da pátria!


Espanha, julho de 1936: o proletariado enviado para o abatedouro


Graças à formação da Frente Popular, e sua vitória nas eleições de fevereiro de 1936, a burguesia injetou a classe trabalhadora com o veneno da "revolução democrática" e conseguiu vincular os trabalhadores à defesa do Estado burguês "democrático". De fato, quando uma nova onda de greves irrompeu imediatamente após as eleições, ela foi retida e sabotada pela esquerda e pelos anarquistas porque "entrar greve é fazer o jogo dos patrões e da direita". Isto encontraria uma expressão concreta e trágica durante o Pronunciamento militar de 19 de julho de 1936. Os trabalhadores reagiram imediatamente ao golpe de estado entrando em greve, ocupando quartéis e desarmando os soldados, contra as ordens do governo que exigia calma. Onde quer que os apelos do governo fossem respeitados ("o governo comanda, a Frente Popular obedece"), os militares assumiram o controle e uma repressão sangrenta se seguia.


"A luta armada na frente imperialista é o túmulo do proletariado" (Bilan n°34)


Entretanto, a ilusão da "revolução espanhola" foi reforçada pelo suposto desaparecimento do Estado capitalista republicano e pela inexistência da burguesia, todos eles escondidos atrás do pseudo-"governo dos trabalhadores" e ainda mais outras organizações de esquerda como o "Comitê Central das Milícias Antifascistas" ou o "Conselho Central da Economia" que mantiveram a ilusão do duplo poder. Em nome desta "mudança revolucionária", tão facilmente conquistada, a burguesia exigiu e obteve dos trabalhadores a unidade nacional, com o único objetivo de derrotar Franco. Entretanto, "A alternativa não é entre Azaña e Franco, mas entre a burguesia e o proletariado; qualquer um dos dois parceiros que for vencido, o verdadeiro perdedor será o proletariado que pagará o preço de uma vitória de Azaña ou Franco" (Bilan n°33, julho-agosto de 1936).

Rapidamente, o governo republicano da Frente Popular, com a ajuda do CNT e do POUM, transformou a reação dos trabalhadores ao golpe de Estado franquista em uma luta antifascista e manobrou para substituir a batalha social, econômica e política contra todas as forças da burguesia por um confronto militar nas trincheiras apenas contra Franco, enquanto os trabalhadores podiam pegar armas apenas para serem mortos na frente militar da "guerra civil", longe de seu terreno de classe. "Poderíamos supor que o armamento dos trabalhadores tinha uma virtude congênita do ponto de vista político e que, uma vez armados materialmente, os trabalhadores podiam se livrar de seus líderes traiçoeiros e dar a sua luta uma forma superior. Nada poderia estar mais longe da verdade. Os trabalhadores que a Frente Popular consegue incorporar à burguesia, já que lutam sob a liderança e pela vitória de uma fração burguesa, são assim impedidos até mesmo de evoluir para posições de classe" (Bilan n°33, julho-agosto de 1936).

Além disso, não havia nada de "civil" nesta guerra. Ela rapidamente se tornou um conflito puramente interimperialista e um prelúdio para a Segunda Guerra Mundial, conforme as democracias e a Rússia tomaram o lado dos republicanos enquanto a Itália e a Alemanha tomaram o lado dos falangistas. "As fronteiras de classe, que por si só poderiam ter desmantelado os regimentos de Franco e renovado a confiança dos camponeses aterrorizados pela direita, foram substituídas por outras fronteiras especificamente capitalistas. A unidade nacional foi alcançada para a matança imperialista, região contra região, cidade contra cidade na Espanha e, por extensão, Estado contra Estado nos dois blocos democrático e fascista. Se a guerra mundial já começou ou não, a mobilização do proletariado espanhol e internacional está agora pronta para a matança mútua sob a bandeira imperialista do fascismo e do antifascismo" (Bilan n°34, agosto-setembro de 1936).


As ilusões de uma "revolução social"


A guerra na Espanha ainda desenvolveu outro mito. Ao substituir a guerra entre "democracia" e "fascismo" pela guerra de classes do proletariado contra o capitalismo, a Frente Popular desfigurou o próprio conteúdo da revolução: seu objetivo central não é mais a destruição do estado burguês através da tomada do poder político pelo proletariado, mas as supostas medidas de socialização e gestão dos trabalhadores nas fábricas. São sobretudo os anarquistas e certas tendências que se identificam com o conselhismo que exaltaram este mito, chegando ao ponto de afirmar que nesta Espanha republicana, antifascista e estalinista, a conquista de posições socialistas foi muito mais longe do que foi possível na revolução de outubro na Rússia.

Sem desenvolver esta questão aqui, deve-se dizer que estas medidas, mesmo que tivessem sido mais radicais do que foram na realidade, não teriam mudado nada da natureza fundamentalmente contrarrevolucionária dos acontecimentos na Espanha. Tanto para a burguesia quanto para o proletariado, o ponto central da revolução não pode ser outra coisa senão a destruição ou a preservação do Estado capitalista.

O capitalismo não só pode tolerar perfeitamente, temporariamente, medidas de autogestão ou a chamada socialização da terra (a criação de cooperativas), enquanto espera a oportunidade de restaurar a ordem na hora certa, mas pode até mesmo encorajá-las como meio de mistificação, canalizando a energia do proletariado em conquistas ilusórias e longe do objetivo central que está em jogo na revolução: a destruição do poder capitalista e seu estado.

A exaltação das chamadas medidas sociais como ponto alto da revolução nada mais é do que radicalismo verbal, o que afasta o proletariado de sua luta revolucionária contra o Estado e camufla sua mobilização como carne de canhão a serviço da burguesia. Tendo abandonado seu terreno de classe, o proletariado não só seria alistado nas milícias anarquistas e POUMistas antifascistas e enviado para o massacre no fronte, como também seria submetido a uma exploração cada vez mais brutal e a cada vez mais sacrifícios em nome da produção bélica e da economia bélica antifascista: reduções salariais, inflação, racionamento, militarização do trabalho e prolongamento da jornada de trabalho. E quando o proletariado se levantou em desespero, em Barcelona em maio de 1937, a Frente Popular com o Generalitat de Barcelona, e com a participação ativa dos anarquistas, reprimiu abertamente a classe trabalhadora da cidade, enquanto os franquistas interromperam as hostilidades até que a esquerda tivesse esmagado a revolta dos trabalhadores.

Dos socialdemocratas aos esquerdistas, e mesmo incluindo certas frações da direita, todos concordam que a ascensão da esquerda ao governo em 1936 na França e na Espanha (mas também, sem dúvida de maneira menos espetacular, em outros países como Suécia e Bélgica) foi uma grande vitória para a classe trabalhadora e um sinal de sua militância e força durante os anos 30. Contra estas manipulações ideológicas, os revolucionários de hoje, como seus antecessores de Bilan, devem afirmar alto e claro que as Frentes Populares e suas chamadas "revoluções sociais" não foram nada além de uma mistificação. A chegada da esquerda ao poder neste período, ao contrário, expressou a profundidade da derrota do proletariado mundial e tornou possível o alistamento da classe trabalhadora na França e na Espanha na guerra imperialista que a burguesia inteira preparava, alistando-os en masse sob as bandeiras da ideologia antifascista.

"E eu pensava, acima de tudo, que era uma grande conquista e um grande serviço aquele que eu havia prestado: ter conduzido estas massas e esta elite da classe trabalhadora de volta aos seus sentimentos de amor e dever para com a pátria" (declaração de Blum no julgamento do Riom).

Para a classe operária, 1936 marca um dos períodos mais sombrios da contrarrevolução, quando as piores derrotas da classe operária lhe foram apresentadas como vitórias; quando a burguesia podia, quase sem oposição, impor ao proletariado ainda cambaleante da derrota da onda revolucionária iniciada em 1917, sua própria "solução" para a crise: a guerra.

 

 

Jos

[1] Ver B Kermoal : “Colère ouvrière à la veille du Front populaire”, Le Monde Diplomatique June 2006. 

[2] Communist Party of the Soviet Union [Partido Comunista da União Soviética].

 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Resgate da memória histórica das lutas do proletariado no México (1907-1917)

Apresentação

Realizamos novamente a tradução de alguns números de Regeneración, escritos por Ricardo Flores Magón, bem como de um número de Revolución. Esse compilado foi realizado, novamente, com o objetivo de fazer conhecer mais a obra desse revolucionário. Porém, não o fazemos apenas porque era "anarquista", "comunista" ou mesmo "anarco-comunista", mas sim pela claridade geral expressa nos diversos textos selecionados para problemas que se expressam ainda hoje diante de nós. Reforçamos alguns trechos com o negrito (que não existia em nenhuma parte do texto original) e adicionamos notas através do símbolo [Nota AM (Nota Amanajé)].

Além disso, decidimos por não traduzir algumas notas que foram adicionadas ao texto original pela equipe do Archivo Magón. Fizemos assim pois pensamos que acabam sendo uma "descrição" excessiva, deixamos apenas aquelas que pensamos serem relevantes (as originais em sua completude podem ser verificadas nos links aos documentos originais). 

Por fim, usemos de sua experiência para guiar nossas tarefas.


* * *


Esclarecimentos

Ricardo nasceu em San Antonio Eloxochitlán, Oaxaca, México, em 16 de setembro de 1873. Em 1892, início de sua atividade política, é preso por participar de um movimento operário-estudantil contra a reeleição de Porfirio Díaz, que nesse ano já governava há 16, com uma mão de ferro, o México (direta ou indiretamente). A diretriz econômica de Díaz operava da seguinte maneira, de acordo com Diego Abad de Santillán:

"Porfirio Díaz gozava de certo prestígio no estrangeiro; a imprensa capitalista norte-americana contribuiu com sua fama, em troca dos monstruosos favores que concedeu à burguesia dos EUA; os capitalistas norte-americanos davam a Díaz e seus agentes ações nas companhias comerciais e industriais; Díaz pagava essas liberalidades com vergonhosas concessões e entregando terras e bem que não eram seus. Wall Street possuía cerca de novecentos milhões de dólares investidos no México [...]" (SANTILLÁN, 1925, p. 18.; tradução nossa.)

E assim também a explica Ricardo Flores Magón [RFM]:

"Díaz outorgou grandes concessões aos estrangeiros, especialmente aos americanos. Milhões de acres de terra foram cedidos a poderosas empresas americanas. Fez-se guerra com as tribos indígenas, para que desocupassem suas terras e depois entregaram as mesmas aos americanos; vilarejos inteiros foram encerrados nas cercas de arame das poderosas empresas americanas; os camponeses tiveram que abandonar suas cabanas e suas terras que possuíam desde tempos imemoriais, para deixá-las aos loiros favoritos do Ditador. 
 
O capital não tem coração. 

O sistema de concessões empregado por Porfirio Diaz para atrair as simpatias dos milionários americanos tornou-se uma verdadeira calamidade nacional. Há empresas como a Pearson & Son que receberam a concessão da exploração de fontes de petróleo e outras substâncias em uma extensão de terra mexicana que compreende um oitavo da extensão total do território nacional" (MAGÓN, 1911; tradução nossa).

A atividade de Ricardo não cessou, apesar da intensa repressão porfirista, com Regeneración ganhando vida pela primeira vez em 1900. Devido aos seus periódicos contestatórios do regime vigente, RFM foi preso diversas vezes nos anos seguintes. Em 1901, durante um de seus encarceramentos, seu irmão Enrique (1877-1954) verificou a presença de A Conquista do Pão em sua biblioteca, o que indica já o contato com o pensamento anarquista desde então (MAGÓN, 1925), que vai aumentar, em 1902, através do acesso às obras de Malatesta, Grave, entre outros. 

Contudo, mesmo em contato com as ideias anarquistas e professando-as como suas, os irmãos Flores Magón continuaram a adotar o termo "liberal". Isso pode ser explicado através do contexto mexicano, da escolha dos próprios editores e de uma falta de ruptura com elementos reformistas internos ao partido, conforme denota a explicação de Enrique:

"[Em 1902, na prisão,] Ricardo e eu falamos seriamente sobre a conveniência de propagar os ideais comunistas-anárquicos que já professávamos, concluindo que era inoportuno, dado o meio em que vivíamos, de uma tirania esmagadora, que não nos permitiria ir muito longe; e menos ainda quando no México havia um tremendo preconceito contra o anarquismo. Até mesmo o tépido socialismo de Estado semeava espanto na mente do povo. 
[...] 
Conhecedores do meio em que vivíamos e da psicologia, tradições, preconceitos, atavismos, etc., etc., do povo mexicano, e tendo em mente o antagonismo, ou melhor, o medo do povo naquele momento em relação as ideias avançadas, entendemos, é claro, o quanto teria sido imprudente declarar nossos postulados anarquistas; imprudência que teria resultado em nosso isolamento e em nosso trabalho reduzido a praticamente nada. [...]." (MAGÓN, 1925; tradução nossa.)

Conquanto seja possível fazer críticas a esse tipo de tática, como sua probabilidade de gerar confusão no seio das massas e do próprio partido (uma crítica aproximada já divulgada por nós aqui), é inegável que a repressão estatal de um lado - os escritos dos irmãos Flores Magón foram proibidos em 1903 no México, "sob pena de severas punições a quem os imprimisse e confisco de suas ferramentas" (MAGÓN, 1925; tradução nossa) - e a utilização do termo liberal para uma gama ampla de movimentos contestatórios de outro - "Todas as insatisfações com o despotismo porfirista e de seus lacaios se qualificavam imediatamente de liberais; sob essa denominação existiam no México diversas tendências [...] unidas passageiramente pela oposição à Díaz" (SANTILLÁN, 1925, p. 13; tradução nossa] - conseguem explicar sua adoção. Para mais, provou ser um procedimento certeiro quando emigraram para os EUA (após proibição de seus escritos), onde a perseguição aos anarquistas se encontrava forte após o assassinato do presidente William McKinley e a sanção da Immigration Act of 1903. 

Conforme demonstra Lopez (2022), isso não implicou um sacrifício na propaganda de ideais revolucionários que podem ser visto em continuidade desde 1907 até o período de real ruptura com o reformismo (entre 1910-1918) e afinal é isso que nos importa. Porém, como o Grupo Comunista Internacionalista também fala, é preciso reconhecer que houve realmente uma ruptura entre esses dois períodos:

"De fato, existe uma revolução conceitual teórico-prática [...] entre os primeiros escritos destes militantes antes de 1910 e a ruptura revolucionária que ocorrerá nesses anos, donde este núcleo deixa de ser a expressão mais à esquerda de um projeto reformista burguês radical para se afirmar como um núcleo revolucionário comunista em total oposição a todo reformismo burguês. Neste artigo de 1907 [NE: "Vamos em direção a vida"] é lógico, portanto, que ainda existem alguns elementos de não-ruptura, como por exemplo quando ele diz "nós somos a plebe que com Juárez[1] apoia a Reforma". Deve-se ressaltar, entretanto, que este mesmo processo de radicalização da "revolução burguesa" até a ruptura revolucionária total é comum a todas as frações de vanguarda do proletariado, desde os militantes agrupados em torno de Babeuf durante a "revolução francesa" até às seções mais radicais dos bolcheviques na Rússia, passando naturalmente pelo núcleo de militantes que, junto com Marx e Engels, passaram da "Liga dos Justos" e outras tentativas mais ou menos radicais à afirmação do programa revolucionário com base no Manifesto Comunista e nas sucessivas afirmações do comunismo nos anos posteriores" (Comunismo, 1997, p.24; tradução e notas nossas).

Como ressaltamos anteriormente, não traduzimos e difundimos seus textos por se dizerem "anarquistas", "comunistas" ou mesmo "anarco-comunistas" (coisa que faziam); da mesma forma, não os desqualificamos imediatamente por nomearem seu partido de "liberal". Antes, procuramos averiguar seus escritos e suas ações e encontramos uma enorme contundência na defesa de posições revolucionárias. Conforme demonstra López (2022), uma das principais características de Ricardo e de outros revolucionários no Partido Liberal Mexicano foi seu apelo constante à unidade internacional do proletariado, o chamado ao apoio internacional dos revolucionários à Revolução Mexicana e seu derrotismo (expresso em seu chamado ao derrotismo do proletariado norte-americano frente a possibilidade de invasão dos EUA no México, bem como mais tarde na Grande Guerra).

"Se tivéssemos nos chamado de anarquistas desde o início, ninguém, exceto alguns poucos, teria nos ouvido. Sem nos chamarmos de anarquistas, temos instilado nos cérebros ideias de ódio contra a classe possuidora e contra a casta governamental. Nenhum partido liberal no mundo tem as tendências anticapitalistas daquele que está prestes a revolucionar no México, e isso foi conquistado sem dizer que somos anarquistas, e não o teríamos conseguido mesmo que não nos tivéssemos chamado de anarquistas, como somos, mas simplesmente de socialistas. É, portanto, tudo uma questão de tática.
Devemos dar a terra ao povo durante a revolução; assim, os pobres não serão enganados depois" (MAGÓN, 1908; tradução nossa). 

 

* * *


Tabela de conteúdos:

  • Vamos em direção à vida;
  • Aos Proletários;
  • O Direito à rebelião;
  • Pregar a paz é um crime;
  • O problema da fome está resolvido?;
  • Os socialistas políticos;
  • Trabalhador.


* * *


Vamos em direção a vida (1907)

Nós revolucionários não buscamos uma quimera: buscamos a realidade. Os povos não se armam mais para impor um deus ou uma religião; os deuses apodrecem nos livros sagrados; as religiões enfraquecem nas sombras da indiferença. O Alcorão, os Vedas, a Bíblia, não brilham mais: em suas folhas amareladas os deuses agonizam, tristes como o sol num crepúsculo de inverno.

Vamos em direção à vida. Ontem o céu foi o objetivo dos povos: agora é a terra. Não há mais mãos para empunhar as lanças dos cavaleiros. A cimitarra de Alá está nas vitrines dos museus. As hordas do deus de Israel tornam-se ateias. O pó dos dogmas desaparece com o sopro dos anos.

Os povos não se rebelam mais por preferirem adorar um deus em vez de outro. As grandes convulsões sociais que tiveram sua gênese nas religiões ficaram petrificadas na história. A Revolução Francesa conquistou o direito de pensar; mas não conquistou o direito de viver, e os homens conscientes de todos os países e raças estão prontos para tomar esse direito.

Todos temos o direito de viver, dizem os pensadores, e esta doutrina humana chegou ao coração da gleba como um forte benfeitor. Viver, para o homem, não significa vegetar. Viver significa ser livre e feliz. Todos nós temos, portanto, direito à liberdade e à felicidade.

A desigualdade social morreu em teoria quando a metafísica morreu por causa da rebeldia do pensamento. Ela deve morrer na prática. É para este fim que todos os homens livres da terra estão dirigindo seus esforços.

É por isso que nós revolucionários não buscamos uma quimera. Não lutamos por abstrações, mas por materialidades. Queremos terra para todos, pão para todos, já que o sangue deve ser necessariamente derramado queremos que as conquistas obtidas beneficiem a todos e não uma determinada casta social.

É por isso que as multidões nos escutam; é por isso que nossa voz chega às massas, as balança e as desperta e, pobres como somos, podemos erguer um povo.

Nós somos a plebe; mas não a plebe dos faraós, murcha e doente; nem os plebeus dos Césares, abjetos e servis; nem a plebe que bate palmas ao passar Porfirio Díaz. Somos a plebe que se rebela contra o jugo; somos a plebe de Espártaco, a plebe que com Munzer[2] proclama a igualdade, a plebe que com Camilo Desmoulins destrói a Bastilha, a plebe que com Hidalgo ateia fogo a Granaditas, somos a plebe que com Juárez apoia a Reforma.

Somos os plebeus que despertam em meio à farra dos fartos e lançam aos quatro ventos como um trovão esta formidável frase: "Todos temos o direito de ser livres e felizes"! E o povo, que já não espera mais que a palavra de Deus gravada nas tábuas desça em algum Sinai, nos escuta. Sob os panos sujos ardem os corações dos fiéis. Nas pocilgas escuras, onde são amontoados e apodrecem aqueles que fabricam a felicidade dos de cima, entra um raio de esperança. Nos sulcos, o peão pensa. No ventre da terra, o mineiro repete a frase para seus companheiros de correntes. Em todos os lugares você ouve o suspiro ansioso daqueles que estão prestes a se rebelar. Na escuridão, mil mãos nervosas acariciam a arma e mil seios impacientes pensam durar séculos os dias que restam antes que este grito de homens seja ouvido: rebelião!

O medo foge do peito: somente os vis o guardam. O medo é um fardo pesado do qual os corajosos se despem, envergonhados de serem animais de carga. Os fardos forçam curvar-se, e os corajosos querem andar em pé. Se algum peso deve ser suportado, que seja um peso digno de titãs; que seja o peso do mundo ou de um universo de responsabilidades.

A submissão! é o grito dos vis; a rebelião! é o grito dos homens. Luzbel [Lúcifer], rebelde, é mais digno do que o lacaio Gabriel, submisso.

Abençoados são os corações onde o protesto se enraíza; indisciplina e rebelião!, lindas flores que não foram devidamente cultivadas.

Os timoratos ficam pálidos de medo e os homens "sérios" ficam chocados ao ouvir nossas palavras; os timoratos e os homens "sérios" de amanhã vão aplaudi-las. Os timoratos e os "sérios" de hoje, que adoram a Cristo, foram os mesmos que ontem o condenaram e crucificaram como um rebelde. Aqueles que hoje erguem estátuas para os gênio, foram aqueles que ontem os perseguiram, os acorrentaram ou os atiraram na fogueira. Aqueles que torturaram Galileu e exigiram sua retratação, hoje o glorificam; aqueles que queimaram vivo Giordano Bruno, hoje o admiram; as mãos que puxaram a corda que enforcou John Brown[3], o generoso defensor dos negros, foram as mesmas mãos que mais tarde quebraram as correntes da escravidão para a guerra de secessão; aqueles que ontem condenaram, excomungaram e degradaram Hidalgo, hoje o veneram; as mãos trêmulas que levaram a cicuta aos lábios de Sócrates, hoje escrevem apologias lacrimosas por este titã do pensamento.

"Todo homem", diz Carlos Malato, "é ao mesmo tempo reacionário de outro homem e revolucionário de outro homem".

Para os reacionários - homens "sérios" de hoje - somos revolucionários; para os revolucionários de amanhã nossas ações terão sido as dos homens "sérios". As ideias da humanidade variam sempre na direção do progresso, e é absurdo fingir que elas são imutáveis como as figuras de plantas e animais impressas nas camadas geológicas.

Mas se os timoratos e os homens "sérios" ficam pálidos de medo e chocados com nossa doutrina, a gleba é encorajada. Os rostos que a miséria e a dor tornaram feios, são transfigurados; as lágrimas não correm mais pelas faces tostadas; os rostos são humanizados, melhor ainda, são divinizados, animados pelo fogo sagrado da rebelião. Que escultor já esculpiu um herói feio? Que pintor já deixou na tela a figura deformada de um herói? Há uma luz misteriosa que envolve os heróis e os torna deslumbrantes. Hidalgo, Juárez, Morelos, Zaragoza, eles deslumbram como sóis. Os gregos colocavam seus heróis entre os semideuses.

Vamos em direção à vida; é por isso que a gleba se encoraja, é por isso que o gigante despertou e é por isso que os bravos não voltam atrás. De seu Olimpo, construído sobre as pedras de Chapultepec, um Júpiter de zarzuela coloca preço nas cabeças daqueles que lutam; suas velhas mãos assinam sentenças de canibais; seus cabelos grisalhos desonrados enrolam-se como os pelos de um lobo atacado de raiva. Desonra da velhice, este velho perverso se agarra à vida com o desespero de um náufrago. Ele tirou a vida de milhares de homens e combate com unhas e dentes a morte para não perder a sua.

Não importa; nós revolucionários seguimos em frente. O abismo não nos detém: a água fica mais bonita quando despenca.

Se morrermos, morreremos como sóis: emitindo luz.


Revolución, n. 10, 3 de agosto de 1907


* * *


Aos proletários (1910)

Trabalhadores, escutem: muito em breve a paz infame que nós mexicanos sofremos há mais de trinta anos será quebrada. A calma do momento contém em potência a insurreição do amanhã. A revolução é a consequência lógica dos mil fatos que constituíram o despotismo que agora vemos em agonia. Ela deve vir infalivelmente, fatalmente, com a pontualidade com que o sol aparece novamente para dissipar a angústia da noite. E são vocês, trabalhadores, que serão a força desta revolução. Serão seus braços que empunharão a arma reivindicadora. Teu será o sangue que tingirá o solo pátrio, como flores vermelhas de fogo. Se alguns olhos vão chorar seu luto e sua viuvez, serão os de suas mães, suas esposas, suas filhas. Vós, então, sereis heróis; sereis a espinha dorsal daquele gigante de mil cabeças chamado insurreição; sereis o músculo da vontade nacional transformada em força.

A revolução deve acontecer irrevogavelmente e, o que é melhor ainda, deve triunfar, ou seja, deve chegar com sangue e fogo à toca onde os chacais que os devoraram nesta longa noite de trinta e quatro anos estão celebrando sua última festa. Mas isso é tudo? Não parece absurdo se sacrificar pelo mero capricho de mudar de amos?

Trabalhadores, meus amigos, escutem: é necessário, é urgente que vocês tragam para revolução que se aproxima a consciência da época; é necessário, é urgente que vocês encarnem na grande luta o espírito do século. Caso contrário, a revolução que assistimos com carinho desdobrar-se não será nada diferente das revoltas quase esquecidas fomentadas pela burguesia e lideradas pelo caudilho militar, nas quais vocês não desempenharam o papel heroico de promotores conscientes, mas sim o papel nada belo de carne de canhão. Saibam isto de uma vez por todas: derramar sangue para levar ao Poder outro bandido para oprimir o povo é um crime, e isso é o que acontecerá se pegarem em armas sem outro objetivo além de derrubar Díaz e colocar em seu lugar um novo governante.

A longa opressão que o povo mexicano sofreu e o desespero que tomou conta de todos como resultado dessa fomentaram na entristecida alma do povo uma única ambição: a de uma mudança nos homens do Governo. Já não se suporta os atuais; são odiados com toda a força de um ódio há tanto tempo comprimido, e a ideia fixa de uma mudança de governantes fez diminuir os ideais; os princípios de salvação foram subordinados ao único desejo de uma mudança na administração pública. Um triste exemplo da veracidade disso pode ser visto no insano entusiasmo, na alegria absurda, com que foi recebida a candidatura de um dos funcionários mais perversos, de um dos verdugos mais cruéis que a nação mexicana já teve: a candidatura de Bernardo Reyes.

Quando essa candidatura foi lançada, o povo mexicano não refletiu sobre a personalidade do candidato. O interessante nele, para o povo, era a mudança. O desespero popular parecia ter se cristalizado nestas palavras: qualquer um, menos Díaz, e como alguém prestes a rolar para um abismo, agarrou a candidatura Reyes como última esperança. Felizmente, se Reyes é ambicioso, ele é ao mesmo tempo covarde o suficiente para fazer frente a Díaz e lutar contra ele. Essa covardia salvou o povo mexicano de sofrer uma tirania mais cruel, uma opressão mais selvagem, se possível, do que a que ele agora lamenta.

A fim de evitar tais infelizes desvios de direção, é necessário refletir. A revolução é iminente: nem o governo nem os oposicionistas serão capazes de detê-la. Um corpo cai sob seu próprio peso, obedecendo às leis da gravidade; uma sociedade revoluciona, obedecendo a leis sociológicas incontestáveis. Pretender opor-se ao estouro da revolução é uma loucura que só pode ser realizada pelo pequeno grupo de interessados em impedir que isso aconteça. E como a revolução deve irromper, sem que ninguém ou qualquer outra coisa a possa conter, é bom, trabalhadores, que vocês retirem deste grande movimento popular todas as vantagens que ele traz em seu seio e que seriam para a burguesia, se, sem conhecer seus direitos como classe produtora da riqueza social, aparecessem na luta simplesmente como uma máquina para matar e destruir, mas sem levar em seus cérebros a ideia clara e precisa de sua emancipação e engrandecimento social.

Tenham em mente, trabalhadores, que vós sois os únicos produtores de riqueza. Casas, palácios, ferrovias, navios, fábricas, campos cultivados, tudo, absolutamente tudo é feito por suas mãos criadoras, e ainda assim lhes falta tudo. Teceis o pano, e andais quase nu; colheis o grão, e apenas tendes uma misera migalha para levar para casa; construís casas e palácios, e habitais em barracas e sótãos; os metais que arrancais da terra servem apenas para tornar seus amos mais poderosos, e, portanto, sua corrente mais pesada e mais dura. Quanto mais produzis, mais pobres e menos livres sois, pela simples razão de que tornais seus mestres mais ricos e mais livres, porque a liberdade política só beneficia os ricos. Portanto, se vais à revolução com o propósito de derrubar o despotismo de Porfirio Díaz, o que sem dúvida alcançareis, pois o triunfo é certo, se tudo for bem após o triunfo, obtereis um governo que porá em vigor a Constituição de 1857, e, com isso, tereis adquirido, pelo menos por escrito, sua liberdade política; mas na prática continuareis sendo tão escravos quanto hoje, e como hoje tereis apenas um direito: o de transbordar de miséria.

A liberdade política exige a coexistência de outra liberdade para ser efetiva: essa liberdade é a econômica. Os ricos gozam de liberdade econômica e é por isso que são os únicos que se beneficiam da liberdade política.

Quando a Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano[4] formulou o Programa promulgado em St. Louis, Mo., em 1º de julho de 1906[5], teve a convicção, convicção que ainda tem, convicção muito firme que preza carinhosamente, de que a liberdade política deve ser acompanhada de liberdade econômica para ser efetiva. É por isso que o Programa estabelece os meios a serem empregados para que o proletariado mexicano possa conquistar sua independência econômica.

Se vocês não trouxerem para a próxima luta a convicção de que são os produtores da riqueza social e que só por esse fato têm o direito não apenas de viver, mas de desfrutar de todo o conforto material e de todos os benefícios morais e intelectuais que seus mestres agora aproveitam exclusivamente, vocês não farão um trabalho revolucionário como sentem seus irmãos nos países mais instruídos. Se não estiverem conscientes de seus direitos como classe produtora, a burguesia aproveitará seu sacrifício, seu sangue e a dor de seu povo, assim como hoje se aproveita de seu trabalho, sua saúde e seu futuro na fábrica, nos campos, na oficina, na mina.

Portanto, trabalhadores, vocês devem perceber que têm mais direitos do que aqueles concedidos pela Constituição de 1857 e, sobretudo, devem estar convencidos de que, pelo simples fato de viver e de fazer parte da humanidade, têm o direito inalienável à felicidade. A felicidade não é patrimônio exclusivo de seus senhores e mestres, mas seu também, e com mais razão de sua parte, pois são vocês que produzem tudo o que torna a vida agradável e confortável.

Agora só me resta exortar vocês a não desanimarem. Vejo em vocês o firme propósito de lançarem-se na revolução para derrubar o mais vergonhoso, o mais odioso despotismo que acometeu a raça mexicana: o de Porfirio Díaz. Sua atitude merece o aplauso de todo homem honesto; mas repito, leve em combate a consciência de que a revolução é feita por vocês, que o movimento é sustentado por seu sangue e que os frutos dessa luta serão seus e de suas famílias, se vocês sustentarem com a firmeza que vem da convicção seu direito de desfrutar de todos os benefícios da civilização.

Proletários: tenham em mente que vocês serão o nervo da revolução; vão a ela, não como gado sendo levado ao abate, mas como homens conscientes de todos os seus direitos. Vão à luta, bata, resolutamente às portas da epopeia; a glória aguarda-os, impaciente por ainda não ter quebrado suas correntes nos crânios de seus verdugos.


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 1, 3 de setembro de 1910.


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O Direito à Rebelião (1910)

Do alto de sua rocha, o Velho Abutre espreita. Uma clareza perturbadora começa a dissipar as sombras que o crime lançou no horizonte, e na lividez da paisagem a silhueta de um gigante avançando parece ser descoberta: é a Insurreição.

O Velho Abutre mergulha no abismo de sua consciência, vasculha nas lamas do submundo; mas não encontra nada naquela escuridão que explique a razão da rebelião. Então ele se volta para suas memórias; homens, coisas, datas e circunstâncias passam por sua mente como um desfile dantesco: os mártires de Veracruz passam,[6] pálidos, mostrando as feridas em seus corpos recebidas uma noite, à luz de uma lanterna, no pátio de um quartel, por soldados bêbados comandados por um chefe também embriagado de vinho e medo; passam os trabalhadores de El Republicano[7], lívidos, suas humildes roupas e carnes rasgadas pelos sabres e baionetas dos capangas; passam as famílias de Papantla[8], idosos, mulheres, crianças, crivados de balas; passaam os trabalhadores de Cananea, sublimes em seu sacrifício, gotejando sangue[9]; passam os trabalhadores de Río Blanco, magníficos, mostrando as feridas denunciantes do crime oficial[10]; passam os mártires de Juchitán[11], de Velardeña[12], de Monterrey[13], de Acayucan[14], de Tomóchic[15]; passam Ordóñez, Olmos y Contreras, Rivero Echegaray, Martínez, Valadés, Martínez Carrión; Ramírez Terrón, García de la Cadena, Ramón Corona; Ramírez Bonilla, Albertos, Kankum, Leyva e Lugo: passam legiões de espectros, legiões de viúvas, legiões de órfãos, legiões de prisioneiros, e todo o povo passa, nu, anêmico, fraco pela ignorância e fome.

O Velho Abutre alisa com raiva as penas alvoroçadas pelo turbilhão de memórias, sem encontrar nelas a razão da Revolução. Sua consciência de ave de rapina justifica a morte. Existem cadáveres? A vida está assegurada.

É assim que vivem as classes dominantes: do sofrimento e da morte das classes dominadas, e ricos e pobres, oprimidos e déspotas, em virtude dos costumes e preocupações herdadas, consideram este absurdo estado de coisas como natural.

Mas um dia, um dos escravos pega um jornal e o lê: é um jornal libertário. Nele ele vê como o homem rico abusa dos pobres sem outro direito que o de força e astúcia; nele vê como o governo abusa do povo sem outro direito que o de força. O escravo então pensa e acaba concluindo que, hoje como no passado, a força é soberana e, de acordo com seu pensamento, se torna um rebelde. A força não é dominada pela razão: a força é dominada pela força.

O direito à rebelião penetra nas consciências, o descontentamento cresce, o mal-estar torna-se insuportável, o protesto finalmente irrompe e a atmosfera é excitada. Respira-se uma atmosfera forte pelo efluente de rebelião que a satura e o horizonte começa a clarear. Do alto de sua rocha, o Velho Abutre espreita. Das planícies não se elevam murmúrios de queixas, suspiros ou prantos: é um rugido que pode ser ouvido. Ele olha para baixo e estremece: não observa um único dorso: é que o povo se pôs de pé.

Abençoado é o momento em que um povo se levanta. Não é mais o rebanho de costas bronzeadas, não mais a sórdida multidão dos resignados e dos submissos, mas o hoste dos rebeldes que se lançou à conquista da terra enobrecida porque finalmente é pisada por homens.

O direito à rebelião é sagrado porque seu exercício é indispensável para romper os obstáculos que se opõem ao direito de viver. Rebeldia, grita a borboleta ao romper o casulo que a aprisiona; rebeldia, grita o rebento quando rasga a casca dura que o interrompe; rebeldia, grita o grão no sulco quando fende a terra para receber os raios do Sol; rebeldia, grita o terno ser humano quando rasga as entranhas maternas; rebeldia, grita o povo quando se levanta para esmagar tiranos e exploradores.

Rebeldia é a vida; a submissão é a morte. Há rebeldes em um povo? A vida está assegurada, assim como a arte, a ciência e a indústria. Da Prometeu à Kropotkin, os rebeldes têm feito avançar a humanidade.

A rebeldia é o direito supremo nos momentos cruciais. Sem ela, a humanidade ainda estaria perdida naquele crepúsculo distante que a História chama de Idade da Pedra; sem ela, a inteligência humana há muito teria naufragado no lodaçal dos dogmas; sem ela, os povos ainda estariam vivendo ajoelhados diante dos príncipes do direito divino; sem ela, esta bela América continuaria dormindo sob a proteção do misterioso oceano; sem ela, os homens ainda veriam delinear-se os duros contornos daquela afronta humana que chamada Bastilha.

E o Velho Abutre espreita do topo de sua rocha, fixa seu olho sanguinolento no gigante que avança, ainda desconhecendo o motivo da insurreição. O direito à rebelião não é compreendido pelos tiranos.


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 2, 10 de setembro de 1910.


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Pregar a paz é um crime (1910)

Trêmulo e pálido, olhar inquieto, boca suspensa, um homem abre caminho através da multidão, e tropeçando, arrastando seus pés tal como feitos de chumbo, sobe à tribuna: é o Medo que vai falar. A filosofia das bestas do estábulo é a que ele prega. "A paz é boa, diz; a paz é um grande bem. A vida é doce e gentil, continua; cuidemos, portanto, da vida".

Momentos antes, altivos tribunos haviam sacudido aquela multidão, e o heroísmo, a audácia e ousadia rebelde haviam sacudido aquelas almas, almas proletárias, espíritos taciturnos de derrotas seculares que, ao grito de rebeldia, haviam sentido erguer-se dos recantos mais escondidos de seu ser o anseio dos heróis, a bravura dos corajosos. Um grito a mais, e aqueles escravos teriam se livrado com raiva deste fardo que os curva e os domina mais efetivamente do que a prisão e o cadafalso: o respeito por aqueles de cima. Mas o medo se eleva e fala; suas palavras passam sobre aquelas cabeças como um sopro de inverno; e o entusiasmo morre, o anseio ardente é anestesiado, e aqueles seres humanos, que poderiam ter alcançado o limiar do heroísmo e estavam prestes a passar por seus portões, abrem os olhos espantados e voltam a cair, degradados e submissos, aos pés de seus verdugos, repetindo as malditas palavras: "A paz é boa; a paz é um grande bem".

Esta é a história de todos os esforços humanos em direção à liberdade e felicidade. Com o risco de sua vida e bem-estar, o apóstolo fala. Os escravos se endireitam e escutam. As vívidas palavras do apóstolo caem sobre as almas entristecidas pela dor secular como um bálsamo benfeitor. É um consolo saber que todos nós, pelo simples fato de termos nascido, temos o direito de viver e de ser felizes. Não somos felizes? É porque há alguém que coloca obstáculos no caminho do livre desfrute da felicidade. E assim o apóstolo fala do amo, do frade, do soldado e do governante. Esses pesam sobre os proletários desde que o primeiro ladrão apareceu e disse: "este pedaço de terra é meu", e desde então eles moldaram a inteligência humana à sua vontade, alguns deles amedrontando-a com o medo do inferno, outros aterrorizando-a com o calabouço e a morte. Disso deriva o respeito religioso pelos de cima; respeito pelo frade que embrutece; respeito pelo soldado que assassina; respeito pelo governante que oprime; respeito pelo amo que vive do trabalho dos párias, e este respeito prescrito pelas leis, tão admiravelmente arranjadas que delas só se beneficiam os de cima e se prejudicam os de baixo, oprime a humanidade, torna-a escrava, torna-a miserável porque lhe tira o direito ao livre exame, rouba a prerrogativa de desfrutar de todos os bens com os quais a Natureza nos presenteia, nos tenta com a civilização e torna o homem incapaz de levantar os olhos e de olhar seus opressores cara a cara.

Contra este respeito fala o apóstolo, e suas palavras são injeções de orgulho santo que energizam as multidões. O desejo de ser livre toma conta de todos e o espírito de justiça imortal parece finalmente decidir enraizar-se no coração do homem. Mas o Medo vem e fala; os corações são tomados de terror; os braços mais firmes deixam cair com desânimo as armas libertárias, e dos lábios vis uma a uma as palavras odiosas irrompem: a vida é doce e amável; cuidemos, portanto, da vida.

Bem: pregar a Paz é um crime. Pregar a paz quando o tirano nos desonra impondo sua vontade a nós; quando os ricos nos extorquem até nos converter em seus escravos; quando o governo, a burguesia e o clero matam toda aspiração e toda esperança; pregar a Paz em tais circunstâncias é covarde, é vil, é criminoso. A paz em correntes é uma afronta a ser rejeitada. Há paz no ergástulo, há paz no cemitério, há paz no convento; mas essa paz não é vida; essa paz não enaltece; essa é a paz de Porfirio Díaz, a paz em que o eunuco prospera e se prostitui o cidadão; a paz dos faraós, a paz dos czares, a paz dos césares, a paz dos sátrapas do Oriente. Maldita seja uma paz assim.

Contra tal paz, devemos nos revoltar todos que ainda andamos em pé. A morte em meio à Revolução é mais doce do que a vida em meio à opressão. Liberdade ou morte, deve ser esse nosso grito, e sob seu encanto nos levantemos todos para esmagar, primeiro os covardes que pregam a paz, depois os tiranos.

Primeiro os covardes, pois eles são o suporte mais seguro de todo despotismo e os inimigos mais perigosos de todo progresso. Blasfêmia, gritam os covardes. Sim, abençoada blasfêmia, responde o revolucionário; blasfêmia criadora; blasfêmia vidente; blasfêmia sábia; blasfêmia justa. A blasfêmia colocou suas mãos sobre os altares e tronos da terra e os despedaçou; a blasfêmia subiu ao céu onde outra corte, a celestial, reinava, e a despedaçou com a razão, deixando em seu lugar magníficos sóis cuja composição química nos deu a conhecer; a blasfêmia quebrou o freio com o qual a ignorância manteve a terra fixada a um ponto no espaço e a fez rodar em sua gloriosa elipse ao redor do Sol; a blasfêmia arrancou o relâmpago das mãos de Júpiter e o reduziu à prisão na garrafa de Leyden, e incansável e ousada a blasfêmia, após ter alcançado o céu e derrubado deuses, depois de ter acorrentado as forças cegas da natureza, depois de ter descoberto a farsa do direito divino dos chamados senhores da Terra, depois de ter procurado os mares até encontrar o protoplasma, ou seja, a menor raiz da árvore zoológica cujo fruto mais belo é o homem, se levanta serena, com a augusta serenidade da Ciência, para perguntar ao Capital esta simples pergunta: por que reinas?

Trabalhadores da Revolução: cultivem a irreverência.


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 3, 17 de setembro de 1910.


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O problema da fome está resolvido? (1911)

Todos devem consultar sua consciência e responder a esta simples pergunta: o problema da fome está resolvido?

Vão responder-me: "Não, o terrível problema continua", e eu acrescento: "É por isso que a Revolução também continua".

Senhores burgueses: a época das revoluções políticas chegou ao fim. Ignorantes com respeito ao quanto sofre o que vocês desdenhosamente chamam de "classe baixa"; ignorantes do inferno em que vive o que vocês tão repugnantemente chamam de "plebe", vocês se lançaram em um empreendimento que agora lamentam ter fomentado.

Acreditando que o povo mexicano de nossos dias é o mesmo povo mexicano de cinquenta anos atrás, ocorreu-lhes fazer uso dele para derrubar Díaz, e com ele o círculo de vampiros chamado Partido Científico, para tomar o lugar dos "científicos" e fazer o mesmo que eles fizeram: monopolizar todos os grandes negócios, comprometer o país com novas dívidas, entregar a riqueza do país a milionários de todas as nacionalidades, submeter os trabalhadores, a ferro e fogo, a aceitar salários de fome, a trabalhar como bestas de carga, a sofrer todas as humilhações, todos os ultrajes, todo o desprezo com que os amos e os capatazes recompensam o sacrifício dos pobres.

Os trabalhadores ajudaram-nos na crença de que seu movimento deveria beneficiá-los, e agora que veem que eles estão em pior situação do que antes do início da campanha; agora que eles percebem que a Autoridade pesa tanto quanto antes; agora que eles veem que o Capital os explora da mesma forma que os explorou sob a ditadura de Porfirio Diaz; agora que eles tiveram uma lição prática da ditadura de Porfirio Diaz; agora que tiveram a lição prática de que os trabalhadores nada ganham com o simples fato de que alguns perversos são derrubados do poder para que outros perversos possam subir, os quais, por estarem com mais fome do que os primeiros, estão ansiosos para encher rapidamente a barriga às custas da ruína de um povo inteiro; agora, em vista de tudo isso, o que você desdenhosamente chama de "plebe", o que você repugnantemente chama de "classe baixa" se agita, desperta e, sem precisar ter tido "organizadores", sem precisar ter lido Marx ou Kropotkin, sem precisar esperar "estarem educados", sem precisar saber ler e escrever, sem precisar dos conselhos egoístas dos falsos amigos da classe trabalhadora que tentam desviar a luta de classe com as frases dos covardes "ainda não é tempo", "é necessária primeiro a organização", "o povo mexicano é analfabeto" e outras do mesmo calibre; agora, a plebe, a classe baixa do México, se levanta imponente e reivindica o direito de sentar ao seu lado, senhores burgueses, para desfrutar também do grande banquete da vida.

Todo o Estado de San Luis Potosí está em guerra industrial e, por contágio, a guerra industrial invade os Estados de Zacatecas, Durango, Chihuahua, Guanajuato, Guerrero, Oaxaca, Veracruz, Puebla, a própria Cidade do México e as cidades do Distrito, assim como os Estados de Tlaxcala e Coahuila. Yucatan está queimando, mas não nas chamas da revolta política, mas nas chamas purificadoras da revolução social.

A própria imprensa burguesa, atônita, começa a repudiar a revolta política que provocou a revolução econômica.

E tudo isso está acontecendo apesar do fato de que os mexicanos "ignorantes" não sabem sobre greves gerais, nem estudaram Marx ou Kropotkin; isso está acontecendo sem a "preparação habitual" da qual os covardes e os malvados falam.

Não se pode negar que as centenas de greves que estão acontecendo atualmente em quase todo o México são de um caráter claramente revolucionário, pois os camaradas grevistas não se contentam em exigir e se submeter às recusas de seus carrascos, a burguesia, mas sim respondem à recusa com a destruição de plantações, casas, haciendas[16], com o desmoronamento das minas, com a destruição dos lugares de exploração e de tirania capitalista, e enfrentam, armados com pedras, lanças e tudo mais que puderem, os cossacos de Madero, o assassino do proletariado mexicano.

Foram necessários séculos de preparação, educação, organização e todas as outras bagatelas recomendadas pelos políticos para realizar este formidável movimento econômico que neste momento está fazendo tremer a burguesia mexicana? Não; foi o instinto de preservação da espécie que erigiu os deserdados do México; foi a fome que fez o leão, que parecia estar dormindo, se levantar.

Que fiquem vermelhos de vergonha os rostos dos políticos adormecidos que, quando ouvem falar de revolução social no México, balançam as cabeças exaustas pelo vinho e pela boa comida, e dizem como Debs e Berger: "Não há revolução econômica no México, nem haverá até que a classe trabalhadora esteja organizada e educada", "abandonemos esses liberais, que não são nada além de bandidos".

Maldição para todos aqueles que neste momento solene da história da humanidade deixam perecer aqueles que lutam pela emancipação econômica do proletariado! Maldição para aqueles que, chamando-se leaders da classe trabalhadora, abandonam aqueles que estão dando ao mundo um exemplo de virilidade que deveria ser recebido com simpatia, se não com aplausos entusiastas, por todos os trabalhadores conscientes do mundo! Maldição para aqueles que estão tentando desvirtuar o movimento do Partido Liberal Mexicano!

Mexicanos: qualquer que seja o destino do Partido Liberal Mexicano, continuem a luta por conta própria. Aqueles que ainda não entraram em greve, que o façam prontamente, a fim de esmagar o Capital o mais rápido possível. Mas não se limitem a destruir os negócios. Façam isso quando verificarem que por falta de armas não se pode sustentar a expropriação. Em qualquer caso, a primeira coisa que deve ser feita é a tomada de posse da fábrica, da oficina, da mina, do campo e o trabalho por conta própria, repartindo os produtos de acordo com as necessidades de cada um. Mas se você não tiver forças para sustentar a expropriação, então a destrua, mesmo que os céus caiam sobre você e sobre nós.

Morte aos ricos! Morte à tirania! Viva Terra e Liberdade!


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 45, 8 de julho de 1911.


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Os Socialistas Políticos (1912)

Os impostores lhes falam da "necessidade" dos trabalhadores terem representação nas câmaras legislativas, e lhes dizem precisamente neste momento em que os camponeses, com armas em mãos, estão tomando posse da terra; quando os trabalhadores, desapontados com as greves, estão se unindo às forças rebeldes para conquistar sua liberdade econômica; quando os nossos colocam nas mãos dos pobres as provisões armazenadas nas grandes haciendas do Distrito de Río Grande, Estado de Coahuila, e convidam os habitantes dessa vasta região a tomar posse da terra e dos instrumentos de trabalho, ou então invadem as propriedades senhoriais dos latifundiários de Durango e as grandes plantações dos tirânicos exploradores de Comarca Lagunera; quando em toda a extensão do solo mexicano, de mar a mar e de fronteira a fronteira, este grito formidável é ouvido: abaixo a fome!, e este outro: expropriar!

Admirável momento escolhem os enganadores do proletários para pregarem ações políticas aos trabalhadores! Recebemos alguns artigos de jornal da Cidade do México, que vieram à luz sob o pretexto de defender os interesses da classe trabalhadora, sendo o mais estranho na questão o fato de não dizerem sequer uma palavra sobre a guerra de classes que está sendo travada na República Mexicana. Pelo contrário, fingindo ignorá-la porque isso convém aos interesses pessoais de seus editores, que veem com terror que o proletariado mexicano escolheu a violência como um meio de arrancar das mãos da burguesia a riqueza social que possui, tentam adormecer a poderosa energia revolucionária da qual o proletariado está dando boas provas, a fim de transformá-lo em rebanho eleitoral....

Um destes pequenos jornais diz:

"Neste momento nossa burguesia está rindo e zombando do nosso Partido [o chamado Partido Socialista do México].[17] A burguesia alemã também estava rindo há alguns anos, e hoje quando viram como QUATRO MILHÕES de cidadãos socialistas enviaram 110 representantes ao Parlamento, incluindo um do distrito onde vive o Imperador, eles não riem mais, mas se olham angustiados. O que acontecerá nas próximas eleições? Talvez a Revolução Social."

Como se pode ver, o jornalzinho ao qual tenho me referido considera o partido socialista alemão como um partido que pode fazer nada mais nada menos que a Revolução Social, quando na realidade esse partido é reconhecido em todo o mundo inteligente como um partido conservador como qualquer outro partido burguês, e tão inofensivo para a classe capitalista que abundam os ricos encontrados nele. Quanto ao outro pequeno jornal, tem conselhos como este: 

"Se, devido à má fé de alguns industriais e gerentes, se veem (os trabalhadores) obrigados a suspender seu trabalho, é melhor dar suas queixas aos seus respectivos presidentes (presidentes de sindicatos) para que possam lidar com as dificuldades diante das respectivas autoridades".

Não há como pedir maior submissão e maior degradação, e tudo isso é dito quando os proletários levantaram a Bandeira Vermelha e estão lutando como heróis nos campos de batalha! Seria um mal menor se isso fosse dito em tempos de paz; mas mesmo assim não permitiríamos que de forma tão cínica se tentasse aniquilar uma das melhores virtudes do povo mexicano: seu espírito de rebeldia.

Trabalhadores: vocês não precisam nomear parasitas para lhes representar em câmaras legislativas, e precisam menos ainda recorrer às autoridades para que os amparem em suas brigas com o Capital. Àqueles que pedem seus votos para representá-los nas câmaras legislativas, cuspam em seus rostos; àqueles que os aconselham a colocar seu destino nas mãos da Autoridade, deem-lhes uma bofetada nos rostos. No parlamento alemão, dizem vossos enganadores, há 110 deputados socialistas, e que benefício a classe trabalhadora do império alemão recebeu desse grande número de sanguessugas? A miséria é cada vez mais terrível em todo o Império; lá o povo está realmente morrendo de fome; os bairros pobres das grandes cidades são verdadeiras pilhas de trapos e de carne miserável apodrecendo em sua própria sujeira, e, enquanto isso acontece, os representantes socialistas estão tranquilamente recebendo belos salários, tirados precisamente na forma de contribuições desta miséria, desta sujeira, desta dor da classe proletária, e Bebel, o supremo pontífice do socialismo alemão, vive a bela vida gastando suas rendas na presença da nudez e da fome de milhões e milhões de pessoas famintas que estão esperando por um governo socialista para colocar a terra e o maquinário de produção em suas mãos. E essa pobre gente seguirá esperando até que o desespero a leve a pegar em armas para alcançar sua emancipação econômica, política e social pelos meios lógicos: a violência!

Enquanto o trabalhador desdenhar da arma em favor do voto, que não fique espantado de ser um assalariado. Nada; chega de farsas, senhores impostores! Ao seu redor as multidões proletárias estão lutando corajosamente para conquistar Terra e Liberdade, e é estupidez na presença de tal dispêndio de energia, coragem, ousadia e virilidade defender o pacifismo, fazer apologia ao voto e colocar o destino dos deserdados nas mãos de seus verdugos.


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 79, 2 de março de 1912

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Trabalhador (1917)

Qualquer um que afirma ser seu amigo, mas que astutamente evita dizer-lhe que a solução para todos os seus males reside na expropriação da riqueza social em benefício de todos, é, na realidade, seu inimigo. Cuidado com ele.

Qualquer pessoa que, embora defenda a expropriação, não lhe diga que a única maneira de realizá-la é usando a força armada, porque seus opressores não lhe entregarão de bom grado o que têm nas garras, é seu inimigo, e você deve ficar atento.

Quem diante de sua raiva diz que deve primeiro se educar e se organizar para ser livre, é seu inimigo, porque seus mestres nunca lhe darão um momento de descanso para se educar e destruirão sua organização quando ela se tornar um perigo para as instituições burguesas.

Quem fala com você sobre o uso de meios pacíficos para ganhar sua emancipação, quer na realidade a perpetuação do sistema capitalista, para que ele possa se tornar um oficial de seu sindicato. O funcionário de um sindicato de trabalhadores é o pior inimigo da revolução, porque essa o impede de continuar vivendo do suor do proletariado.

Trabalhador: tome cuidado com estas víboras que infelizmente abundam no campo dos trabalhadores.


Ricardo Flores Magón
Regeneración, n. 256, 21 de abril de 1917.


Notas

[1] Salta-nos aos olhos essa apologia à Benito Juárez, sob o qual a rebelião do Chalco foi esmagada. É de se notar a claridade do programa que dirigia essa rebelião. Ver: Manifiesto a todos los pobres y oprimidos de México y del Universo (1869). [Nota Amanajé]

[2] Thomas Munzer (Stolberg, 1490-Mühlhausen, 1525). Clérigo reformador que gradualmente se radicalizou do luteranismo para o radicalismo revolucionário. Em desacordo com protestantes e católicos, criou uma comunidade cristã em Allsted. Fundou a Liga de los Elegidos. Sua pregação encorajou a chamada Guerra dos Camponeses, que proclamava a necessidade de estabelecer o reino de Deus na Terra e pôr um fim aos tiranos. Após a batalha de Frankenhausen, onde mais de 6.000 rebeldes morreram, foi capturado e decapitado em 27 de maio de 1525. O historiador Ernst Bloch o chamou de Teólogo da Revolução. [Nota AM - Archivo Magón]

[3] John Brown (Torrington, Conn., 1800-Charles Town, West Virginia, 1859). Durante o período pré-Guerra Civil, proclamou a validade da luta armada para exigir a abolição da escravidão e organizou áreas libertas na Virgínia. Em 1859, com 18 seguidores, tomou Harpers Ferry (atual West Virginia) pela força. Foi preso e executado em 2 de dezembro daquele ano. [Nota AM]

[4] O órgão diretor do PLM, responsável pela coordenação das atividades dos grupos políticos afiliados ao Partido no México e nos Estados Unidos. Formalmente constituída em 28 de setembro de 1905, em St. Louis, Mo., a Junta foi inicialmente composta de: Ricardo Flores Magón, presidente; Juan Sarabia, vice-presidente; Antonio I. Villarreal, secretário; Enrique Flores Magón, tesoureiro; Librado Rivera, primeiro delegado; Manuel Sarabia, segundo delegado; Rosalío Bustamante, terceiro delegado. No ano seguinte, Bustamante separou-se da Junta e não era mais signatário do Programa de 1 de julho de 1906. Em 1911, Villarreal e os Sarabias se separaram dela, e no Manifesto de 23 de setembro do mesmo ano deixam de assinar como parte do PLM. [Nota AM]

[5] "Programa del Partido Liberal y Manifiesto a la Nación" [Programa do Partido Liberal e Manifesto à Nação], publicado pela primeira vez no nº11 da 3ª época de Regeneración (St. Louis, Mo.); nele se estabelece a plataforma política do PLM. A maior parte foi escrita por Juan Sarabia, enquanto o manifesto e a declaração de princípios que o precedeu foram escritos por Ricardo Flores Magón. No primeiro número da quarta época de Regeneración (3 de setembro de 1910), foi reproduzida uma versão sintética do Programa, sem o "Manifesto" que o precedeu na publicação original. [Nota AM]

[6] Refere-se à repressão de um grupo de seguidores de Sebastián Lerdo de Tejada acusado de preparar uma conspiração contra o governo porfirista. Por ordem presidencial, através do famoso telegrama "Mátalos en caliente", o governador Luis Mier y Terán ordenou que Vicente Capmany, Francisco Cueto, Luis Alva, Antonio Ituarte, Ramón Albert, Jaime Rodríguez, Lorenzo Portilla, Juan Caro e Antonio Rubalcava fossem fuzilados no quartel militar do porto de Veracruz em 25 de junho de 1879. [Nota AM]

[7] Possível referência ao El Republicano. "Periódico de política, literatura, comércio, indústria, variedades e avisos" (Cidade do México, 1879, dir. José Negrete). Um jornal com afiliação lerdista que empreendeu uma campanha para denunciar a repressão sangrenta do governo contra os lerdistas de Veracruz. [Nota AM]

[8] Refere-se à rebelião indígena ocorrida no cantão de Papantla em junho de 1896. A revolta foi uma resposta à lei de subdivisão da propriedade territorial, que obrigou as aldeias indígenas a dividir suas propriedades comunais. Por ordem do Governador Teodoro Dehesa, o levante foi derrubado militarmente. O líder Francisco Ramírez foi enforcado por ordem do General Rosalino Martínez. [Nota AM]

[9] Refere-se à greve da Cananea, Son., realizada de 1 a 4 de junho de 1906 por trabalhadores da Cananea Consolidated Copper Co. de propriedade de William C. Greene. Promovido pela Unión Liberal Humanidad e pelo Club Liberal de Cananea, devido aos maus tratos aos trabalhadores, baixos salários e discriminação contra os mineiros mexicanos. A greve foi reprimida, a pedido de Greene e do governador Rafael Izábal, pelos rurales mexicanos e os rangers de Arizona. Os principais incentivadores da greve, Manuel M. Dieguez, Esteban Baca Calderon e Francisco Ibarra, foram presos e mais tarde enviados a San Juan de Ulúa. Foram liberados em 1911, após o triunfo da revolução maderista. [Nota AM]

[10] Refere-se à greve do Rio Blanco. Ocorrida nas fábricas têxteis de Río Blanco, Santa Rosa e Nogales, Ver., de 7 a 11 de janeiro de 1907; promovido pelos trabalhadores agrupados em torno do Gran Círculo de Obreros Libres, em resposta às regulamentações impostas pelo Centro Industrial Mexicano, após o fracasso da mediação de Porfirio Diaz na disputa. Os grevistas foram cruelmente reprimidos. Os promotores da greve foram presos e um número desconhecido deles foi submetido a trabalhos forçados em Valle Nacional. Os trabalhos no Río Blanco foram retomados sob vigilância militar. [Nota AM]

[11] Refere-se à rebelião zapoteca liderada pelo líder indígena Mexu Chele em 1881-1882, protestando contra a desapropriação de minas de sal de propriedade comunal, a expropriação de terras, a imposição das autoridades municipais e contra os efeitos da lei hacendaria de 1880. A rebelião foi violentamente reprimida. [Nota AM]

[12] Refere-se à repressão de um motim em Velardeña, Dgo. que ocorreu em abril de 1909. O conflito começou quando os mineiros da American Smelting and Refining Company realizaram uma procissão religiosa para comemorar o primeiro aniversário de um acidente na mina Terreras, no qual muitos trabalhadores perderam suas vidas. A procissão foi interrompida pelo chefe político local, José A. Fabián, e o motim eclodiu. Uma coluna de tropas federais enviadas da capital estadual reprimiu o protesto. [Nota AM]

[13] Refere-se à repressão ordenada por Bernardo Reyes em 2 de abril de 1903 contra uma manifestação contra a reeleição organizada pela Convención Electoral Neoleonesa na Plaza Zaragoza em Monterrey. A polícia disparou sobre os manifestantes a partir dos telhados do Palácio Municipal e de outros edifícios vizinhos. Pelo menos 15 pessoas foram mortas e 25 membros da Convención Electoral foram presos. [Nota AM]

[14] Refere-se à revolta que, em coordenação com a JOPLM [Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano], começou em 30 de setembro de 1906 em Acayucan, Ver. Membros dos clubes Minatitlán, Chinameca e Acayucan participaram da insurreição, liderados por Hilario C. Salas, delegado especial da JOPLM, Enrique Novoa, Román Martín e Cándido Donato Padua. Os rebeldes foram derrotados pelas tropas federais e dispersaram-se nas montanhas de Soteapan. [Nota AM]

[15] Refere-se à rebelião popular que ocorreu em Tomóchic, Chih., entre novembro de 1891 e outubro de 1892, contra o cacicado local e a desapropriação de terras comunais pelas companhias de demarcação. Além desses motivos, os rebeldes praticavam uma religiosidade dissidente. Após várias batalhas, a rebelião foi violentamente reprimida pelo exército federal em 29 de outubro de 1892. [Nota AM]

[16] As haciendas foram um tipo de grande propriedade rural estabelecido nos territórios dominados pela coroa espanhola durante o período colonial, geralmente através da usurpação. Sua produção era um misto de produtos agrícolas e pecuários, geralmente para um mercado regional (fonte: Encyclopedia). [Nota Amanajé]

[17] Partido Socialista do México. Provavelmente uma referência ao Partido Socialista dos Trabalhadores, fundado na Cidade do México em agosto de 1911, por iniciativa de Pablo Zierold, um artesão alemão que vivia no México desde os anos 1880. Seus membros incluídos: Adolfo Santibáñez, Juan Humblot, Emilio V. Rojo, Alberto Galván, Luis Méndez, Enrique Quintanar, Lázaro Gutiérrez de Lara e Zenaido Cárdenas. Seus princípios fundacionais foram inspirados nos do Partido Socialista Espanhol. Alguns de seus membros se separaram em 1912 para juntar-se aos trabalhos do Grupo Anarquista Luz. Manteve laços estreitos com o sindicato dos vidreiros da cervejaria Toluca, onde alguns trabalhadores alemães eram empregados. Seu órgão impresso foi El Socialista, dirigido por Manuel Sarabia. [Nota AM]

Referências Bibliográficas 

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LÓPEZ, Marco Antonio Samaniego. Las estrategias de los anarquistas del Partido Liberal Mexicano, 1902-1918: modificaciones en el entorno estadounidense y revolucionario. 2022. Disponível em: https://moderna.historicas.unam.mx/index.php/ehm/article/view/70411/69186. Acesso em: 24 maio 2022.

MAGÓN, Enrique Flores. Aclaraciones a la vida y obra de Ricardo Flores Magón. 1925. Disponível em: http://www.antorcha.net/biblioteca_virtual/politica/discursos/2.html. Acesso em: 24 maio 2022.

MAGÓN, Ricardo Flores. Atila a las puertas de Roma. Taft envía a la frontera mexicana 30100 soldados, mientras 6 barcos marchan a los puertos mexicanos del Golfo y del Pacífico. Los vampiros de las finanzas, las boas consttrictoras de Wall Street abren las fauces y quieren tragarse a México. ¡Libertarios de todo el mundo, salvad a la Revolución mexicana; nuestro problema es el vuestro.. 1911. Disponível em: http://archivomagon.net/obras-completas/art-periodisticos-1900-1918/1911/1911-19/. Acesso em: 25 maio de 2022.

MAGÓN, Ricardo Flores. Carta a Enrique Flores Magón e Práxedis G. Guerrero. 1908. Disponível em: http://archivomagon.net/obras-completas/correspondencia-1899-1922/c-1908/cor265/. Acesso em: 24 maio de 2022.

SANTILLÁN, Diego Abad de. Ricardo Flores Magón, el apóstol de la Revolución mexicana. 1925. Disponível em: https://es.theanarchistlibrary.org/library/diego-abad-de-santillan-ricardo-flores-magon-el-apostol-de-la-revolucion-mexicana. Acesso em: 20 maio 2022.